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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

De volta à ilha




Gosto de lembrar da ilha; não da ilha poluída e violenta de hoje. Falo do micro-mundo em que vivi minha infância. E como as coisas eram diferentes naquele tempo em que eu crescia às margens do Sanhauá!
 
Em um ambiente que se aproximava mais do rural do que do urbano (embora vivêssemos a poucos quilômetros do centro da cidade), passava o trem de ferro de vez em quando, e os carros, todos de fora, raramente apareciam em forma de Simca ou Vemaguete.
 
Criado em uma família protestante, eu não chamava palavrões, mas uma das vizinhas que tinha dentro de casa mais de dez filhos, além dos sobrinhos e afilhados, passava todos os dias e o dia todo chamando os nomes feios da época: Bexiga taboca, gota serena, estupor balaio, engangrenado, murrinha dos pintos e moléstia dos cachorros faziam parte do repertório dela. Se comparados aos nomes feios de hoje, não eram tão feios assim... Por falar nisso, até hoje ninguém me explicou o que seria um infeliz da costa oca!
 
Havia expressões bem específicas para situações igualmente específicas. Por exemplo, quando alguma menina fugia com o namorado, dizia-se: - A filha de Fulano se perdeu com o filho de Sicrano! O rapaz ficava conhecido como sendo o autor da moça que a partir de então virava mulher. Quando ele não assumia a relação espontaneamente ou por meio de casamento amarrado, se ela ficava saindo com gatos e cachorros, falava-se então: - Deu para a vida!
 
Corno e chifre, infelizmente, parecem ser vocábulos eternos, pois sempre foram usados antes, durante e depois daquela época. Mas também se usava muito outra expressão atrelada ao ato adulterino: cangalha! Vale destacar que a pronúncia corrente era “cangaia”. Em meio a uma sociedade machista que atribuía má fama somente à mulher traidora, ai daquela que ganhasse o título de cangaeira!
 
O moderno AVC era conhecido como ramo; e, para evitá-lo proibia-se tomar café ao vento, leite com manga etc. Eu tinha dificuldade para entender o que era comida carregada porque em minha cabeça eu pensava que até chegar à mesa, tudo era carregado de algum lugar. E o câncer? Chamá-lo pelo nome, nem pensar!  Aos cochichos, falavam “aquela doença” ou então se referiam àquela “doença feia”
 
Balada era assustado; e o pessoal fazia muitos assustados naquelas bandas. Por falar em música, acho que o pior da música era muito superior ao pior da música hoje; pois o ruim daqueles anos, apesar de tudo, tinha lógica, não falava de bunda o tempo todo nem chamava mulher de cachorra.
 
O nordestinês era bem mais presente em nosso dia a dia. Lugar distante era baixa da égua, acreditar em fofocas era emprenhar pelos ouvidos, menstruar era ficar de boi, trocar carícias íntimas era xumbregar, marca de pancada era roncha, defecar era obrar, amolação era peitica, enganação era esparrela, triste era capiongo, enguiçar era dar o prego, árvore era pé de pau, lavar a égua era levar vantagem, mal estar era gastura, mau cheiro era inhaca ou catinga, coisa sem importância era miolo de pote, objeto de má qualidade era peba, ferida era pereba, paquerar era se inxirir, ir embora era pegar o beco e ôxente era ôxente mesmo!
 
Em tempos de ditadura militar, quando televisão ainda era coisa exclusiva pra gente rica, nós do povão éramos doutrinados pelo governo através do rádio. E havia no contexto político uma palavra que era o equivalente de satanás no contexto religioso. Um dia, ouvi a dita cuja em algum lugar, achei bonita e quando voltei pra casa, fui logo dizendo:
- Mãe, quando crescer, eu vou ser comunista!
 
Ela chorou e me pediu para nunca mais pronunciar aquela palavra horrível. Eu só saberia o porquê daquilo muitos aniversários depois.
 
Humberto de Lima

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