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"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Quando Zorro não dá conta



Nada mais romântico do que a figura do cavaleiro que surge em meio ao caos, faz proezas cinematográficas e acaba salvando todo mundo no final da estória. É assim que muito filme, novela, conto e romance se desenrolam e deixam satisfeitos os torcedores do bem. Quem de nós nunca ficou extasiado ao ver sair lá de trás o elemento surpresa que passa pelos adversários e acaba decidindo, sozinho, aquela partida de futebol que já estava quase perdida?
 
Não podemos negar que no mundo da ficção literária e dentro das quatro linhas onde nossas competições são realizadas, a aparição de heróis acrescenta uma pitada de sabor ao que está sendo lido, visto ou jogado. 
 
Por outro lado, torna-se extremamente preocupante a idéia de depender de individuos que vez por outra, sozinhos, fazem milagres no campo do judiciário, do legislativo ou do executivo. E essa preocupação tem lá suas razões de ser!
 
Primeiro, convém lembrar que ambientes assim criaram no passado solos férteis para o surgimento de ditadores e ditaduras. Que o digam alguns de nossos vizinhos daqui mesmo do lado de baixo da Linha do Equador! Mas, portadores de um ordenamento jurídico e de uma tradição que pouco a pouco vão consolidando o nosso Estado Democrático de Direito, fecho por aqui o parágrafo, confiante de que não mais corremos o risco de viver debaixo do totalitarismo.
 
Entretanto, assim como na prática esportiva, a necessidade de se ter um único elemento que decida as partidas mais difíceis de nossa sociedade também implica na necessidade de reconhecer que o time com um todo está fraco. 
 
Sinto um misto de contentamento e apreensão quando um empresário, profissional liberal, vereador, deputado, senador, juiz ou ministro aparece idolatrado na mídia, atraindo para si todas as atenções e esperanças do momento.
  
É que as perguntas fluem inconformadas: Onde estão os colegas dele? O que andam fazendo? Como anda a saúde dessa equipe? Será que um cidadão em carreira solo conseguirá por muito tempo combater e debelar mazelas que deveriam ser enfrentadas pelo conjunto? Uma andorinha só fará verão?
 
Aplaudamos cada vez que alguém em seu esforço se sobressair na luta contra a corrupção ou der um show de eficiência no desempenho de suas funções; mas também saibamos que nossas instituições públicas e privadas somente obterão os resultados que deveriam obter quando valores individuais como honestidade, vontade de trabalhar e desejo de superação se tornarem também valores coletivos, valores do grupo. 
  
Chega de esperar por cavaleiros solitários! Seja você também integrante daquela multidão de heróis anônimos que faz a sua parte todos os dias. Não dá para ser diferente! É coisa errada demais para um Zorro só resolver...
 
Humberto de Lima

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O jeito certo de fazer política

Nos tempos de capital, eu gostava de ver a propaganda política exibida no rádio e na televisão. Via o lado cômico, via os perfis cosméticos produzidos pelos marketeiros, mas via também algumas idéias muito boas para a cidade.

Em viagem recente percebi que nas cidades pequenas, a propaganda é geralmente feita à base de carro de som, e, em alguns casos pelas Redes Sociais. O problema está no conteúdo!
 
Nos jingles (músicas especialmente composta para partidos e candidatos) e também nas postagens colocadas na internet, o que mais se vê é guerra de nervos. O que se fala e o que se escreve tem como único objetivo convencer a população de que "todos estão do lado de cá e no outro lado só há desespero".

Apelo aos senhores candidatos de todos os partidos e de todas as cidades do interior de minha Paraiba para que parem de trocar insultos e apresentem propostas para seus municipios!

Divulguem seus projetos para a Educação, Saúde, Habitação, Segurança, Geração de Emprego, Transporte, Turismo e Meio Ambiente!
 
Deixar de cumprir tão importante obrigação significa assumir tácitamente a falta de boas idéias e o desconhecimento das reais necessidades de seu próprio povo. Afinal, todos os nossos problemas ainda não foram resolvidos.

Humberto de Lima.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O canivete e a carta



Quando menino, eu sempre senti vontade de ter um canivete daqueles usados pelos soldados do exército suíço. Porque eu ainda não tinha a idade certa e também por causa das dificuldades financeiras de meu pai, passei pela infância sem conseguir realizar o sonho.
 
Várias vezes, falando sobre o tempo certo para cada coisa da vida, usei o fato para ensinar que meu pai agiu corretamente quando não deu um objeto cortante para o seu pequeno Beto de apenas cinco anos de idade. Também ensinei que Deus tem seus motivos para não dar tudo o que pedimos do jeito e na mesma hora em que pedimos. 
 
Finalmente deixei de ser pirralho e fiquei pronto para usar aquela faquinha sem me ferir e sem ferir ninguém. Mas as décadas voaram e o meu orçamento apertado nunca permitiu sobrar dinheiro para comprar o objeto de meu desejo. Às vezes, quando via um deles em alguma vitrine, repetia em pensamento a mesma oração dos tempos de guri: - Oh, como eu gostaria de poder ter um desses!
 
Há duas semanas, depois de um ano inteiro orando sobre outro assunto, sem contudo obter qualquer resposta, cheguei a pensar que Deus não estaria interessado no que eu vinha lhe dizendo. E falei: - Senhor, eu sei que meu relógio nem sempre está certo com o seu; portanto, pode me responder quando quiser responder. Dá-me porém um sinal de que minhas petições ainda são ouvidas!
 
Esta manhã, enquanto abria uma pequena sacola que me foi presenteada por um irmão que estava me visitando e nada sabia sobre tudo o que você já leu acima, fiquei surpreso ao ver que lá estavam um calção, uma camiseta e um canivete suíço! No pacote, a pequena carta dizia assim:
 
“... Um dos presentes que temos pra você é uma faca de bolso com muitas ferramentas – Um canivete daqueles usados pelo exército suíço com muitas ferramentas. Ele me foi dado por um homem de nossa igreja antes de nossa viagem. Ele me disse que possuiu este canivete por vinte anos e ele sentiu que deveria entregá-lo a mim. Ele sentiu que este canivete deveria vir para o Brasil. Eu gostaria que você tivesse esse canivete como um símbolo. Que ele lhe faça lembrar as muitas ferramentas que você tem ao seu dispor em seu trabalho de ajudar às pessoas de sua comunidade a ter um relacionamento com Jesus. O estojo de couro foi feito pelo homem que possuía o canivete. Que este estojo lhe faça lembrar a Igreja Comunitária Riverside. Sete de nós vieram para Fagundes, mas duzentos ficaram em casa orando por você. Que Deus te abençoe. Steve.”
 
O sinal foi dado. Ao responder a uma oração que eu fazia desde os meus verdes anos, o Eterno confirmou que ainda me ouve!
 
Grato, sigo em frente, certo de que ele no tempo certo me dará todas as outras respostas das quais preciso e me guiará pelo futuro que está adiante.
 
Humberto de Lima

sábado, 4 de agosto de 2012

Eu e o tempo


 
Longe da ingenuidade dos tempos em que me chamavam de Beto, hoje percebo que nem todo mundo se aproxima da gente porque da gente gosta. Às vezes, somos apenas a vantagem ou o elo de ligação entre a pessoa que nos procura e a vantagem por ela buscada.  Coisificados e usados, entristecemos. Apesar disso, ainda aposto em amizades e opto por seguir em frente, fazendo o bem.
 
Já não vejo a vida como a estrada sem fim de antigamente; metade, talvez mais da metade de meus dias já se foram. 
 
Também sei que recordações dolorosas de vez em quando aparecem sem que eu precise chamá-las, mas não quero que o tempo que me resta seja um lamento do tempo que se foi. Prefiro remexer as memórias gostosas de ontem e viver intensamente meu presente ao ponto de produzir coisas boas que serão por mim lembradas em algum lugar do futuro, na cadeira de balanço de uma varanda qualquer.
 
Já não quero a companhia daqueles que de dedo em riste arrotam santidade e vivem condenando o resto do mundo; escolho ter por perto gente que precisa de gente,  gente que admite ser carente da graça de Deus.
 
Tenho minhas ambições mas já não penso em abarcar o mundo com as pernas; troquei alguns sonhos por outros que não são medidos em quilômetros, quantificados em números ou avaliados em dinheiro.
 
Hoje sei que não tem preço sentir o cheiro de um livro novo, pousar as mãos sobre o teclado e esculpir mais um texto, ajudar o adolescente que está com medo da próxima prova, encontrar um amigo e trocar idéias, praticar a boa ação do dia, ouvir a música, ler os poetas, aprender coisas novas, ter bichos no quintal, andar no mato, olhar o mar, comer frutas que eu mesmo plantei, sentir o prazer do exercício físico, descer do púlpito com a certeza de que levantei mais alguém, gostar do meu trabalho, ter um cantinho onde eu possa me esconder e orar sem pressa, enviar e receber mensagens de afirmação, dar abraços, receber abraços... Agora eu sei que o tempo voa. 

Carpe diem!
 
Humberto de Lima

terça-feira, 24 de julho de 2012

Brasileiros e livros em tempos de facebook


A rede social criada por Mark Zuckerberg e seus colegas cresceu ao ponto de se tornar a maior do mundo. O fato é que além de conectar gente de tantas línguas, povos e nações, o Facebook é uma das mais visitadas e lucrativas vitrines do planeta, movimentando milhões de dólares todos os meses.
 
Mas não são apenas propostas de negócios que a gente vê por lá. Além de poder reencontrar velhos colegas de infância e conhecer gente nova, na rede também é possível aprender um monte de coisas, inclusive literatura!
 
Um poema aqui, uma crônica acolá; e lá se vai o nosso povo postando e repassando textos que favorecem a troca de idéias, estimulam o pensamento e, esperamos, ajudam a vender a imagem de nação intelectualizada.
 
O grande problema é que brasileiros gostam de computadores, celulares e aparelhos de TV, mas não gostam muito de livros. Em conseqüência disso, postam e compartilham todos os dias uma série de coisas que além de denunciar a falta de leitura, acabam por prejudicar seus próprios escritores.
 
Há algum tempo atrás, pegaram um texto de Ricardo Gondim e o divulgaram como se fosse de Rubem Alves. A rede também está cheia de textos atribuídos a Fernando Pessoa, embora nenhum deles tenha sido encontrado nos livros do poeta.  Teria ele ressuscitado e voltado a escrever?
 
Carlos Drumond de Andrade, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo e Caio Fernando Abreu, entre outros, estão entre as vítimas prediletas dessa nova mania. Diariamente, seus nomes são colocados debaixo de frases e textos que eles nunca pensaram.
 
Lembrei agora de um causo que me foi contado há algum tempo atrás. Em determinada igreja era costume entre os irmãos recitar versículos bíblicos enquanto o pastor se preparava para a celebração da Santa Ceia. Certa noite, um irmão recém convertido observava o culto, achou bonito aquele momento da liturgia e pensou:
 
- Eles recitam um ditado, acrescentam o nome de uma pessoa e em seguida falam dois números...
 
Sem jamais ter manuseado o livro sagrado, mas querendo convecer os outros de que seu versículo também estava lá, o sujeito se levantou, dizendo:
 
- Triste do bicho que o outro engole. Sebastião 3:5.
 
Para que se evite mancadas como essa, em respeito aos autores, o bom senso recomenda: Antes de falar da Bíblia ou de qualquer outro livro, leia o livro; e, antes de falar de um poeta, leia o poeta. Quando fizer citação de qualquer um deles, trate essa questão da autoria com fidelidade.

Leiamos. Os livros são as nossas pedras de amolar o ser!
  
Humberto de Lima

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Calça Fubenta


Pasta o cavalo, passa um menino,
Badala o sino, buzina a rural,
Vagueia o cachorro na estrada poeirenta,
E a calça fubenta pinga no varal.

Canta a cigarra, se aquieta o vento,
Não passa o tempo, a rede não balança,
Sem música e sem dança cochila a tarde,
E a calça fubenta seca no varal.

Olhos cerrados fogem do mormaço,
O chapéu de palha cobre a cara toda.
É de barriga cheia o sonho que vem,
Fazendo cair e bater com o sedém!
 
Foi só pesadelo; ninguém levou nada.
Bota, cinto, e o perfume de feira pra sentir na venta...
Já tirou da mala a camisa de listra,
Tudo combinando com a calça fubenta.

Ruma para o rancho de porta amarela;
Chama na janela e estremece todo.
- Oh de casa! - Oh de fora!
Depois o abraço, o cangote dela e no sofá da sala um papo gostoso...
 
A noite crescida já se fez mulher,
A égua o leva de volta pra casa.
E assim vai voltando, marcha compassada,
Pensando no casório, na lua de mel e imaginando os meninos soltos na calçada...

Amanhece o dia, toma providências,
Compra um paletó, manda encurtar as mangas;
Também engraxa as botas no Seu Genival,
Marca para um sábado a festança linda,
E e a calça fubenta volta pro varal.

Humberto de Lima

terça-feira, 22 de maio de 2012

The bridge named love


Down the street,
Hand in hand,
Without a hurry,
They hope tomorrow will be just like today!

Fighting together,
Helping each other,
Sharing the tear,
Fear is a word they do not fear!

Missing the touch,
Desiring the kiss,
Distance and rivers are never too long,
‘Cause they’ve found a bridge; yes, they do have a bridge!

And their song fills the air in the middle of the bridge named love…
 
Humberto de Lima

quinta-feira, 29 de março de 2012

Agenda Velha

Abrir agenda velha é como olhar fotografias do eu que ficou para trás, naquele ano, naquela semana, naquele dia... Embora percebendo que permanece em nós muito do que antes em nós havia, já não somos os mesmos.
 
É como entrar no quarto dos troféus e rever alegrias agora empoeiradas.
 
É assistir o replay de lutas vencidas e perdidas. Em todas, mais ainda naquelas das quais saimos derrotados, a revelação exata de quem foi amigo.
 
É admitir que mesmo mais informado, manipulando átomos, modificando genes, viajando pela galáxia, o homem do século XXI envelhece e continua mortal. Não somos senhores do tempo!
 
Na agenda velha, o passado nos aparece como texto que não se pode editar, protegido apenas para leitura. Não dá para voltar no calendário! Para sempre registrados, os erros de nossa história acenam em direção ao aprendizado obtido e ao perdão que devemos liberar para outros e para nós mesmos. Já os acertos, estes nos convidam para celebrar na roda de amigos e nos levam a sorrir sozinhos durante o banho ou caminhando pelo estacionamento.

Sem querer impor qualquer coisa ao nosso presente, como uma amiga de longas datas, a agenda velha apenas faz sugestões. Sem poder garantir que o futuro será perfeito, ela simplesmente avisa que ele, o futuro, em muito depende de nós e já está sendo escrito agora.
 
Esta manhã, encontrei uma agenda velha entre meus livros. Enquanto nela mexia, lembrei de fatos e de pessoas.  Sorrí e também chorei. Depois a levei de volta para a estante porque o tempo não pára e viver é preciso.
 
Humberto de Lima

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

De volta à ilha




Gosto de lembrar da ilha; não da ilha poluída e violenta de hoje. Falo do micro-mundo em que vivi minha infância. E como as coisas eram diferentes naquele tempo em que eu crescia às margens do Sanhauá!
 
Em um ambiente que se aproximava mais do rural do que do urbano (embora vivêssemos a poucos quilômetros do centro da cidade), passava o trem de ferro de vez em quando, e os carros, todos de fora, raramente apareciam em forma de Simca ou Vemaguete.
 
Criado em uma família protestante, eu não chamava palavrões, mas uma das vizinhas que tinha dentro de casa mais de dez filhos, além dos sobrinhos e afilhados, passava todos os dias e o dia todo chamando os nomes feios da época: Bexiga taboca, gota serena, estupor balaio, engangrenado, murrinha dos pintos e moléstia dos cachorros faziam parte do repertório dela. Se comparados aos nomes feios de hoje, não eram tão feios assim... Por falar nisso, até hoje ninguém me explicou o que seria um infeliz da costa oca!
 
Havia expressões bem específicas para situações igualmente específicas. Por exemplo, quando alguma menina fugia com o namorado, dizia-se: - A filha de Fulano se perdeu com o filho de Sicrano! O rapaz ficava conhecido como sendo o autor da moça que a partir de então virava mulher. Quando ele não assumia a relação espontaneamente ou por meio de casamento amarrado, se ela ficava saindo com gatos e cachorros, falava-se então: - Deu para a vida!
 
Corno e chifre, infelizmente, parecem ser vocábulos eternos, pois sempre foram usados antes, durante e depois daquela época. Mas também se usava muito outra expressão atrelada ao ato adulterino: cangalha! Vale destacar que a pronúncia corrente era “cangaia”. Em meio a uma sociedade machista que atribuía má fama somente à mulher traidora, ai daquela que ganhasse o título de cangaeira!
 
O moderno AVC era conhecido como ramo; e, para evitá-lo proibia-se tomar café ao vento, leite com manga etc. Eu tinha dificuldade para entender o que era comida carregada porque em minha cabeça eu pensava que até chegar à mesa, tudo era carregado de algum lugar. E o câncer? Chamá-lo pelo nome, nem pensar!  Aos cochichos, falavam “aquela doença” ou então se referiam àquela “doença feia”
 
Balada era assustado; e o pessoal fazia muitos assustados naquelas bandas. Por falar em música, acho que o pior da música era muito superior ao pior da música hoje; pois o ruim daqueles anos, apesar de tudo, tinha lógica, não falava de bunda o tempo todo nem chamava mulher de cachorra.
 
O nordestinês era bem mais presente em nosso dia a dia. Lugar distante era baixa da égua, acreditar em fofocas era emprenhar pelos ouvidos, menstruar era ficar de boi, trocar carícias íntimas era xumbregar, marca de pancada era roncha, defecar era obrar, amolação era peitica, enganação era esparrela, triste era capiongo, enguiçar era dar o prego, árvore era pé de pau, lavar a égua era levar vantagem, mal estar era gastura, mau cheiro era inhaca ou catinga, coisa sem importância era miolo de pote, objeto de má qualidade era peba, ferida era pereba, paquerar era se inxirir, ir embora era pegar o beco e ôxente era ôxente mesmo!
 
Em tempos de ditadura militar, quando televisão ainda era coisa exclusiva pra gente rica, nós do povão éramos doutrinados pelo governo através do rádio. E havia no contexto político uma palavra que era o equivalente de satanás no contexto religioso. Um dia, ouvi a dita cuja em algum lugar, achei bonita e quando voltei pra casa, fui logo dizendo:
- Mãe, quando crescer, eu vou ser comunista!
 
Ela chorou e me pediu para nunca mais pronunciar aquela palavra horrível. Eu só saberia o porquê daquilo muitos aniversários depois.
 
Humberto de Lima

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Coisas da guerra


Era ainda cedo e estávamos seguindo por uma rua estreita e ladeada pelas ruínas resultantes de confrontos recentes. Tudo parecia tranqüilo, meus dois companheiros estavam no interior do veículo e eu, sozinho na torre de comando, respirava o ar da manhã e observava a paisagem.

De repente, ouvi um tiro que veio do lado esquerdo e vi que o homem meio escondido por trás de uma velha parede continuava disparando seu fuzil em minha direção. Abri fogo contra o atirador e falei para o condutor de nosso tanque que nos tirasse dali o mais rápido possível. Mas o pior ainda estava para acontecer...

Algo deu errado na cabine de condução e nosso blindado simplesmente parou de funcionar enquanto dezenas de inimigos mandavam uma chuva de balas contra mim. Tentei me proteger na torre ao mesmo tempo em que usava a metralhadora no intuito de afugentá-los. Lá embaixo o condutor reiniciava o sistema na tentativa de nos fazer sair daquele lugar, e, meu segundo colega, por sua vez, fazia uso de uma das coaxiais, ajudando-nos a rechaçar o ataque.
 
A coisa ficou mais feia quando alguns dos fanáticos enfurecidos, com facas em punho, se aproximaram para escalar o veículo pela retaguarda e me arrancar lá de cima. Felizmente tudo voltou a funcionar, gritei para que o condutor engatasse uma ré, e ele no exato segundo conseguiu fazer a manobra que salvou minha vida!

Às sete horas da manhã, completamente encharcados de suor, adrenalina e medo, nós saímos daquela ruela sinistra e eu, aliviado, escutei o som de uma velha e conhecida música. Era o despertador de meu celular!

Já tive outros sonhos ruins; mas esse me levou a sentir vividamente o stress de uma batalha. Mais que isso, me fez lembrar que se guerra é guerra, amigo é amigo. 
  
E amigo de verdade luta ao lado da gente nos momentos mais difíceis...
  
Humberto de Lima

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