Quando eu era bem pequeno,
tinha medo de ficar sozinho em casa. Lembro que certa noite minha mãe me deixou
dormindo e saiu. Acordei, abri a janela
e fiquei chorando; até que uma vizinha chamada Dona Joana me levou para a casa
de Tia Lilina. Lá, nos braços de minha mãe, me senti seguro e o medo se
dissipou.
À medida que fui
crescendo outros medos me foram apresentados, tais como o medo do bicho papão e
do papa figo. Descobri mais tarde que o primeiro era criação dos adultos para
nos induzir a fazer o que eles queriam; o segundo era também invenção dos já
crescidos para evitar que nós ganhássemos o meio do mundo. Em nosso imaginário
infantil, o papa figo era um leproso que aparecia sem avisar, arrancando e
comendo a glândula hepática de meninos e meninas soltos nas ruas.
Tão logo eu e meus
colegas descobrimos que morávamos às margens do Rio Sanhauá, fomos ameaçados
com a possibilidade de encontrar sumidouros e seres como a Comadre Florzinha e
o temido Pai do Mangue. Vez por outra, como num disco de vinil com falhas, o
afogamento de algum moleque era passado e repassado centenas de vezes, até que
as mães, avós e tias tivessem certeza de que estávamos apavorados o suficiente
para não entrar mais no manguezal. Mas não tinha jeito, a gente continuava indo
assim mesmo.
Superada essa fase, de
tempos em tempos, quando a turma parecia estar aprontando além da cota
permitida, logo aparecia alguma funcionária do Grupo Escolar, comentando sobre
a última noticia:
- Lá pras bandas do estrangeiro nasceu um
menino com cabeça de porco e voz de monstro! Ele passou poucas horas vivo e
antes de morrer, disse que o mundo pode se acabar ainda esse mês, começando aqui
pela Paraiba!
Aquilo parecia balde de água
gelada sobre o nosso fogo. Passávamos alguns dias bem comportados diante de
profecias assim.
Já entrando na puberdade,
hormônios em alta, garotos e garotas ficavam animadíssimos diante da
possibilidade de sentar lado a lado em carteira dupla.
Um dia, eu e Marleide (Juro que já não lembro se o nome dela era Marleide ou Marileide) estávamos juntinhos naquele atrito bom, pé com pé, perna com perna... Fingindo concentração na aula de Matemática, fomos de repente surpreendidos pela professora, que veio até nós e falou baixinho:
Um dia, eu e Marleide (Juro que já não lembro se o nome dela era Marleide ou Marileide) estávamos juntinhos naquele atrito bom, pé com pé, perna com perna... Fingindo concentração na aula de Matemática, fomos de repente surpreendidos pela professora, que veio até nós e falou baixinho:
- Ou vocês se separam e
param com essa sem-vergonhice ou vou chamar o Sr. Zé Domingos e pedir que ele
leve os dois para Pindobal!
Não houve alternativa;
tivemos que obedecer. Afinal de contas, o Fiscal de Menores e Pindobal
eram dois nomes que realmente metiam medo na gente.
Mais tarde, fiquei
sabendo que o Sr. Zé Domingos, que também era pregador batista, apesar da cara
de durão, não prendia adolescentes como eu e a Marleide.
Num tempo em que a Ilha
não sabia o que era assalto, nem maconha nem maconheiro, meus velhos medos
eram apenas freios colocados pelos mais velhos para que eu não crescesse muito
depressa.
Humberto de Lima

5 comentários:
Valeu, amigo. O texto é lindo e me fez voltar ao tempo em que meus pais faziam o mesmo. Puxa, já estava com medo de ter esquecido tudo aquilo.....
Abraço do seu irmão "medroso" kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Amigo Xico Lima,
Obrigado por sua constante leitura e parabéns pelo sucesso do Paraiba VIP. Espero receber você, Alexandre e o Mestre Guila por aqui nesses dias.
Abraço da Serra do Bodopitá.
Muito bom texto! É sempre bom recordar destes tempos... E bom o tempo que o medo do *adultos* era apenas o de ver seus *pequenos* crescendo depressa! Abraço
Amigo Humberto,
Profunda simplicidade! Evocação da criança que sensibiliza o homem. Belo e humano texto!
Grande abraço!
Gostei do texto, Humberto! Você, com leveza e simplicidade,sempre nos presenteia com uma estória divertida ou um poema caloroso. Parabéns!
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