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"O grande dogma de Deus é amor; o resto é teologia." (Caio Fabio).

domingo, 13 de março de 2011

Eu e meu velho


Às vezes me pego sentado naquela sala, silenciosamente olhando meu pai entre uma conversa e outra. Faltando apenas dois anos para chegar aos oitenta, a herança genética e uma vida sem vícios contribuíram para que o Irmão João esbanje saúde.
Filho do mato, ele cresceu em ambiente harmonioso, mas carente da cultura de demonstrações afetivas que hoje compartilho com meus filhos.  Por isso, somente agora depois de homem feito é que estou aprendendo a abraçar e beijar meu pai, embora eu não tenha nenhuma dúvida de que sempre nos amamos.
Leitor apenas da Bíblia e vindo a ter contato com rádio e televisão somente há pouco tempo, quando indagado sobre a ditadura militar, sem entender o que de fato se passou, ele apenas diz que foi um dos melhores momentos do Brasil, pois a polícia botava ordem nas ruas e a bandidagem não perturbava como hoje em dia.
Em sua simplicidade ele ainda acredita em um monte de coisas que lhe foram ditas pelos políticos ou ensinadas pelos profissionais da religião; e é daquela mesma sala que vejo como foram diferentes os caminhos por nós dois trilhados.
Sem perceber no mundo muitas das muitas maldades que nos cercam, a vida de meu pai segue sem os questionamentos e protestos que fazem parte de meu pensar, de meu falar e de meu escrever.
Mas para mim já não há mais caminho de volta! Depois de ter vivido e lido tudo o que vivi e li,  me rebelei e tornei-me pássaro desengaiolado!
Daqui, oro pelo meu velho, pronto para lhe dar minha proteção e cuidado.
Humberto de Lima

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