Às vezes me pego sentado
naquela sala, silenciosamente olhando meu pai entre uma conversa e outra.
Faltando apenas dois anos para chegar aos oitenta, a herança genética e uma
vida sem vícios contribuíram para que o Irmão João esbanje saúde.
Filho do mato, ele cresceu em
ambiente harmonioso, mas carente da cultura de demonstrações afetivas que hoje
compartilho com meus filhos. Por isso,
somente agora depois de homem feito é que estou aprendendo a abraçar e beijar
meu pai, embora eu não tenha nenhuma dúvida de que sempre nos amamos.
Leitor apenas da Bíblia e vindo
a ter contato com rádio e televisão somente há pouco tempo, quando indagado
sobre a ditadura militar, sem entender o que de fato se passou, ele apenas diz
que foi um dos melhores momentos do Brasil, pois a polícia botava ordem nas
ruas e a bandidagem não perturbava como hoje em dia.
Em sua simplicidade ele ainda
acredita em um monte de coisas que lhe foram ditas pelos políticos ou ensinadas
pelos profissionais da religião; e é daquela mesma sala que vejo como foram diferentes
os caminhos por nós dois trilhados.
Sem perceber no mundo muitas
das muitas maldades que nos cercam, a vida de meu pai segue sem os questionamentos e
protestos que fazem parte de meu pensar, de meu falar e de meu escrever.
Mas para mim já não há mais
caminho de volta! Depois de ter vivido e lido tudo o que vivi e li, me rebelei e tornei-me pássaro desengaiolado!
Daqui, oro pelo meu velho, pronto para lhe dar minha proteção e cuidado.
Humberto de Lima
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