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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

segunda-feira, 28 de março de 2011

Aperreios de Zezé


Foi nos meus verdes anos quando eu morava entre a Preaca e o Beco do Aratu. Mas lembrei deles hoje e resolví registrar aqui mais esse acontecido de minha Paraíba.
 
Zezé, bom camarada, desde cedo foi precoce em tudo. Trabalhador, ainda menino corria pra lá e pra cá sempre trazendo um trocadinho pra casa (note-se que Zezé, dependendo da pessoa, pode ser apelido feminino ou masculino). Aconteceu que a pressa dele não se limitava apenas à vontade de virar homem e ganhar dinheiro; ele também queria casar, e na carreira!
Pois bem; sem escolher muito, botou os olhos em Deda (dependendo do lugar, Deda também pode ser apelido usado para eles ou para elas) e ligeirinho como coceira de coelho, o cabra logo se viu emocional e legalmente casado.
 
Convém acrescentar aqui que naquela época os meninos da ilha costumavam andar quilômetros se equilibrando sobre os trilhos da linha férrea até à Feira de Bayeux, onde íamos comprar limão para passar debaixo das axilas e na região pubiana. Não sei de onde nem de quem surgiu a idéia, mas nós acreditávamos que untar essas partes do corpo com limão iria acelerar a nossa macheza!
 
Bem bonita, Deda e seu corpão não deixavam Zezé dormir à noite; durante o dia, ele mal trabalhava direito, sonhando acordado com a volta pra casa mais tarde. Aconteceu que onde sobrava boniteza faltava alguns gramas de juízo; e foi aí que o pobre do Zezé se lascou todinho!
 
De noite, na hora de assistir TV, Deda se arrumava toda e também queria botar perfume. De olho nos galãs da novela, justificava sua produção dizendo: - Vocês acham que a gente deve aparecer toda desmantelada na frente desse povo bonito? 
Não raro, os dois arengavam por causa disso.

Até que um dia, contou-me o Irmão Cipas que (mais um apelido, este menos comum),  Zezé e Deda souberam que a prefeitura municipal tinha contratado atores globais para encenar a Paixão de Cristo em praça pública. 
 
Foi um frenesi! Deda começou a se arrumar pouco depois do almoço. Botava e tirava roupa, puxava o cabelo pra cima e pra baixo, rodava na frente do espelho... Até que chegou a hora de tomar o ônibus e seguir rumo à Praça Pedro Américo, no centro da cidade. Cipas foi junto com eles.
 
Lá, uma multidão já se aglomerava defronte do grande palco enquanto um Conjunto Musical tocava alguma coisa antes do início do espetáculo. 
 
Finalmente a apresentação começou e foi fluindo com excelente qualidade, a ponto de emocionar as pessoas que estavam por perto. Deda não era lá tão alta e já estava agoniada, sem conseguir ver direito por causa do povo que estava à sua frente.
- Zezé?
- Diz Dedinha...
- Me deixa montar no teu ombro...
E ele deixou.
 
Daqui a pouco, enquanto mulheres mais idosas silenciosamente se desmanchavam em lágrimas diante da cena forte que lhes era mostrada pelo ator principal, Deda se escanchou melhor nos ombros de Zezé, arregalou os olhos, botou as mãos em concha perto da boca e gritou:
- Goooooostoso!
 
Zezé quase teve um passamento, as velhinhas ficaram escandalizadas e Deda voltou pra casa feliz da vida. O tempo passou, o marido acabou se acostumando com as presepadas dela e Cipas nunca mais parou de me contar a mesma estória.
 
Humberto de Lima

2 comentários:

Rousi disse...

Por acaso vi um "abraço da Paraíba" em um comentário seu no blog de carpinejar e curiosa que sou vim dar uma olhadinha no seu blog.
E que bom que eu vim!! hahahaha
Adorei "Aperreios de Zezé" tem o "sabor" da nossa terrinha!
Muito bom de ler essa sua Parahybanidade!!

Parabéns!
Um abraço.

Max de Lima disse...

kkkkk...Estórias do Cipas....sei não...Falta uma de Cibal agora!

"Viva o povo brasileiro" rsrrs

abraço!

"Carpe diem"

Max de Lima

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