Eu estava de folga naquele dia e
queria passear pela cidade, sem ter que ficar olhando para o relógio o tempo
todo. Afinal, depois de uma década fora, é divertido sair vendo o que mudou e o
que não mudou...
Meu amigo sugeriu que
visitássemos um amigo dele, deputado, que tinha escritório bem perto do centro.
– Vamos lá! – Disse eu, com um ar de tanto faz.
Uma breve ligação e 15 minutos
depois estávamos chegando ao local. Meu amigo entrou logo para a sala da
recepção e eu fiquei do lado de fora concluindo uma conversa telefônica. Logo
depois, também entrei e tomei assento em um dos cantos da sala apinhada de
gente.
O que a principio parecia chato
foi ficando interessante devido a alguns detalhes que passei a observar:
As pessoas que lá trabalhavam e
também as pessoas que estavam aguardando para falar com o parlamentar revelavam
o grau de dependência em que viviam cada vez que a ele se referiam: - O chefe
está aí? O chefe já chegou? O chefe pode me receber agora de manhã? O chefe
isso? O chefe aquilo?
Em um ambiente onde se respira intriga e política partidária geralmente circulam segredos os mais diversos; talvez por
isso os funcionários sejam verdadeiros mestres na arte do sussurro. Acho que eles se entendem porque aprenderam a fazer leitura labial uns dos outros.
Disponível para todos, folders
contendo os últimos informes sobre o trabalho legislativo do chefe e cópias de
um jornal local mostrando notícias favoráveis a ele.
Pelo semblante dos presentes, pude
ver quem estava passando apenas para bajular um pouco e quem estava ali aflito em
busca de alguma orientação ou auxilio. Os primeiros
entravam alegremente, tratavam e eram tratados pelos funcionários como “meu
patrão”, “potência”, "magnata", “autarquia” e coisas do tipo. Já os segundos se
apresentavam meio sem jeito e depois ficavam ali quietinhos enquanto aguardavam
atendimento.
Uma das secretárias, folheando
uma agenda grande, parecia ter dificuldades em convencer a pessoa do outro lado
da linha de que ela não tinha o contato que estava sendo solicitado.
- Puxa, será que ela não entende que aqui só temos o número de gente da gente?
- Puxa, será que ela não entende que aqui só temos o número de gente da gente?
Tradução: No dicionário dos
políticos, gente da gente = Gente que vota no chefe.
Uns quinze minutos depois de
minha chegada (lembre que eu entrei sozinho, depois de meu amigo) alguém percebeu que eu
estava anotando alguma coisa no celular e me fez uma pergunta de profundo
significado teológico-filosófico: - E você? Quem é você?
Antes que eu tivesse tempo de
elaborar alguma resposta, meu amigo acenou para o pessoal, dizendo que eu
estava com ele.
Por falar em anotações no celular,
resolvi fazê-las com o intuito de registrar o que via e ouvia; e, antes mesmo
de começar, decidi fazê-las em outra língua porque um curioso ao lado não
tirava os olhos do meu display. Funcionou. O sujeito continuou com os olhos
aboticados e cara de quem não entendia nada.
Finalmente, depois de uns vinte
minutos de espera, fomos convidados a entrar
Falamos de política todo o
tempo e o tempo todo foi aproveitado pelo deputado para criticar a atuação dos
adversários. Em alguns instantes tive vontade de rir e cheguei à conclusão de
que a maioria dos políticos realmente sofre de mania de perseguição!
Para não deixar de dar a César
o que é de César, devo dizer que o homem, além de bem
informado sobre as carências e problemas de sua região, não tem contra si coisa feia nem nos arquivos da imprensa nem nos anais do judiciário. Coisa rara neste 122º ano de República...
Humberto de Lima

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