Parece que está cada vez mais
difícil viver nesse nosso mundinho pós-humano. Digo mundinho porque depois do
avião, do satélite, do telefone e da internet o globo parece ter mesmo virado
uma aldeia. Isto é bom? Até seria se nossas fronteiras fossem bem protegidas e
se nossos aeroportos tivessem a segurança que deveriam ter!
Digo pós-humano porque está
cada vez mais difícil ser apenas pessoa física! É complicado viver sem ter que
atrelar alguma marca ao sobrenome. Vamos ver? Ligue para alguma empresa, diga
seu nome e informe o nome da pessoa com quem você gostaria de falar. Numa
sociedade mais humanizada, isto bastaria para que imediatamente você fosse
conectado com a outra pessoa. Mas não é o que acontece. Logo vem aquela clássica
perguntinha: - Fulano de onde?
E aí? E se você estiver
desempregado? Lembro que há alguns anos atrás alguém me segredou que fosse a
uma grande fábrica localizada no distrito industrial de João Pessoa; pois estava para surgir uma oportunidade de trabalho lá.
Chegando lá, vi de longe uma
placa escrita em letras garrafais que dizia: NÃO INSISTA, NÃO HÁ VAGAS! Um
vigia de cara feia usou uma das mãos para abrir a janelinha da
guarita enquanto com a outra segurava uma espingarda; e resmungou: - Diga!
- Sou Humberto de Lima e
gostaria de falar com o gerente de recursos humanos.
- Se for vaga, a placa já está
aí dizendo que não tem!
Respirei fundo e repeti
calmamente: - Diga ao gerente de recursos humanos que Humberto de Lima está
aqui e quer falar com ele.
Então o vigia indagou: Humberto
de onde?
Falei sem titubear: - Da
Universidade Federal.
O Brutus usou o interfone, a
porteira se abriu e em segundos eu estava na sala de espera aguardando ser
atendido.
Quando finalmente a secretária
disse que eu poderia entrar, encontrei lá dentro um gerente sorridente, de pé
ao lado do birô e com a mão já estendida para me receber.
Pus minha pasta sobre a mesa
dele, saquei do bolso minha carteira de estudante e fui dizendo:
- Sou da UFPB, aluno do Curso
de Administração e vim aqui para lhe entregar meu currículo e me candidatar à próxima
vaga que está para surgir.
Ele olhou para mim, deu uma
estrondosa risada, me pediu para sentar e disse: - Humberto, parabéns! Você foi
o único de fora que conseguiu entrar nesta sala hoje!
- Então já tenho a vaga...
- Que vaga?
A partir desse ponto, ele me
ofereceu água e cafezinho, mas desconversou. Disse que a abertura de uma nova
vaga ainda estava em estudos e que me ligaria depois se necessário fosse.
Ele nunca ligou, mas saí de lá
sabendo que dali pra frente, eu teria que ter jogo de
cintura para lidar com situações parecidas.
Um dia desses, um amigo meu por
descuido esqueceu o celular em casa e eu tive que ligar para a multinacional
onde ele trabalha.
- Bom dia, aqui é Humberto de
Lima e eu gostaria de falar com o Dr. Fulano...
- Humberto de onde?
- Daqui de casa mesmo –
Respondi em tom amistoso.
A telefonista
sorriu do outro lado e passou a ligação para o meu amigo.
Humberto de Lima

1 comentários:
Como sempre, um excelente e agradável texto, amigo Humberto!
Um abraço!
Diego Navarro.
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