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"Um líder é alguém que conhece o caminho, vai pelo caminho e mostra o caminho". (John C. Maxwell).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Papo de mulher

Toda crônica é o retrato de instantes, captados pela melhor de todas as câmeras. Digo isso porque quando não nos chegam através da íris, elas vêm ao nosso encontro via toque, cheiro, e também pelas nossas duas entradas de áudio.

Às vezes, como um caçador de imagens, procuramos e procuramos até que finalmente algo belo ou bizarro aparece. Outras vezes, elas nos surpreendem de formas inusitadas e inesquecíveis.

Pois é! Dia desses viajando, tive meu cochilo interrompido pelo barulho (aqui a palavra certa é barulho mesmo!) de duas vozes estridentes que tagarelavam no banco de trás:
- Menina como estás roxa! O que foi isso?
- Foi Fulano...
- Cruz, credo! Ele te bateu?
- Ele sempre me bate. Já me acostumei...
- Nunca chamaste a polícia? Por que ainda não o deixaste?
- Essas coisas até já passaram pela minha cabeça... O problema é que eu o amo, amo muito!

Chegando à capital, desembarquei logo e deixei para trás as duas e aquela história de amor kamikaze.
Ia encontrar um colega americano e dei uma boa risada quando ele contou caso verídico sobre uma mulher de sua terra, daquelas consumistas compulsivas que estava sempre arranjando confusão com o marido. Por causa disso, não raramente estavam os dois na igreja, em busca de aconselhamento. Depois de muitas promessas e recaídas, a moça falou que não se continha porque aquilo era tentação do capeta; então o pastor aconselhou que ela repreendesse o demo quando este chegasse. 

Mas uma semana depois, lá estava ela de novo ouvindo sermão:
- Minha irmã, por que você não seguiu o meu conselho?
E ela: - Pastor, eu passei pela vitrine, vi um vestido lindo e fui logo provar...
- E...
- Quando eu estava no provador, lembrei do seu conselho e repreendi o cão, dizendo: Para trás de mim Satanás!
- E então, por que comprou?
- Comprei porque ouvi a voz do bicho dizendo: Por trás é que fica linda...
Não tive mais notícias do caso. 

No dia seguinte eu já estava de volta, tentando aprender as minúcias do direito trabalhista, quando sem querer, me deparei com mais uma pérola que minha amiga Clauberta Meyer ouviu no corredor da faculdade:
- Vou contar uma coisa pra vocês...
- Fala logo! – Disseram as outras.
- Semana passada eu quase morri de desgosto porque engordei um kilo.
- Onde está ele?
- Graças a Deus, fui parar no hospital com uma infecção intestinal e emagreci três!
 
Humberto de Lima

sábado, 12 de novembro de 2011

Brisa


Chega de repente,
Vem sem avisar,
É muito sutil,
Parece sussurrar...
Aparece às vezes quando estou à toa;
É o sorriso que vem de lembranças boas!

Não, não tente segurar a brisa,
Deixe-a passar!
E quando o tempo parecer parado,
E tudo o mais se mostrar distante,
Talvez de novo ela venha, pra refrescar teu instante!

Humberto de Lima

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Idas e vindas


 
A poetisa lembrou do poeta;
E perguntou: - Como vai você?
Ele pensou naqueles dias,
Que de tão bons não dava pra esquecer.

Oh, amiga que meu dialeto falas!
Tu que decifras a folha branca que não escrevi!
Para ti confesso, não nego:
Distante e parado, não estou feliz!

Então o poeta leu a poetisa;
E indagou: - O que tens a dizer?
Ela propôs um retorno:
- Aos velhos tempos, como deve ser!

Oh, tu que pões tempero nas palavras!
Tu que já serviste em prosa e verso teus melhores pratos!
Volta à cozinha das letras, que ainda te espera:
Vai!

E ele foi...
Humberto de Lima

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sina de Zé


Ei, Zé!
Vai saindo um enterro lá da capelinha.
Vendo daqui não conheço ninguém;
De quem será, de quem será?

Oi, Compadre!
Político não é, nem celebridade;
Pois seguindo o infeliz só vão quatro pessoas.
De quem será, de quem será?

Ah, Zé! Rico não é!
É caixão daqueles, bem baratinho,
Daqueles que a gente pede e o candidato dá.
De quem será, de quem será?

- Compadre!
- Perguntei à velhinha na beira da calçada.
- E então? De quem será, de quem será?
- Era outro Zé, igualzinho a nós!

Ei, Zé!
Enquanto nosso dia não chega, vem um barulho lá das bandas do riacho...
E tem zoada de triângulo e zabumba!
Vamos pra lá, compadre! O que será, o que será?

Humberto de Lima

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Verso Livre


Meu verso é de fabricação caseira,
É verso expulso de todas as escolas.
Sem dizer de onde vem nem para onde vai,
Ele sopra!

Meu verso é uivo noturno que lamenta dores,
É sorriso tímido a imaginar o amor,
É grito forte de uma voz protestante,
É oração gemida em coração de pastor.

Confesso lirismos,
Fotografo instantes,
Sigo e desprezo regras,
Rimo, desrimo e simplesmente sou, estou, vou...

Humberto de Lima

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Visita ao deputado


Eu estava de folga naquele dia e queria passear pela cidade, sem ter que ficar olhando para o relógio o tempo todo. Afinal, depois de uma década fora, é divertido sair vendo o que mudou e o que não mudou...
 
Meu amigo sugeriu que visitássemos um amigo dele, deputado, que tinha escritório bem perto do centro. – Vamos lá! – Disse eu, com um ar de tanto faz.
 
Uma breve ligação e 15 minutos depois estávamos chegando ao local. Meu amigo entrou logo para a sala da recepção e eu fiquei do lado de fora concluindo uma conversa telefônica. Logo depois, também entrei e tomei assento em um dos cantos da sala apinhada de gente.
 
O que a principio parecia chato foi ficando interessante devido a alguns detalhes que passei a observar:
 
As pessoas que lá trabalhavam e também as pessoas que estavam aguardando para falar com o parlamentar revelavam o grau de dependência em que viviam cada vez que a ele se referiam: - O chefe está aí? O chefe já chegou? O chefe pode me receber agora de manhã? O chefe isso? O chefe aquilo?
 
Em um ambiente onde se respira intriga e política partidária geralmente circulam segredos os mais diversos; talvez por isso os funcionários sejam verdadeiros mestres na arte do sussurro. Acho que eles se entendem porque aprenderam a fazer leitura labial uns dos outros.
 
Disponível para todos, folders contendo os últimos informes sobre o trabalho legislativo do chefe e cópias de um jornal local mostrando notícias favoráveis a ele.
 
Pelo semblante dos presentes, pude ver quem estava passando apenas para bajular um pouco e quem estava ali aflito em busca de alguma orientação ou auxilio.  Os primeiros entravam alegremente, tratavam e eram tratados pelos funcionários como “meu patrão”, “potência”, "magnata", “autarquia” e coisas do tipo. Já os segundos se apresentavam meio sem jeito e depois ficavam ali quietinhos enquanto aguardavam atendimento.
 
Uma das secretárias, folheando uma agenda grande, parecia ter dificuldades em convencer a pessoa do outro lado da linha de que ela não tinha o contato que estava sendo solicitado.
 - Puxa, será que ela não entende que aqui só temos o número de gente da gente?
Tradução: No dicionário dos políticos, gente da gente é gente que vota no chefe.
 
Uns quinze minutos depois de minha chegada (lembre que eu entrei sozinho, depois de meu amigo) alguém percebeu que eu estava anotando alguma coisa no celular e me fez uma pergunta de profundo significado teológico-filosófico: - E você? Quem é você?
Antes que eu tivesse tempo de elaborar alguma resposta, meu amigo acenou para o pessoal, dizendo que eu estava com ele.
 
Por falar em anotações no celular, resolvi fazê-las com o intuito de registrar o que via e ouvia; um curioso ao lado com os olhos aboticados e cara de quem não estava entendendo nada não parava de olhar para o display.
 
Finalmente, depois de uns vinte minutos de espera, fomos convidados a entrar
 
Falamos de política todo o tempo e o tempo todo foi aproveitado pelo deputado para criticar a atuação dos adversários. Em alguns instantes tive vontade de rir e cheguei à conclusão de que a maioria dos políticos realmente sofre de mania de perseguição!
 
Para não deixar de dar a César o que é de César, devo dizer sobre o homem que,  além de bem informado sobre as carências e problemas de sua região, até o presente momento ainda não tem contra si coisa feia nem nos arquivos da imprensa nem nos anais do judiciário. Coisa rara neste 122º ano de República...
Humberto de Lima

sexta-feira, 22 de julho de 2011

CHOICES



Sorrow introduced me to myself,
And while talking to this inner guy,
I met a good friend in a hard time.

Solitude took me to this place named today;
And here, right here,
I make my choices:

I want the truth instead of lies,
I want to dream instead of crying,
And despite of everything, I want to live instead of dying!

Humberto de Lima

terça-feira, 12 de julho de 2011

Corrida



Corro...
E em minha corrida sou exorcista e exorcizado –
Pingos de meu lado triste vão ficando pelo caminho.

Corro...
E as ruas de sempre já não são as mesmas –
Os olhos vagueiam para além da terra de minha aflição.

Corro...
E o cansaço da volta é melhor que a melhor cachaça –
Nem bêbado nem doente, apenas durmo.

Amanhã? Correr de novo...

Humberto de Lima

domingo, 26 de junho de 2011

GILDA




Eram seis da manhã e o marido já tinha saído, avisando ironicamente que iria passar o dia em casa de amigos. Física e emocionalmente surrada, Gilda se arrastou em direção ao espelho do banheiro para checar as marcas do espancamento sofrido na noite passada.
Talvez um pouco de maquiagem pudesse disfarçar a escoriação do rosto e livrá-la do constrangimento de ter que explicar aquilo para as demais pessoas ao longo do dia. Às nove horas, lá estava ela ocupando uma das cadeiras do auditório de um megaevento evangélico onde ouviria uma palestra sobre a mulher cristã e o casamento.
Depois de discorrer sobre obviedades que fazem parte dos universos masculino e feminino, a palestrante direcionou sua fala para as solteiras da platéia, alertando-as o tempo todo para que não se precipitassem ao escolher um parceiro.
- Nunca case com um homem sem que você tenha a certeza de que será amada por ele da mesma forma como Cristo amou a Igreja! – Dizia a doutora, com dedo em riste e voz impostada.
Em seu assento, Gilda se encolhia toda ao lembrar que seu sonho de felicidade havia se transformado em um permanente pesadelo, apesar das muitas chances que já tinha dado ao seu homem depois de tantas idas e vindas.
Não tinha jeito. Tudo o que ela fazia era retribuído com desprezo e mais agressões! Como gostaria de ser uma daquelas moças ainda solteiras, se libertar daquele erro e poder começar outra vida!
Às vezes, lhe passava pela cabeça a idéia de buscar ajuda na delegacia da mulher; mas como muitas outras, ela acabava desistindo porque temia que o caso  se transformasse em escândalo. Religiosa desde pequena, estava naquele evento buscando ouvir algo que a ajudasse em sua difícil situação.
Quando chegou o momento das perguntas e respostas, ela destacou uma página de seu caderninho de anotações e escreveu:
“Sou casada com um homem que não me ama, não me respeita e me agride física e psicologicamente. Apesar de todas as tentativas no sentido de fazer o nosso relacionamento dar certo, ele continua insensível. Como uma mulher cristã, o que devo fazer?”
A pregadora hesitou em ler o bilhete, mas acabou indo em frente, dando em seguida a sua resposta. Sua hesitação na leitura e na resposta levou alguns ouvintes mais exigentes a questionar se ela realmente acreditava naquilo que estava dizendo ou se suas palavras eram mero produto da pressão que sobre ela exercia o comitê de organização do megaevento. O que ela disse?
- Como mulher cristã, você deve suportar até ao fim. Afinal, a Bíblia diz: “O que Deus juntou, não separe o homem!”
Olhos lacrimejantes, Gilda deixa o recinto e volta para casa. Enquanto dirige, questiona um monte de coisas:
- Foram de fato unidos por Deus todos os casais que passaram pela Igreja? No Brasil colonial, com o aval da Igreja, noivos e noivas eram usados como moedas de troca nas negociatas políticas e financeiras de seus pais. Teriam eles sido juntados pelo Altíssimo? Que dizer daqueles que foram unidos pelo engano, pelo impulso, pela imaturidade e por interesses materiais? Teria o Eterno tido participação em casos assim?
Ainda na estrada, Gilda se lembrou de Joana D’arc, a moça que em 1431 foi declarada bruxa e queimada na fogueira por ordem do papa Eugenio IV. Anos mais tarde, em 1920, a mesma Joana D’arc foi declarada santa pelo papa Benedito XV. Lembrou ainda de Galileu Galilei, perseguido pelos papas Paulo V e Urbano VIII, tendo sido mais tarde perdoado pelo papa João Paulo II.
Em sua cabeça, estas e outras lembranças faziam cair por terra o dogma da infalibilidade papal e lhe abriam os olhos para ver que a Igreja enquanto instituição também comete seus equívocos.
Era quase meio dia quando Gilda guardou o carro na garagem do condomínio. Seu coração que sempre esteve disposto a dar ao Sergio mais uma oportunidade, também estava pronto para  dar um basta naquilo tudo, ajuizar a ação de divórcio e ir embora se preciso fosse. Afinal, já não acreditava mais naquele deus clerical que tinha prazer em mantê-la escrava do desrespeito e opressão que lhe eram impostos por um homem.
Outro Deus, mais justo e coerente, apontava em direção à dignidade...
Humberto de Lima

domingo, 5 de junho de 2011

Retrovisor



Sinto saudades de amanhã.
Daquele amanhã que um dia quase se fez hoje!

Humberto de Lima

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tudo pela macheza!



Tudo começou quando ele se machucou trilhando pelo mato em cima de uma bicicleta. Testículos intensamente doloridos o obrigaram pela primeira vez na vida a cogitar a possibilidade de procurar um urologista.
 
Antes, porém, consultou São Google e ficou sabendo sobre alguns exames que os médicos geralmente pedem para homens adultos. Não pensou duas vezes; foi ao laboratório, providenciou por conta própria ultra-som com Doppler colorido da próstata e dos testículos e fez também o moderno PSA.
 
Armado com os três exames, ele correu para a clínica; e, mal o médico sentou para atendê-lo, já foi botando os papeis sobre a mesa e dizendo:
 
- É o seguinte, doutor... Trouxe esses exames para o senhor ver, mas acho que o meu problema mesmo é somente o dolorido da pancada... Talvez algum remédio...
 
Quando ele parou de falar, o médico calmamente fez uma série de perguntas, anotando tudo em uma ficha. Ele respondia a tudo, preocupado com o fato de a consulta estar demorando mais do que ele previra.
 
Em seguida, o médico finalmente passou a olhar os exames que ele havia colocado sobre a mesa.
 
- Pelo que eu vi, ta tudo normal, não é doutor?
 
Olhando para o ultra-som da próstata, o médico explicou: - Este laudo deve ser interpretado em conjunto com a dosagem sérica do PSA e o toque retal.
 
O cara estremeceu; pois em roda de amigos já havia escutado absurdos sobre o assunto. Por exemplo, ouvira um colega dizer que nesse tipo de exame, o camarada deveria ficar nu, ajoelhado, com as mãos para cima e de costas para o médico, respondendo a outra interminável serie de perguntas, enquanto vivia a angustiada expectativa de sofrer o início da temida invasão a qualquer momento. 
 
Já outro amigo, sócio dele na empresa, o amedrontara dizendo que uma vez iniciado o exame propriamente dito, o mesmo teria uma duração de meia hora, período durante o qual o paciente teria que ficar o tempo todo mordendo uma toalha para que seus gritos não incomodassem a vizinhança. Coisas do folclore masculino!
 
Parece que tinha chegado mesmo a sua hora! Lembrou de um trecho do livro Viagens com o Presidente, de Eduardo Escolese e Leonêncio Norma, citado por Saulo Ramos em Código da Vida. Trata-se de um comentário de Lula para a então Ministra do Meio Ambiente, sobre a inevitável transposição das águas do Rio São Francisco:
 
Marina, essa coisa de meio ambiente é igual a um exame de próstata: não dá para ficar virgem toda a vida. Uma hora eles vão ter que enfiar o dedo no cu da gente. Então, companheira, se é para enfiar, é melhor que enfiem logo.”
 
- Milhares de homens morrem de câncer todos os anos e esse exame pode salvar uma vida! – Disse o médico, agora conversando com ele no ambiente de exames do consultório.
 
Para seu alivio, além de obter a confirmação de que sua próstata estava perfeita e que deveria tomar mais cuidado ao andar de bicicleta, o exame foi rápido e logo ele estava de novo sentado junto à mesa do médico.
 
- Doutor?
 
- Pode falar...
 
- Vou lhe confessar uma coisa: Se fosse somente por causa do meu medo de falecer, eu não teria feito esse exame não...
 
- E então, o que lhe convenceu?
 
- A macheza, doutor! Lembrei de minha mulher Genoveva e fiquei pensando: e se eu fugir do exame, e se eu tiver algum problema sério que me faça perder a minha macheza?
 
Humberto de Lima

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Maria Flor


Eu vejo uma nuvenzinha, Maria Flor!
É do tamanho de uma palma de mão.
Parece ainda longe daqui,
Mas continua vindo e não pára não!

Tu te lembras daquele tempo,
Quando montei o Asa Dura e galopei mundo afora?
Pois é, eu ví tudinho antes!
E ontem sonhei de novo, sonhei coisa boa pra nós agora!

Ei, vamos juntar minhas coisas e tuas coisas,
Fazer de nossas vidas um só roçado e esperar colheita?
Vem, vai chover risada, abraço arrochado e muito xero;
Vem, a nuvenzinha promete que vai se acabar a seca!

Sem encompridar muito,
Deixa eu logo te dizer:
Já cansei de ser um Zé sozinho!
E sinto falta de tu, flor do agreste; vem me desentristecer...

Humberto de Lima

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Confraria dos esquecidos



Francisco, Benedito, Severino e José;
Companheiros que são na confraria dos esquecidos.
Se me consultam em busca de conselho,
Eu lhes respondo ao coração e aos ouvidos.

Meio dito, quase dito,
É dito, todo dito e plenamente dito.
Porque ao bom entendedor, meia palavra basta;
E entre homem e mulher até os cheiros falam!

Se depois de tudo,
Vocês receberam o silêncio que congela;
Ou se um doloroso não foi a resposta delas,
Senhores, eu imploro, não se atirem da janela!

Que fazer por causa do que quase foi?
Que decidir sobre o que poderia ter sido?
Senhores, eu peço não se matem, não morram!
Sonhem, lutem, construam e continuem vivos!
 
Esta é a melhor maneira de lembrar um grande amor...

Humberto de Lima

segunda-feira, 28 de março de 2011

Aperreios de Zezé


Foi nos meus verdes anos quando eu morava entre a Preaca e o Beco do Aratu. Mas lembrei deles hoje e resolví registrar aqui mais esse acontecido de minha Paraíba.
 
Zezé, bom camarada, desde cedo foi precoce em tudo. Trabalhador, ainda menino corria pra lá e pra cá sempre trazendo um trocadinho pra casa (note-se que Zezé, dependendo da pessoa, pode ser apelido feminino ou masculino). Aconteceu que a pressa dele não se limitava apenas à vontade de virar homem e ganhar dinheiro; ele também queria casar, e na carreira!
Pois bem; sem escolher muito, botou os olhos em Deda (dependendo do lugar, Deda também pode ser apelido usado para eles ou para elas) e ligeirinho como coceira de coelho, o cabra logo se viu emocional e legalmente casado.
 
Convém acrescentar aqui que naquela época os meninos da ilha costumavam andar quilômetros se equilibrando sobre os trilhos da linha férrea até à Feira de Bayeux, onde íamos comprar limão para passar debaixo das axilas e na região pubiana. Não sei de onde nem de quem surgiu a idéia, mas nós acreditávamos que untar essas partes do corpo com limão iria acelerar a nossa macheza!
 
Bem bonita, Deda e seu corpão não deixavam Zezé dormir à noite; durante o dia, ele mal trabalhava direito, sonhando acordado com a volta pra casa mais tarde. Aconteceu que onde sobrava boniteza faltava alguns gramas de juízo; e foi aí que o pobre do Zezé se lascou todinho!
 
De noite, na hora de assistir TV, Deda se arrumava toda e também queria botar perfume. De olho nos galãs da novela, justificava sua produção dizendo: - Vocês acham que a gente deve aparecer toda desmantelada na frente desse povo bonito? 
Não raro, os dois arengavam por causa disso.

Até que um dia, contou-me o Irmão Cipas que (mais um apelido, este menos comum),  Zezé e Deda souberam que a prefeitura municipal tinha contratado atores globais para encenar a Paixão de Cristo em praça pública. 
 
Foi um frenesi! Deda começou a se arrumar pouco depois do almoço. Botava e tirava roupa, puxava o cabelo pra cima e pra baixo, rodava na frente do espelho... Até que chegou a hora de tomar o ônibus e seguir rumo à Praça Pedro Américo, no centro da cidade. Cipas foi junto com eles.
 
Lá, uma multidão já se aglomerava defronte do grande palco enquanto um Conjunto Musical tocava alguma coisa antes do início do espetáculo. 
 
Finalmente a apresentação começou e foi fluindo com excelente qualidade, a ponto de emocionar as pessoas que estavam por perto. Deda não era lá tão alta e já estava agoniada, sem conseguir ver direito por causa do povo que estava à sua frente.
- Zezé?
- Diz Dedinha...
- Me deixa montar no teu ombro...
E ele deixou.
 
Daqui a pouco, enquanto mulheres mais idosas silenciosamente se desmanchavam em lágrimas diante da cena forte que lhes era mostrada pelo ator principal, Deda se escanchou melhor nos ombros de Zezé, arregalou os olhos, botou as mãos em concha perto da boca e gritou:
- Goooooostoso!
 
Zezé quase teve um passamento, as velhinhas ficaram escandalizadas e Deda voltou pra casa feliz da vida. O tempo passou, o marido acabou se acostumando com as presepadas dela e Cipas nunca mais parou de me contar a mesma estória.
 
Humberto de Lima

sexta-feira, 18 de março de 2011

A ladeira


É na ladeira que os olhos se levantam,
O coração dispara e o fôlego pisa no freio.
Lá, contente o pensamento dança,
Os pés esquecem a pressa e param bem no meio.

É na ladeira que as palavras somem,
E a boca emudece sem ter o que falar. 
Lá, homem vira menino,
E a alma entra em êxtase num profundo admirar.

É na ladeira que tudo se vai tão rápido,
O oi, o tchau, e da tarde a mais bela beleza...
Lá, o instante voa como o passar da brisa,
Mas me leva consigo para que eu não esqueça! 
Humberto de Lima

sábado, 5 de março de 2011

Iaiá




Hoje eu nem me importo se meu time perdeu,
E até esqueci que amanhã levanto cedo.
Puxa uma cadeira e senta aqui comigo,
Entre um café e outro te conto um segredo...

Hoje eu dei ordens ao meu violão,
Para lembrar somente de canções alegres;
E se eu tocar um pouco no meio da conversa,
Será música assim que escolherei.

Hoje eu vejo amanhã cada vez mais perto,
E quando durmo sonho que hoje é amanhã!
Como é bom pra mim te ver por aqui;
Juro, ainda te chamo para a minha festa!

Refrão (2x)
Eu só  quero é ser feliz, Iaiá...
Falar de amor e ser feliz!

Humberto de Lima

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Penso, logo sou livre!



Já vai longe o tempo quando eu acreditei em super-homens e quis ser um deles. Agora vejo que eles não eram tão super o quanto eu imaginava; de fato, por trás da capa de onipotência se escondia a arrogância própria daqueles que mal conseguem ser simplesmente humanos.

Hoje procuro manter distância dos que se proclamam possuidores da suprema  infalibilidade (atributo que todos os papas provaram não existir nos humanos).
 
Distante dos modelos de perfeição expostos nas vitrines midiáticas do mundo religioso, eu prefiro a companhia de quem já viveu abertamente a realidade dos verbos cair e levantar.
 
Procuro aconselhar-me com aqueles que não escondem de mim o fato de serem pós-graduados na escola dos erros e acertos, com todas as quedas, lições, lágrimas e alegrias que integram seus históricos de vida.
 
Jesus tinha mesmo razão quando dizia: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Parafraseando o filósofo, penso e logo sou livre! É que agora, com os sentidos da alma mais aguçados, consigo distinguir melhor as diferenças entre Deus e o que dele me disseram. 
 
Liberto das correntes do dogmatismo, sou visto por alguns como um incrédulo; mas deslumbrado com a simplicidade da fé, prossigo olhando pra cima.
 
Humberto de Lima

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Reticências


Em lugar do que poderia ser dito e não foi,
E em nome de tudo o que ficou pra depois,
Falaram elas!

Muitas vezes circunstanciais,
Quando as palavras foram amordaçadas;
Pelo homem calado, gritaram elas!

Quando aguardar pareceu melhor,
E a ansiedade se rendeu à calma:
- Espera! – Ao pé do ouvido sussurraram elas!

Juro que um dia as deixarei bem livres,
Lhes darei folga e férias de meus textos;
E escrevendo...
Humberto de Lima

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Humberto de onde?


Parece que está cada vez mais difícil viver nesse nosso mundinho pós-humano. Digo mundinho porque depois do avião, do satélite, do telefone e da internet o globo parece ter mesmo virado uma aldeia. Isto é bom? Até seria se nossas fronteiras fossem bem protegidas e se nossos aeroportos tivessem a segurança que deveriam ter!
Digo pós-humano porque está cada vez mais difícil ser apenas pessoa física! É complicado viver sem ter que atrelar alguma marca ao sobrenome. Vamos ver? Ligue para alguma empresa, diga seu nome e informe o nome da pessoa com quem você gostaria de falar. Numa sociedade mais humanizada, isto bastaria para que imediatamente você fosse conectado com a outra pessoa. Mas não é o que acontece. Logo vem aquela clássica perguntinha: - Fulano de onde?
E aí? E se você estiver desempregado? Lembro que há alguns anos atrás alguém me segredou que fosse a uma grande fábrica localizada no distrito industrial de João Pessoa; pois estava para surgir uma oportunidade de trabalho lá.
Chegando lá, vi de longe uma placa escrita em letras garrafais que dizia: NÃO INSISTA, NÃO HÁ VAGAS! Um vigia de cara feia usou uma das mãos para abrir a janelinha da guarita enquanto com a outra segurava uma espingarda; e resmungou: - Diga!
- Sou Humberto de Lima e gostaria de falar com o gerente de recursos humanos.
- Se for vaga, a placa já está aí dizendo que não tem!
Respirei fundo e repeti calmamente: - Diga ao gerente de recursos humanos que Humberto de Lima está aqui e quer falar com ele.
Então o vigia indagou: Humberto de onde?
Falei sem titubear: - Da Universidade Federal.
O Brutus usou o interfone, a porteira se abriu e em segundos eu estava na sala de espera aguardando ser atendido.
Quando finalmente a secretária disse que eu poderia entrar, encontrei lá dentro um gerente sorridente, de pé ao lado do birô e com a mão já estendida para me receber.
Pus minha pasta sobre a mesa dele, saquei do bolso minha carteira de estudante e fui dizendo:
- Sou da UFPB, aluno do Curso de Administração e vim aqui para lhe entregar meu currículo e me candidatar à próxima vaga que está para surgir.
Ele olhou para mim, deu uma estrondosa risada, me pediu para sentar e disse: - Humberto, parabéns! Você foi o único de fora que conseguiu entrar nesta sala hoje!
- Então já tenho a vaga...
- Que vaga?
A partir desse ponto, ele me ofereceu água e cafezinho, mas desconversou. Disse que a abertura de uma nova vaga ainda estava em estudos e que me ligaria depois se necessário fosse.
Ele nunca ligou, mas saí de lá sabendo que dali pra frente, eu teria que ter jogo de cintura para lidar com situações parecidas.
Um dia desses, um amigo meu por descuido esqueceu o celular em casa e eu tive que ligar para a multinacional onde ele trabalha.
- Bom dia, aqui é Humberto de Lima e eu gostaria de falar com o Dr. Fulano...
- Humberto de onde?
- Daqui de casa mesmo – Respondi em tom amistoso.
A telefonista sorriu do outro lado e passou a ligação para o meu amigo.
Humberto de Lima

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