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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Comício à moda antiga


Já era boca da noite, os caçotes faziam festa na beira do açude e a lua saía cheia e bonita por cima do serrote. Todo incriquiado, o velho Totonho tomava banho de cuia, a mulher coava café quente e as netas se avexavam para não perder a hora do acontecimento.

Zefa, filha de Biu das redes, imburacou pelo corredor que dava para a cozinha, avisando que o bigu iria passar dentro de meia hora, chamou o velho de ronceiro e disse que iria deixá-lo se não estivesse logo pronto pra pegar o carro.

- Vai-te embora, marmota! Quem disse que tenho que ir incangado com você? Ainda tenho minha égua!

Às seis e meia, estavam todos na maior presepada tentando se ajeitar dentro do carro. Cheio de munganga, Quincas Motorista tratou logo de arranjar um lugar pra Zefa bem pertinho dele e as outras meninas se amontoaram lá atrás fazendo mangação dos dois.

Embora a estrada de terra estivesse boa e clara, ele que costumava dirigir com a mulesta dos cachorros, preferiu ir como um jabuti, sem catabi nenhum, talvez para prolongar mais um pouco o atrito bom do braço esquerdo de Zefinha.

- Vou te pastorar, visse menina? – falou a velha, que também era sua madrinha.

- Já tenho dezoito anos, viu? Desde o ano passado! – respondeu a cabrita, toda cheia de inxirimento.

Finalmente chegaram e a praça estava toda iluminada com uma ruma de gente segurando bandeiras e faixas, vestindo camisas dos políticos e esperando pelo começo do evento. Zabé Coió, Chico Goipada e João Arisia também estavam lá, além de outros parentes e amigos vindos de todos os sítios das redondezas.
Por falar em camisas, Tião de Cima, que estava sem ver a mulher havia mais de um mês, devido a uma longa temporada trabalhando fora, tinha mandado recado dizendo que ela o esperasse toda cheirosa porque ele estaria chegando no dia anterior. Ele chegou já tarde da noite, tomou um banho, fez um lanchinho ligeiro e correu pro quarto pensando em fazer junto  com ela todas as estripulias que já tinham ensaiado antes da viagem. Quando entrou no quarto e viu a esposa toda cheirosa mas vestida com a camisa de um vereador da oposição, perdeu a vontade, apagou o candeeiro e pegou logo no sono. Seguiram-se duas semanas de intriga mas depois chegaram a um acordo.

Naquele tempo a lei ainda permitia que os políticos levassem bandas para os comícios. Um trio tocava forró pé de serra enquanto o povo dançava, olhava, comprava rolete de cana ou botava a conversa em dia.

Um a um, falaram os candidatos à câmara municipal. Críticas aos adversários, promessas mil e louvações ao candidato a prefeito faziam parte do repertório de todos eles. Às nove e meia da noite, uma chuva de fogos foi vista no céu da cidadezinha. Era o coronelzinho que começava a fazer seu discurso:

- Povo bom e abençoado, todo mundo sabe que os homens do outro lado não fizeram nada para melhorar o lugar onde a gente vive. Nadica de nada! O hospital está sem doutor e não tem nem remédio pra gastura, é de arripunar a situação financeira da prefeitura e fico distrenado só de pensar no sofrimento dos meninos e meninas que estão indo pra escola sem receber a merenda. Quero dizer também que estou em ponto de dar pipoco ao ver um magote de preguiçoso recebendo dinheiro sem fazer nada! De novidade por aqui não se vê nem um fiteiro!

E prosseguiu, todo moralista...

-  Vocês sabem que eu sou um rapaz de família, que nunca fiquei de pantim pra mulé dos outros, nunca arrumei confusão com quenga, nunca roubei dinheiro do povo, nunca fiz acordo político com essas trepeças que afundaram o município, nunca fiquei me pabulando de coisas que não fiz...

- Também sabem – continuou – que quando eu for eleito, vou trabalhar pelo futuro de quem não tem futuro, vou acabar com a misera que se instalou em nossa região, vou arranjar emprego pra quem tá parado e vou encher o bucho de quem tá com fome! E não adianta gente do outro lado ficar olhando amuado pro meu comício! O povo todo está aqui fazendo o V da Vitória e a melhor coisa que você pode fazer agora é passar ligeiro pro lado de cá!

Nesse ponto, um bajulador de plantão, acompanhado pelo triângulo, pelo zabumba e pela sanfona dos forrozeiros, começou a cantar:

 - Venha comigo amor, não seja um perdedor, o seu partido já vai afundar! Ainda dá tempo amor, de virar um vencedor, passe ligeiro pro lado de cá!

E a multidão cantou junto...

Lá pras dez e tantas da noite, depois de muita falação, tudo terminou com outra chuva de fogos, o pessoal embarcou de volta pra casa e Zefinha foi a primeira a pinotar dentro da rural, grudada em Quincas...
Humberto de Lima

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