Entrou na
lojinha de cd pirata que ficava bem no meio da feira e foi logo dizendo:
- Moço, eu
quero aquele cd!
- Qual?
- Aquele que
faz assim: Tan-tan-tarantantantan... Tantan...
- Sabe qual é
o cantor?
- Ah, é aquele
bem bonitão... Um gato, ele...
- O nome dele, você sabe?
- Sei não...
Mas é aquele bem bonito que está fazendo o maior sucesso...
-Assim fica difícil localizar...
-Assim fica difícil localizar...
- O povo todo tá
cantando, desse jeito, ó... Tan-tan-tarantantantan...
Tantan...
Na tentativa
de ajudar, outro atendente foi mostrando, uma a uma, as capas de cantores boa
pinta que estavam nas paradas.
- Não, não é esse não. Nem esse... Também não...
- Não, não é esse não. Nem esse... Também não...
Uma pequena
platéia foi se formando para ouvir o concerto que deixava os vendedores cada
vez mais desconsertados. Mas, por maior que fosse o esforço, ninguém conseguia
descobrir a autoria daquela melodia sem letra e em ritmo de montanha russa. Em
clima de sacanagem, o pessoal aplaudia cada vez que ela concluía mais uma
estrofe de tan-tan-tarantantantan...
Apesar de
estar agora mais conhecida do que o artista que procurava, ela prosseguia
alheia ao seu próprio momento de fama:
- Por perto ninguém tem, e vim aqui porque já me disseram que vocês têm que ter!
- Moça,
infelizmente, nós não temos!
- Pois devia
ter. Era pra dar presente de aniversário à minha sobrinha!
Xingou o rapaz de baitola e foi saindo, fumaçando
pelas ventas.
E eu, que já
vi quase tudo no folclórico mundo da feira, também vi, ao passar perto do local
onde vendem verdura, um irmão fundamentalista, Bíblia em punho, que desafiava seu vizinho de
barraca, dizendo: - Vem pra cá e eu vou te desmoralizar dentro da Palavra!
Confesso que
até parei e fiquei por ali examinando um belo jerimum, curioso por ver como
seria o debate, mas o desafiado mandou o desafiante ir para a baixa da égua e
se aquietou em cima de um tamborete.
Seguí em frente e passei perto de um boteco grande onde bêbados paquidérmicos praticavam levantamento de copo e arremesso de piola sob uma nuvem de moscas . Um deles, talvez com dor de cotovelo, tentava competir com o som do rádio que tocava Bartô Galeno.
Seguí em frente e passei perto de um boteco grande onde bêbados paquidérmicos praticavam levantamento de copo e arremesso de piola sob uma nuvem de moscas . Um deles, talvez com dor de cotovelo, tentava competir com o som do rádio que tocava Bartô Galeno.
Um pouco mais
adiante, perto do estacionamento dos ônibus, um moleque escrevia na parede com carvão, anunciando em grafia quase indecifrável mas aqui devidamente traduzida:
“Comida boa e banheiro limpinho. Banho por um real. Mijar ou obrar, somente cinqüenta
centavos”.
Humberto de
Lima

0 comentários:
Postar um comentário