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"Um líder é alguém que conhece o caminho, vai pelo caminho e mostra o caminho". (John C. Maxwell).

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Debates - Sete passos para vencer de qualquer jeito!

                         


Você pleiteia um cargo eletivo no executivo e está temeroso em relação aos debates? Geralmente transmitidos ao vivo, os debates devem ser enfrentados com ficha limpa, currículo bom, raciocínio rápido e muito conhecimento de causa. É assim que funcionam as democracias mais avançadas do Primeiro Mundo!

Mas, em algum lugar do Atlântico Sul, as coisas são bem diferentes e a receita para vencer qualquer um em qualquer debate contém ingredientes que a deixam pra lá de carregada. Como disse um ex-presidente, vale fazer o diabo!

Portanto, para ganhar a eleição, mesmo que seja imitando o capiroto, preste atenção às dicas de gente que já tem experiência no assunto:

1. Pesquise o  passado do seu adversário. Se não achar nada que o desabone, crie, fale mal do cabelo dele, da mãe dele, dos irmãos dele, de gente do partido dele que governou no século passado e diga também que ele é magro ou gordo demais para o cargo!

2. Quando for atacado com denúncias verdadeiras para as quais você não tenha saída, faça cara de quem não sabia de nada e diga muitas vezes que está estarrecido!

3. Se o seu adversário citar contra você dados oficiais, diga que ele está mal informado e invente outros números completamente diferentes. Afinal, o telespectador ficará tonto do outro lado e dificilmente saberá quem está falando a verdade!

4. Prometa mundos e fundos, ainda que não tenha feito o que deveria ter feito em mandatos anteriores.

5. Amedronte. Insinue que seu adversário planeja acabar com todas as bolsas e auxílios do mundo. O povão morre de medo!

6. Quando não souber responder à pergunta que lhe foi feita, fale qualquer coisa, fale de outro assunto. Em hipótese alguma fique calado durante o seu tempo de indagação, réplica ou tréplica.

7. Ao final do debate, mostre-se confiante e não saia enquanto não falar para todos os repórteres e microfones que ainda estiverem no recinto. Depois mande editar as gravações e recortar aquelas partes do confronto em que você bateu mais do que apanhou. Coloque tudo na sua propaganda eleitoral gratuita e aguarde seu destino nas urnas.

Tomara que você perda!


Humberto de Lima

sábado, 9 de agosto de 2014

Eu e meu velho



Às vezes me pego sentado naquela sala, silenciosamente olhando meu pai entre uma conversa e outra. Com mais de oitenta anos, a herança genética e uma vida sem vícios contribuíram para que o Irmão João tenha boa saúde.

Filho do mato, ele cresceu em ambiente harmonioso mas carente da cultura de beijos e abraços que hoje compartilho com meus filhos.  Por isso, somente agora depois de homem feito é que estou aprendendo a abraçar e beijar meu tímido pai.

Leitor apenas da Bíblia e vindo a ter contato com rádio e televisão somente há pouco tempo, quando indagado sobre a ditadura militar, sem entender o que de fato se passou, ele apenas diz que foi um bom momento para o Brasil, pois a polícia botava ordem nas ruas e a bandidagem não perturbava como hoje em dia.

Em sua simplicidade ele ainda acredita em um monte de coisas que lhe foram ditas pelos políticos ou ensinadas pelos profissionais da religião; e é daquela mesma sala que vejo como são diferentes os caminhos trilhados pelos nossos pensamentos. Sem perceber no mundo as muitas maldades que nos cercam, a vida de meu pai segue sem os questionamentos e protestos que fazem parte de meu pensar, de meu falar e de meu escrever. Mas sua essência é boa, meu pai é do bem!

Pássaro solto, vou cada vez mais longe em meus vôos e ao mesmo tempo gosto cada vez mais de pousar naquela sala, sentar naquela cozinha. Por falar nisso, semana passada eu estive com ele. Percebendo que eu estava espirrando muito, logo sugeriu que eu cancelasse os compromissos do dia seguinte, evitasse água gelada e tomasse um xarope que ele mesmo tratou de arranjar.

E foi na cozinha que me senti amado como nos velhos tempos. Passando manteiga em um pão, ele repetiu a mesma cena que vi tantas vezes quando era pequeno e me disse:
- Não passe da hora de tomar café. Venha comer alguma coisa, Beto! 

Embora eu já tenha mais de quarenta, não tenho dúvidas de que continuo sendo o seu menino de sempre. Que Deus abençoe meu velho neste dia e em todos os outros que ainda vamos ter!

Humberto de Lima

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu no Congresso Nacional


Cheguei pouco depois das 14:00 e comecei pela Câmara. Depois de me identificar junto ao pessoal encarregado pela segurança, recebi um botom específico para visitantes e saí de lá para explorar e conhecer outros setores da Casa.

Como estava sozinho, precisei de vários funcionários para me fotografar e também para me dar informações. Fiquei admirado com a simpatia deles e saí de lá com a impressão de que os servidores do legislativo federal são servidores felizes. O plenário da Câmara tinha pouca gente e a sessão do dia parecia não querer decolar. Troquei ideias com o policial de plantão e com uma capitã da Aeronáutica que lá também se encontrava e logo depois rumei para o Senado.

Nos corredores, apesar de anônimo, fui cumprimentado com reverência por várias pessoas que nunca vi. Estavam me confundindo com algum famoso?

Entrei finalmente no plenário do Senado. Havia começado o grande expediente e o Senador Magno Malta proferia inflamado discurso. Gosto de ouvir bons oradores e não prestei atenção a outros detalhes enquanto ele prosseguia. Confesso que fiquei emocionado e por um instante também me imaginei ali naquela tribuna, falando em benefício de minha querida Paraíba!

Sentado a poucos metros de figuras folclóricas, comecei a fazer uso da agenda, da caneta e do celular, registrando tudo o que podia.

O próximo orador subiu e percebi que muitos senadores não tomaram conhecimento da presença dele nem de sua fala; estavam quase todos conversando em pé e de costas para ele. Além de mim, somente meia dúzia de parlamentares, os poucos visitantes e o pessoal da segurança pareciam dar atenção ao homem que falava como quem fala ao vento.

Dois deles se inscreveram para discursar sobre a CPI da Petrobrás, um contra e o outro a favor.  – Agora a coisa vai pegar fogo e todos vão se voltar para a tribuna! – Pensei. Engano meu. Enquanto três pessoas tentavam ao mesmo tempo cochichar alguma coisa nos ouvidos de José Sarney, novos grupos de conversas paralelas iam se formando. Fiquei chateado. O Senado é bonito, mas parece uma feira livre! 

Apesar de suas imperfeições, as duas casas, formadas por integrantes de vários partidos e escolhidos pelo voto direto do povo, são instituições necessárias ao equilíbrio do Estado Democrático de Direito e devem ser valorizadas e acompanhadas por todos nós. 

Era quase noite quando saí de lá, ainda sonhando com a possibilidade de um dia poder usar aqueles microfones para o bem da nação. Mais tarde, já deitado em  casa, refleti sobre tudo o que vi e ouvi naquela tarde e adormeci com uma pergunta. Quem votaria em mim

Humberto de Lima

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Temos Copa! E agora?


Juro que se dependesse de mim a decisão de receber a copa aqui em nosso país, não seria agora. Eu enviaria nosso time para disputar a taça em qualquer outro lugar do mundo e trataria de arrumar a casa antes. Inverteria a ordem das coisas e não tentaria construir nenhuma estrutura às pressas por causa de um evento; reveria minhas prioridades e somente o traria depois que o país tivesse prontos em padrão de excelência, os hospitais, as escolas, as creches, as estradas, os portos, aeroportos, segurança pública e outros itens bem mais urgentes.

Confesso que faria uma festa de abertura diferente, com mais destaque para o cadeirante que utilizando tecnologia nacional, conseguiu levantar e chutar a bola. Assim fazendo, mostraria aos nossos jovens que, além dos esportes, existem outras áreas nas quais eles e nossa nação podem se destacar.

Mais que isso, eu trocaria aquela música que foi cantada por Jennifer Lopez, Pit Bull e Claudia Leite e teria dado a eles algo mais envolvente. Nós temos gente capaz de fazer algo melhor! Até mesmo aquela musiquinha da Globo (... é taça na raça...), além de ter o povo cantando junto, teria soado melhor!

Em termos de figurinos e coreografias eu teria dispensado a produção importada e teria conversado com os carnavalescos da Sapucaí. Penso que eles certamente fariam algo mil vezes mais interessante!

Mas nada disso depende de um cidadão comum. O fato é que apesar de todos os protestos, a Copa está aí. Que fazer, então?

Receba bem os turistas – Além de serem seres humanos dignos de nosso respeito, eles estão deixando parte do dinheiro deles com nosso pessoal da hotelaria, com nossos taxistas, , nossos restaurantes, os vendedores de água de coco, a mulher da tapioca etc.

Fique longe dos vândalos – Não abra mão de seu direito constitucional de expressar sua opinião contra ou a favor, mas fique bem longe dos baderneiros. Quem sai de casa mascarado com a intenção de depredar patrimônio alheio público ou privado é criminoso, dever ser evitado pelo cidadão de bem e contido pela polícia.

Torça pelo Brasil – Se você não gosta de futebol, não assista aos jogos. Mas se é daqueles que são apaixonados pela camisa amarela, reúna a família e os amigos e curta com eles as jogadas de nossa seleção.

Ah, só mais uma coisa! Ao terminar a Copa, retome a cobrança por hospitais, escolas, creches, estradas, portos, aeroportos, segurança pública, punição dos corruptos e outros itens que continuarão sendo urgentes. E quando as eleições chegarem, pense bem antes de votar.

Humberto de Lima

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sobre deuses e desencontros


O Sr. ABC veio correndo para contar uma boa notícia para o Sr. DEF. O Sr. ABC dizia ter encontrado um deus! Mas o Sr. DEF estava ocupado, conversando com o Sr. GHI sobre uma feliz coincidência: ambos animadamente afirmavam também terem tido um encontro com um deus. Puseram-se os três a trocar ideias.

Em determinado momento, o Sr. GHI tentou convencer os outros dois sobre a importância de adorar ao seu deus no fundo de seu quintal. Segundo ele, em nenhum outro lugar a divindade parecia tão visível e bela. Mas o Sr. DEF não quis ouvir a sugestão do Sr. GHI, pois já estava começando uma discussão com o Sr. ABC sobre o tipo de roupa que todos deveriam usar quando se apresentassem diante do deus verdadeiro que ele anunciava. O Sr. ABC, por sua vez, achava que qualquer roupa estava boa, e, em alta voz gritava dizendo que por ser o mais velho, deveria ser o intermediário entre seus vizinhos e o deus legítimo por ele representado.

Lá para as tantas, todos ficaram exaltados, um deles foi chamado de herege, outro levou um soco na testa e de faca em punho rosnava, dizendo que numa mensagem recebida do além, o ser supremo lhe havia autorizado a matar quem ousasse pensar diferente daquilo que ele ensinava!

Moral da estória? Nem toda experiência religiosa produz amor! Além disso, o tipo de deus que cada um de nós realmente encontra se revela na forma como tratamos os outros.

Humberto de Lima

terça-feira, 6 de maio de 2014

Postagens que matam


O Jornal Nacional dessa segunda-feira, dia 05 de maio de 2014, apresentou matéria das mais chocantes. Em uma cidade do litoral de São Paulo, uma jovem morreu vítima de espancamento por populares que a confundiram com o retrato falado de uma suposta feiticeira acusada de assassinar crianças em rituais satânicos.  Detalhe: O retrato falado fazia parte de um boato publicado pela internet! Por mais extremo que pareça, esse caso serve de alerta sobre a responsabilidade que assumimos cada vez que lemos ou escrevemos algo nas redes sociais.

Nesta era de informação ultrarrápida, basta um toque na tecla ENTER e alguns segundos para que uma mensagem de texto voe de Porto Alegre a Macapá ou aquela foto viaje de Honolulu a Lisboa.

Como num jogo frenético, carregado de informação e contrainformação, emissores e receptores parecem estar preocupados apenas com a rapidez com que dão suas tacadas. Assim, postar primeiro, curtir primeiro, comentar primeiro ou compartilhar primeiro, acaba sendo para muitos o objetivo maior de toda e qualquer atividade na rede mundial de computadores.

Nesse contexto, podemos afirmar que já se foi o tempo em que mentira tinha pernas curtas e não conseguia ir muito longe. Hoje em dia, verdades e inverdades se deslocam na mesma velocidade, e, separadas ou juntas, conseguem chegar a qualquer lugar do mundo!

Para tornar tudo mais complexo, acrescente-se que o século vinte e um é o século das montagens; e, por causa delas, mentiras são divulgadas como se fossem verdades e vice-versa. Até que um especialista ou perito se pronuncie sobre a fraude, muitos males poderão ter sido causados a um indivíduo em particular, a uma instituição ou a uma nação como um todo.

A cada ano, centenas de religiosos, artistas, empresários, servidores públicos, celebridades em geral e políticos, principalmente políticos, são vítimas dos teclados apressados. Mas não são os famosos os únicos prejudicados por essa inconsequente mania. Assim como no caso da jovem vítima mostrada na reportagem de hoje, qualquer um, a qualquer hora, poderá ter que lidar com os danos, às vezes irreparáveis, causados pela injúria, calúnia, difamação ou pelo uso ilícito da imagem alheia.

Por essas e por outras razões, no mundo virtual, ser rápido demais no gatilho nem sempre é bom. O que fazer, então, para não se envolver nem contribuir com injustiças da rede?

1. Fuja das generalizações – Apesar dos maus exemplos perceptíveis nestas e em qualquer outra atividade, não é verdade que todo padre é pedófilo, todo pastor é desonesto, todo advogado é mentiroso, todo político é ladrão.

2. Lembre-se do princípio da presunção de inocência – Todo cidadão deve ser considerado inocente, até que, por devido processo legal que lhe assegure direito à ampla defesa e ao contraditório, seja considerado culpado em sentença judicial para a qual já não caibam recursos.

3. Controle seus impulsos – Geralmente, o mundo das redes sociais nos tenta a dar parecer sobre todos os assuntos e a opinar sobre todos os conflitos. Quando o fazemos apressadamente, corremos os riscos de cometer equívocos e de atrair contra nós processos judiciais e outras reações igualmente desconfortáveis. Por isso, respirar fundo e analisar as coisas com calma é sempre bom antes de comprar qualquer briga.

Dois mil anos depois, o conselho de São Tiago parece cada vez mais atual: - Esteja sempre pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para irar-se.

Humberto de Lima

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Para não se esquecer de ser feliz


Eu sei que temos um monte de problemas pra resolver e uma turma de políticos ruins para substituir. Mas, se comparados com outros países, veremos que ainda temos motivos para acreditar em dias melhores. O segredo consiste em nunca abrir mão de nosso direito de ser felizes!

O povo é infeliz quando é privado da liberdade de escolha e obrigado a engolir a ideia de partido único!

O povo é infeliz onde um indivíduo ou grupo consegue se perpetuar no poder!

O povo é infeliz quando tem sua imprensa censurada, castrada e perseguida!

O povo é infeliz quando o poder executivo se sobrepõe e sufoca os demais poderes!

O povo é infeliz quando em seu território discordar é algo proibido!

O povo é infeliz quando seu governo se associa às ditaduras e delas copia o modus operandi!

O povo é infeliz quando dele roubam o direito à ampla defesa e ao contraditório!

O povo é infeliz quando seus ateus ou seus crentes são perseguidos simplesmente pelo fato de serem ateus ou crentes!

O povo é infeliz quando Igreja e Estado misturam-se; é igualmente infeliz quando o Estado persegue a Igreja!

O povo é infeliz quando é subalimentado com migalhas governamentais e mantido na ignorância; dessa forma, a política de pão e circo os torna infelizes, embora não saibam!

O povo é infeliz quando confunde democracia com o domínio da maioria ou da minoria. Ela não é uma coisa nem outra, pois a ambas transcende!

A verdadeira democracia consiste na convivência pacifica das diversidades étnicas, políticas, partidárias, filosóficas, religiosas e culturais. Democracia é a arte de costurar colchas de retalhos multicoloridos. Que o povo Brasileiro nunca abra mão dela!

Humberto de Lima

segunda-feira, 17 de março de 2014

Quando religião faz mal


Sendo a religião busca pelo Sagrado e tentativa de religação com o Divino, é de se esperar que crentes de todas as crenças contribuam para a existência de um mundo melhor. De fato, bons exemplos podem ser encontrados em toda a parte. Porém, há situações que analisadas à luz do bom senso, revelam que a prática religiosa às vezes pode ser equivocada e portanto danosa aos que nela se envolvem. Senão, vejamos:

Religião faz mal quando inculca na cabeça de seus seguidores a ideia de que são os únicos detentores de toda a verdade. Auto-declarados superiores em relação ao resto da humanidade, eles se tornam encarnação da arrogância.

Religião faz mal quando prega que é permitido matar em nome do Altíssimo. Ora, embora faça sentido a hipótese da legítima defesa, a solução dos conflitos por meios pacíficos continua sendo a alternativa mais sensata e deve ser buscada sempre. Nenhuma guerra é santa!

Religião faz mal quando desestimula o pensar. Quem não pensa por si mesmo, não questiona! E quem não questiona é facilmente enganado, manipulado e explorado pelos aproveitadores de plantão.

Religião faz mal quando sufoca a música, amordaça a poesia, proíbe a risada e inibe a celebração. O semblante e o jeito de ser azedo de gente que diz ter tido um encontro com deus sugerem a pergunta: - Qual deus?

Religião faz mal quando põe cabeças nas nuvens e faz esquecer que os pés ainda estão no chão. Dessa forma, a alienação que se instala impede que os crentes assumam o papel histórico e transformador que lhes cabe na sociedade.

Religião faz mal quando apela o tempo todo para o miraculoso. Os que assim fazem, deixam de arregaçar as mangas em prol de uma melhor qualidade de vida e tornam-se presas fáceis dos charlatões modernos.

Religião faz mal quando o discurso e a prática não se encontram, ainda que o discurso seja muito bom. O Pe. Antonio Vieira em seu Sermão da Sexagésima acertadamente já dizia: - Preguem também aos olhos e não apenas aos ouvidos!

Religião faz mal quando focamos mais nas divergências do que naquilo que temos em comum. É saudável que cada um possua e saiba defender seus pontos de vista, mas é preocupante que crentes persigam e maltratem outros crentes por causa de diferenças denominacionais, dogmáticas, litúrgicas ou doutrinárias.

Religião faz mal quando se mistura com o Estado. Os anais da História estão aí para provar que na maioria das vezes esse tipo de casamento resultou em corrupção clerical, intolerância contra os fiéis de outros credos e perseguição implacável contra os que admitem não crer.

Religião faz mal quando provoca anomalias relacionais. Se por um lado erra aquele que se isola e nada faz para melhorar como gente, por outro lado também erra aquele que dentro do ambiente religioso esquece da trave em seu próprio olho e ocupa-se em fazer publicidade do argueiro no olho do vizinho.

Religião faz mal quando tenta criar super-homens e semi-deuses. Na ânsia de vender bem seus produtos, algumas estrelas do Faith-Business tentam passar a ideia de que nunca choram, nunca perdem, nunca adoecem, nunca pecam... Um dia a casa cai e o lado humano e falível deles acaba aparecendo para decepção daqueles que os idolatram.  

Religião faz mal quando pensamos que já sabemos tudo. Todavia, no cuidar de uma planta, no caminhar pela praia, na apreciação das artes, na festa de casamento, na casa do luto, na brincadeira com a criança, na conversa com o idoso e na convivência comunitária, ainda temos muita coisa boa para aprender sobre o Eterno e sobre a vida. 

Humberto de Lima

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Comício à moda antiga


Já era boca da noite, os caçotes faziam festa na beira do açude e a lua saía cheia e bonita por cima do serrote. Todo incriquiado, o velho Totonho tomava banho de cuia, a mulher coava café quente e as netas se avexavam para não perder a hora do acontecimento.

Zefa, filha de Biu das redes, imburacou pelo corredor que dava para a cozinha, avisando que o bigu iria passar dentro de meia hora, chamou o velho de ronceiro e disse que iria deixá-lo se não estivesse logo pronto pra pegar o carro.

- Vai-te embora, marmota! Quem disse que tenho que ir incangado com você? Ainda tenho minha égua!

Às seis e meia, estavam todos na maior presepada tentando se ajeitar dentro do carro. Cheio de munganga, Quincas Motorista tratou logo de arranjar um lugar pra Zefa bem pertinho dele e as outras meninas se amontoaram lá atrás fazendo mangação dos dois.

Embora a estrada de terra estivesse boa e clara, ele que costumava dirigir com a mulesta dos cachorros, preferiu ir como um jabuti, sem catabi nenhum, talvez para prolongar mais um pouco o atrito bom do braço esquerdo de Zefinha.

- Vou te pastorar, visse menina? – falou a velha, que também era sua madrinha.

- Já tenho dezoito anos, viu? Desde o ano passado! – respondeu a cabrita, toda cheia de inxirimento.

Finalmente chegaram e a praça estava toda iluminada com uma ruma de gente segurando bandeiras e faixas, vestindo camisas dos políticos e esperando pelo começo do evento. Zabé Coió, Chico Goipada e João Arisia também estavam lá, além de outros parentes e amigos vindos de todos os sítios das redondezas.
Por falar em camisas, Tião de Cima, que estava sem ver a mulher havia mais de um mês, devido a uma longa temporada trabalhando fora, tinha mandado recado dizendo que ela o esperasse toda cheirosa porque ele estaria chegando no dia anterior. Ele chegou já tarde da noite, tomou um banho, fez um lanchinho ligeiro e correu pro quarto pensando em fazer junto  com ela todas as estripulias que já tinham ensaiado antes da viagem. Quando entrou no quarto e viu a esposa toda cheirosa mas vestida com a camisa de um vereador da oposição, perdeu a vontade, apagou o candeeiro e pegou logo no sono. Seguiram-se duas semanas de intriga mas depois chegaram a um acordo.

Naquele tempo a lei ainda permitia que os políticos levassem bandas para os comícios. Um trio tocava forró pé de serra enquanto o povo dançava, olhava, comprava rolete de cana ou botava a conversa em dia.

Um a um, falaram os candidatos à câmara municipal. Críticas aos adversários, promessas mil e louvações ao candidato a prefeito faziam parte do repertório de todos eles. Às nove e meia da noite, uma chuva de fogos foi vista no céu da cidadezinha. Era o coronelzinho que começava a fazer seu discurso:

- Povo bom e abençoado, todo mundo sabe que os homens do outro lado não fizeram nada para melhorar o lugar onde a gente vive. Nadica de nada! O hospital está sem doutor e não tem nem remédio pra gastura, é de arripunar a situação financeira da prefeitura e fico distrenado só de pensar no sofrimento dos meninos e meninas que estão indo pra escola sem receber a merenda. Quero dizer também que estou em ponto de dar pipoco ao ver um magote de preguiçoso recebendo dinheiro sem fazer nada! De novidade por aqui não se vê nem um fiteiro!

E prosseguiu, todo moralista...

-  Vocês sabem que eu sou um rapaz de família, que nunca fiquei de pantim pra mulé dos outros, nunca arrumei confusão com quenga, nunca roubei dinheiro do povo, nunca fiz acordo político com essas trepeças que afundaram o município, nunca fiquei me pabulando de coisas que não fiz...

- Também sabem – continuou – que quando eu for eleito, vou trabalhar pelo futuro de quem não tem futuro, vou acabar com a misera que se instalou em nossa região, vou arranjar emprego pra quem tá parado e vou encher o bucho de quem tá com fome! E não adianta gente do outro lado ficar olhando amuado pro meu comício! O povo todo está aqui fazendo o V da Vitória e a melhor coisa que você pode fazer agora é passar ligeiro pro lado de cá!

Nesse ponto, um bajulador de plantão, acompanhado pelo triângulo, pelo zabumba e pela sanfona dos forrozeiros, começou a cantar:

 - Venha comigo amor, não seja um perdedor, o seu partido já vai afundar! Ainda dá tempo amor, de virar um vencedor, passe ligeiro pro lado de cá!

E a multidão cantou junto...

Lá pras dez e tantas da noite, depois de muita falação, tudo terminou com outra chuva de fogos, o pessoal embarcou de volta pra casa e Zefinha foi a primeira a pinotar dentro da rural, grudada em Quincas...
Humberto de Lima

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