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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Visita ao deputado


Eu estava de folga naquele dia e queria passear pela cidade, sem ter que ficar olhando para o relógio o tempo todo. Afinal, depois de uma década fora, é divertido sair vendo o que mudou e o que não mudou...
 
Meu amigo sugeriu que visitássemos um amigo dele, deputado, que tinha escritório bem perto do centro. – Vamos lá! – Disse eu, com um ar de tanto faz.
 
Uma breve ligação e 15 minutos depois estávamos chegando ao local. Meu amigo entrou logo para a sala da recepção e eu fiquei do lado de fora concluindo uma conversa telefônica. Logo depois, também entrei e tomei assento em um dos cantos da sala apinhada de gente.
 
O que a principio parecia chato foi ficando interessante devido a alguns detalhes que passei a observar:
 
As pessoas que lá trabalhavam e também as pessoas que estavam aguardando para falar com o parlamentar revelavam o grau de dependência em que viviam cada vez que a ele se referiam: - O chefe está aí? O chefe já chegou? O chefe pode me receber agora de manhã? O chefe isso? O chefe aquilo?
 
Em um ambiente onde se respira intriga e política partidária geralmente circulam segredos os mais diversos; talvez por isso os funcionários sejam verdadeiros mestres na arte do sussurro. Acho que eles se entendem porque aprenderam a fazer leitura labial uns dos outros.
 
Disponível para todos, folders contendo os últimos informes sobre o trabalho legislativo do chefe e cópias de um jornal local mostrando notícias favoráveis a ele.
 
Pelo semblante dos presentes, pude ver quem estava passando apenas para bajular um pouco e quem estava ali aflito em busca de alguma orientação ou auxilio.  Os primeiros entravam alegremente, tratavam e eram tratados pelos funcionários como “meu patrão”, “potência”, "magnata", “autarquia” e coisas do tipo. Já os segundos se apresentavam meio sem jeito e depois ficavam ali quietinhos enquanto aguardavam atendimento.
 
Uma das secretárias, folheando uma agenda grande, parecia ter dificuldades em convencer a pessoa do outro lado da linha de que ela não tinha o contato que estava sendo solicitado.
 - Puxa, será que ela não entende que aqui só temos o número de gente da gente?
Tradução: No dicionário dos políticos, gente da gente é gente que vota no chefe.
 
Uns quinze minutos depois de minha chegada (lembre que eu entrei sozinho, depois de meu amigo) alguém percebeu que eu estava anotando alguma coisa no celular e me fez uma pergunta de profundo significado teológico-filosófico: - E você? Quem é você?
Antes que eu tivesse tempo de elaborar alguma resposta, meu amigo acenou para o pessoal, dizendo que eu estava com ele.
 
Por falar em anotações no celular, resolvi fazê-las com o intuito de registrar o que via e ouvia; um curioso ao lado com os olhos aboticados e cara de quem não estava entendendo nada não parava de olhar para o display.
 
Finalmente, depois de uns vinte minutos de espera, fomos convidados a entrar
 
Falamos de política todo o tempo e o tempo todo foi aproveitado pelo deputado para criticar a atuação dos adversários. Em alguns instantes tive vontade de rir e cheguei à conclusão de que a maioria dos políticos realmente sofre de mania de perseguição!
 
Para não deixar de dar a César o que é de César, devo dizer sobre o homem que,  além de bem informado sobre as carências e problemas de sua região, até o presente momento ainda não tem contra si coisa feia nem nos arquivos da imprensa nem nos anais do judiciário. Coisa rara neste 122º ano de República...
Humberto de Lima

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