Gosto de lembrar da ilha;
não da ilha poluída e violenta de hoje. Falo do micro-mundo em que vivi
minha infância. E como as coisas eram diferentes naquele tempo em que eu
crescia às margens do Sanhauá!
Em um ambiente que se
aproximava mais do rural do que do urbano (embora vivêssemos a poucos
quilômetros do centro da cidade), passava o trem de ferro de vez em quando, e
os carros, todos de fora, raramente apareciam em forma de Simca ou Vemaguete.
Criado em uma família
protestante, eu não chamava palavrões, mas uma das vizinhas que tinha dentro de
casa mais de dez filhos, além dos sobrinhos e afilhados, passava todos os dias
e o dia todo chamando os nomes feios da época: Bexiga taboca, gota serena, estupor
balaio, engangrenado, murrinha dos pintos e moléstia dos cachorros faziam parte
do repertório dela. Se comparados aos nomes feios de hoje, não
eram tão feios assim...
Havia expressões bem
específicas para situações igualmente específicas. Por exemplo, quando alguma
menina fugia com o namorado, dizia-se: - A filha de Fulano se perdeu com o
filho de Sicrano! O rapaz ficava conhecido como sendo o
autor da moça que a partir de então virava mulher. Quando ele não assumia a relação espontaneamente
ou por meio de casamento amarrado, se ela ficava saindo com gatos e cachorros,
falava-se então: - Deu para a vida!
Corno e chifre,
infelizmente, parecem ser vocábulos eternos, pois sempre foram usados antes,
durante e depois daquela época. Mas também se usava muito outra expressão
atrelada ao ato adulterino: cangalha! Vale destacar que a pronúncia corrente
era “cangaia”. Em meio a uma sociedade machista que atribuía má fama
somente à mulher traidora, ai daquela que ganhasse o título de cangaeira!
O moderno AVC era conhecido
como ramo; e, para evitá-lo proibia-se tomar café ao vento, leite com manga
etc. Eu tinha dificuldade para entender o que era comida carregada porque em
minha cabeça eu pensava que até chegar à mesa, tudo era carregado de algum
lugar. E o câncer? Chamá-lo pelo nome, nem pensar! Aos cochichos, falavam “aquela doença” ou então se referiam
àquela “doença feia”
Balada era assustado; e o
pessoal fazia muitos assustados naquelas bandas. Por falar em
música, acho que o pior da música era muito superior ao pior
da música hoje; pois o ruim daqueles anos, apesar de tudo, tinha lógica, não falava
de bunda o tempo todo nem chamava mulher de cachorra.
O nordestinês era bem mais presente
em nosso dia a dia. Lugar distante era baixa da égua, acreditar em fofocas era
emprenhar pelos ouvidos, menstruar era ficar de boi, trocar carícias íntimas
era xumbregar, marca de pancada era roncha, defecar era obrar, amolação era
peitica, enganação era esparrela, triste era capiongo, enguiçar era dar o prego,
árvore era pé de pau, lavar a égua era levar vantagem, mal estar era gastura, mau cheiro era inhaca ou catinga, coisa sem importância era miolo de pote, objeto de má qualidade era peba, ferida era pereba, paquerar era se inxirir, ir embora era pegar o
beco e ôxente era ôxente mesmo!
Em tempos de ditadura militar,
quando televisão ainda era coisa exclusiva pra gente rica, nós do povão éramos
doutrinados pelo governo através do rádio. E havia no contexto político uma
palavra que era o equivalente de satanás no contexto religioso. Um dia, ouvi a
dita cuja em algum lugar, achei bonita e quando voltei pra casa, fui logo
dizendo:
- Mãe, quando crescer, eu vou
ser comunista!
Ela chorou, disse que aquela era uma palavra horrível e me
pediu para nunca mais repeti-la. Eu só saberia o porquê daquilo muitos
aniversários depois.
Humberto de Lima
