Eram seis da manhã e o marido
já tinha saído, avisando ironicamente que iria passar o dia em casa de amigos. Física e emocionalmente surrada, Gilda se arrastou em direção ao
espelho do banheiro para checar as marcas do espancamento sofrido na noite
passada.
Talvez um pouco de maquiagem
pudesse disfarçar a escoriação do rosto e livrá-la do constrangimento de ter que
explicar aquilo para as demais pessoas ao longo do dia. Às nove horas, lá
estava ela ocupando uma das cadeiras do imenso auditório onde ouviria uma
palestra sobre a mulher cristã e o casamento.
Depois de discorrer sobre obviedades
que fazem parte dos universos masculino e feminino, a palestrante direcionou
sua fala para as solteiras da platéia, alertando-as o tempo todo para que não
se precipitassem ao escolher um parceiro.
- Nunca case com um homem sem
que você tenha a certeza de que será amada por ele da mesma forma como Cristo
amou a Igreja! – Dizia a doutora, com dedo em
riste e voz impostada.
Em seu assento, Gilda se encolhia toda ao lembrar que seu sonho de felicidade havia se transformado em
um permanente pesadelo, apesar das muitas chances que
já tinha dado ao seu homem depois de tantas idas e vindas.
Não tinha jeito. Tudo o que ela fazia era retribuído com desprezo e mais agressões! Como gostaria de ser uma daquelas moças ainda
solteiras, se libertar daquele erro e poder começar outra vida!
Às vezes, lhe passava pela
cabeça a idéia de buscar ajuda na delegacia da mulher; mas como muitas outras, ela acabava
desistindo porque temia que o caso se transformasse em escândalo. Religiosa
desde pequena, estava naquele evento buscando ouvir algo que a ajudasse em sua difícil
situação.
Quando chegou o momento das
perguntas e respostas, ela destacou uma página de seu caderninho
de anotações e escreveu:
“Sou casada com um homem que não me ama, não me respeita e me
agride física e psicologicamente. Apesar de todas as tentativas no sentido de
fazer o nosso relacionamento dar certo, ele continua insensível. Como uma
mulher cristã, o que devo fazer?”
A pregadora hesitou em ler o
bilhete, mas acabou indo em frente, dando em seguida a sua resposta. Sua
hesitação na leitura e na resposta levou alguns ouvintes mais exigentes a
questionar se ela realmente acreditava naquilo que estava dizendo ou se suas
palavras eram mero produto da pressão que sobre ela exercia o comitê de organização do
megaevento. O que ela disse?
- Como mulher cristã, você deve
suportar até ao fim. Afinal, a Bíblia diz: “O que Deus
juntou, não separe o homem!”
Olhos lacrimejantes, Gilda
deixa o recinto e volta para casa. Enquanto dirige, questiona um monte
de coisas:
- Foram de fato unidos por Deus
todos os casais que passaram pela Igreja? No Brasil colonial, com o aval da
Igreja, noivos e noivas eram usados como moedas de troca nas negociatas políticas
e financeiras de seus pais. Teriam eles sido juntados pelo Altíssimo? Que dizer
daqueles que foram unidos pelo engano, pelo impulso, pela imaturidade e por
interesses materiais? Teria o Eterno tido participação em casos assim?
Ainda na estrada, Gilda se
lembrou de Joana D’arc, a moça que em 1431 foi declarada bruxa e queimada na
fogueira por ordem do papa Eugenio IV. Anos mais tarde, em 1920, a mesma Joana
D’arc foi declarada santa pelo papa Benedito XV. Lembrou ainda de Galileu
Galilei, perseguido pelos papas Paulo V e Urbano VIII, tendo sido mais tarde
perdoado pelo papa João Paulo II.
Em sua cabeça, estas e outras
lembranças faziam cair por terra o dogma da infalibilidade papal e lhe abriam
os olhos para ver que a Igreja enquanto instituição também comete seus equívocos.
Era quase meio dia quando Gilda
guardou o carro na garagem do condomínio. Seu coração disposto a dar ao Sergio uma
oportunidade última, também estava pronto para dar um basta naquilo tudo, ajuizar a ação de divórcio e ir embora se
preciso fosse. Afinal, já não acreditava mais naquele deus clerical que tinha
prazer em mantê-la escrava do desrespeito e opressão que lhe eram impostos por
um homem.
Outro Deus, mais justo e
coerente, apontava em direção à dignidade...
Humberto de Lima

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