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"Um líder é alguém que conhece o caminho, vai pelo caminho e mostra o caminho". (John C. Maxwell).

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quimera


É como o mar, o mar, o mar azul,
Que é tão bonito e até me faz sonhar.
Sempre me atrai, pra si me faz correr,
E já faz parte do meu desejar.

É como o mar, o mar, o mar profundo,
Cujos mistérios eu não sei desvendar.
Sempre mistura certezas e dúvidas,
Criando em mim um eterno perguntar.

É como o mar, o mar, o mar distante,
Longe de mim e bem perto do céu.
Sempre me faz nadar, boiar cansado,
Fico à deriva, sinto- me ao léu.
Humberto de Lima

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Meus velhos medos


Quando eu era bem pequeno, tinha medo de ficar sozinho em casa. Lembro que certa noite minha mãe me deixou dormindo e saiu.  Acordei, abri a janela e fiquei chorando; até que uma vizinha chamada Dona Joana me levou para a casa de Tia Lilina. Lá, nos braços de minha mãe, me senti seguro e o medo se dissipou.
 
À medida que fui crescendo outros medos me foram apresentados, tais como o medo do bicho papão e do papa figo. Descobri mais tarde que o primeiro era criação dos adultos para nos induzir a fazer o que eles queriam; o segundo era também invenção dos já crescidos para evitar que nós ganhássemos o meio do mundo. Em nosso imaginário infantil, o papa figo era um leproso que aparecia sem avisar, arrancando e comendo a glândula hepática de meninos e meninas soltos nas ruas.
 
Tão logo eu e meus colegas descobrimos que morávamos às margens do Rio Sanhauá, fomos ameaçados com a possibilidade de encontrar sumidouros e seres como a Comadre Florzinha e o temido Pai do Mangue. Vez por outra, como num disco de vinil com falhas, o afogamento de algum moleque era passado e repassado centenas de vezes, até que as mães, avós e tias tivessem certeza de que estávamos apavorados o suficiente para não entrar mais no manguezal. Mas não tinha jeito, a gente continuava indo assim mesmo.
 
Superada essa fase, de tempos em tempos, quando a turma parecia estar aprontando além da cota permitida, logo aparecia alguma funcionária do Grupo Escolar, comentando sobre a última noticia:
 
 - Lá pras bandas do estrangeiro nasceu um menino com cabeça de porco e voz de monstro! Ele passou poucas horas vivo e antes de morrer, disse que o mundo pode se acabar ainda esse mês, começando aqui pela Paraiba!
 
Aquilo parecia balde de água gelada sobre o nosso fogo. Passávamos alguns dias bem comportados diante de profecias assim.
 
Já entrando na puberdade, hormônios em alta, garotos e garotas ficavam animadíssimos diante da possibilidade de sentar lado a lado em carteira dupla. 
 
Um dia, eu e Marleide (Juro que já não lembro se o nome dela era Marleide ou Marileide) estávamos juntinhos naquele atrito bom, pé com pé, perna com perna... Fingindo concentração na aula de Matemática, fomos de repente surpreendidos pela professora, que veio até nós e falou baixinho:
 
- Ou vocês se separam e param com essa sem-vergonhice ou vou chamar o Sr. Zé Domingos e pedir que ele leve os dois para Pindobal!
 
Não houve alternativa; tivemos que obedecer. Afinal de contas, o Fiscal de Menores e Pindobal eram dois nomes que realmente metiam medo na gente. 
 
Mais tarde, fiquei sabendo que o Sr. Zé Domingos, que também era pregador batista, apesar da cara de durão, não prendia adolescentes como eu e a Marleide. 
 
Num tempo em que a Ilha não sabia o que era assalto, nem maconha nem maconheiro, meus velhos medos eram apenas freios colocados pelos mais velhos para que eu não crescesse muito depressa.
 
Humberto de Lima

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