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"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

domingo, 24 de outubro de 2010

No mundo da feira


 
Entrou na lojinha de cd pirata que ficava bem no meio da feira e foi logo dizendo:
- Moço, eu quero aquele cd!
- Qual?
- Aquele que faz assim: Tan-tan-tarantantantan... Tantan...
- Sabe qual é o cantor?
- Ah, é aquele bem bonitão... Um gato, ele...
- O nome dele, você sabe?
- Sei não... Mas é aquele bem bonito que está fazendo o maior sucesso...
 
-Assim fica difícil localizar...
- O povo todo tá cantando, desse jeito, ó... Tan-tan-tarantantantan... Tantan...
Na tentativa de ajudar, outro atendente foi mostrando, uma a uma, as capas de cantores boa pinta que estavam nas paradas.
 - Não, não é esse não. Nem esse... Também não...
 
Uma pequena platéia foi se formando para ouvir o concerto que deixava os vendedores cada vez mais desconsertados. Mas, por maior que fosse o esforço, ninguém conseguia descobrir a autoria daquela melodia sem letra e em ritmo de montanha russa. Em clima de sacanagem, o pessoal aplaudia cada vez que ela concluía mais uma estrofe de tan-tan-tarantantantan...
 
Apesar de estar agora mais conhecida do que o artista que procurava, ela prosseguia alheia ao seu próprio momento de fama:
- Por perto ninguém tem, e vim aqui porque já me disseram que vocês têm que ter!
- Moça, infelizmente, nós não temos!
- Pois devia ter. Era pra dar presente de aniversário à minha sobrinha!
 
Xingou o rapaz de baitola e foi saindo, fumaçando pelas ventas.
 
E eu, que já vi quase tudo no folclórico mundo da feira, também vi, ao passar perto do local onde vendem verdura, um irmão fundamentalista, Bíblia em punho, que desafiava seu vizinho de barraca, dizendo: - Vem pra cá e eu vou te desmoralizar dentro da Palavra!
 
Confesso que até parei e fiquei por ali examinando um belo jerimum, curioso por ver como seria o debate, mas o desafiado mandou o desafiante ir para a baixa da égua e se aquietou em cima de um tamborete.
 
Seguí em frente e passei perto de um boteco grande onde bêbados paquidérmicos praticavam levantamento de copo e arremesso de piola sob uma nuvem de moscas . Um deles, talvez com dor de cotovelo, tentava competir com o som do rádio que tocava Bartô Galeno.
  
Um pouco mais adiante, perto do estacionamento dos ônibus, um moleque escrevia na parede com carvão, anunciando em grafia quase indecifrável mas aqui devidamente traduzida: “Comida boa e banheiro limpinho. Banho por um real. Mijar ou obrar, somente cinqüenta centavos”.
  
Humberto de Lima

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