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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

domingo, 26 de junho de 2011

GILDA




Eram seis da manhã e o marido já tinha saído, avisando ironicamente que iria passar o dia em casa de amigos. Física e emocionalmente surrada, Gilda se arrastou em direção ao espelho do banheiro para checar as marcas do espancamento sofrido na noite passada.
Talvez um pouco de maquiagem pudesse disfarçar a escoriação do rosto e livrá-la do constrangimento de ter que explicar aquilo para as demais pessoas ao longo do dia. Às nove horas, lá estava ela ocupando uma das cadeiras do auditório de um megaevento evangélico onde ouviria uma palestra sobre a mulher cristã e o casamento.
Depois de discorrer sobre obviedades que fazem parte dos universos masculino e feminino, a palestrante direcionou sua fala para as solteiras da platéia, alertando-as o tempo todo para que não se precipitassem ao escolher um parceiro.
- Nunca case com um homem sem que você tenha a certeza de que será amada por ele da mesma forma como Cristo amou a Igreja! – Dizia a doutora, com dedo em riste e voz impostada.
Em seu assento, Gilda se encolhia toda ao lembrar que seu sonho de felicidade havia se transformado em um permanente pesadelo, apesar das muitas chances que já tinha dado ao seu homem depois de tantas idas e vindas.
Não tinha jeito. Tudo o que ela fazia era retribuído com desprezo e mais agressões! Como gostaria de ser uma daquelas moças ainda solteiras, se libertar daquele erro e poder começar outra vida!
Às vezes, lhe passava pela cabeça a idéia de buscar ajuda na delegacia da mulher; mas como muitas outras, ela acabava desistindo porque temia que o caso  se transformasse em escândalo. Religiosa desde pequena, estava naquele evento buscando ouvir algo que a ajudasse em sua difícil situação.
Quando chegou o momento das perguntas e respostas, ela destacou uma página de seu caderninho de anotações e escreveu:
“Sou casada com um homem que não me ama, não me respeita e me agride física e psicologicamente. Apesar de todas as tentativas no sentido de fazer o nosso relacionamento dar certo, ele continua insensível. Como uma mulher cristã, o que devo fazer?”
A pregadora hesitou em ler o bilhete, mas acabou indo em frente, dando em seguida a sua resposta. Sua hesitação na leitura e na resposta levou alguns ouvintes mais exigentes a questionar se ela realmente acreditava naquilo que estava dizendo ou se suas palavras eram mero produto da pressão que sobre ela exercia o comitê de organização do megaevento. O que ela disse?
- Como mulher cristã, você deve suportar até ao fim. Afinal, a Bíblia diz: “O que Deus juntou, não separe o homem!”
Olhos lacrimejantes, Gilda deixa o recinto e volta para casa. Enquanto dirige, questiona um monte de coisas:
- Foram de fato unidos por Deus todos os casais que passaram pela Igreja? No Brasil colonial, com o aval da Igreja, noivos e noivas eram usados como moedas de troca nas negociatas políticas e financeiras de seus pais. Teriam eles sido juntados pelo Altíssimo? Que dizer daqueles que foram unidos pelo engano, pelo impulso, pela imaturidade e por interesses materiais? Teria o Eterno tido participação em casos assim?
Ainda na estrada, Gilda se lembrou de Joana D’arc, a moça que em 1431 foi declarada bruxa e queimada na fogueira por ordem do papa Eugenio IV. Anos mais tarde, em 1920, a mesma Joana D’arc foi declarada santa pelo papa Benedito XV. Lembrou ainda de Galileu Galilei, perseguido pelos papas Paulo V e Urbano VIII, tendo sido mais tarde perdoado pelo papa João Paulo II.
Em sua cabeça, estas e outras lembranças faziam cair por terra o dogma da infalibilidade papal e lhe abriam os olhos para ver que a Igreja enquanto instituição também comete seus equívocos.
Era quase meio dia quando Gilda guardou o carro na garagem do condomínio. Seu coração que sempre esteve disposto a dar ao Sergio mais uma oportunidade, também estava pronto para  dar um basta naquilo tudo, ajuizar a ação de divórcio e ir embora se preciso fosse. Afinal, já não acreditava mais naquele deus clerical que tinha prazer em mantê-la escrava do desrespeito e opressão que lhe eram impostos por um homem.
Outro Deus, mais justo e coerente, apontava em direção à dignidade...
Humberto de Lima

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