Ando
espremido entre dois mundos bem próximos e ao mesmo tempo bem diferentes
um do outro.
Estes dois mundos por entre os
quais passa o bequinho estreito daqueles que se encaixam em meu perfil, são bem
distintos um do outro porque não há como deixar de perceber o contraste entre a
qualidade de vida dos que nadam em riqueza e a qualidade de vida dos que estão
abaixo da linha da pobreza. Estão bem próximos, porque personagens dos dois
lados se cruzam todos os dias nos sinais de trânsito; uns do lado de dentro do
carro, e os outros, descalços do lado de fora.
Às vezes, observo os pedintes que
vagueiam pelas ruas das cidades. Como
mortos-vivos entorpecidos pela desnutrição, sem protestos, se arrastam em direção à próxima esmola...
Também vejo os que sentam no alto
da pirâmide social. Lá estão herdeiros de riquezas advindas de antigas capitanias
hereditárias, sesmarias, trabalho escravo, trabalho semi-escravo e muita
corrupção. Vivendo luxuosamente, esta casta
segue insensível a tudo o que de ruim acontece mais em baixo.
Então, lembro dos governantes e
dos representantes que foram legal e democraticamente eleitos para diminuir as
diferenças entre esses dois mundos. Mas a maioria deles, mesmo daqueles que um
dia viveram próximo aos descamisados dos lixões, já se deixou contaminar pelos
vírus palacianos da indiferença.
Sei que sofrem os miseráveis, mas
me atrevo a dizer que dentro da atual estrutura sócio-econômica brasileira, em alguns aspectos, são
mais penalizados os que fazem parte da classe média.
Somos mais penalizados porque, como diz a canção cantada pelos Titãs, "a gente não quer só comida...". Cônscios de necessidades outras, somos também pressionados por obrigações que nos são impostas por uma sociedade que valoriza mais o ter do que o ser.
Somos mais penalizados porque ao
contrário daqueles que nada ganham e por isso não podem contribuir, temos nossos salários achatados
pelo rolo compressor dos tributos diretos e indiretos.
Somos mais penalizados porque
descobrimos que a escola pública não é boa para nossos filhos, e, temos que
fazer das tripas coração, para mantê-los na escola particular.
Somos mais penalizados porque não
dá para sair a pé; temos que pagar caro pelo carro popular ou pagar caro pelo
ônibus. Além disso, muitos de nós precisamos de terno, gravata e celular para
sermos aceitos no mercado de trabalho.
O maior de todos os problemas,
porém, é que vivendo essa vida fronteiriça entre riqueza e pobreza, estando mais
bem informados sobre o estado de coisas que nos cerca, e tendo maior facilidade
de comunicação com os dois mundos aqui expostos, muitos de nós resolvem fazer a
coisa errada.
É chegada a temporada em que
membros da classe média deveriam deixar seus apartamentos e visitar os barracos
de favelas para dar lições de cidadania. Mas, infelizmente, muitos irão até lá a
serviço de políticos corruptos, para comprar votos.
Esquecem que estes políticos para
os quais trabalham são os mesmos que há mais de vinte anos insistem em não
aprovar a lei complementar exigida pelo artigo 153, Inciso VII da Constituição Federal,
que prevê cobrança de impostos sobre grandes fortunas.
A classe média é como uma mulher
que chora porque apanha do marido, mas não se divorcia nem chama a polícia.
Humberto de Lima

4 comentários:
Gostei, pr.Humberto. Realmente trata-se do retrato do povo brasileiro. O pior é que nunca este Brasil vai mudar; sempre continuará essa distância entre as mais diversas classes de brasileiros. E, em se tratado de Nordeste, a situação é muito pior. E se particularizarmos a nossa Paraíba, meu Deus do céu, é um horror. Aqui tem política todo dia, independentemente de ano eleitoral. É uma vergonha a situaçao dos representantes do povo brasileiro. Não sei se há alguma execeção, pois todos têm a mesma índole, o mesmo comportamento. Não vejo muita diferença. Uns tomam o poder dos outros; outros governam e nada fazem. Eles gostam mesmo é de se locupletar-se. Nada mais.
É isso aí, pobre do brasileiro.
Manoel Basílio
Campina Grande (PB)
Concordando em absoluto com você, porém, aproveito para lembrar que: Somente a educação ajudará ao ser humano a inserir-se criticamente no processo histórico, e a libertar-se pela conscientização, da síndrome do ter e da escravidão do ser. De nada adianta percorrermos as favelas com lições de cidadania destinadas a seres famintos, carentes de saúde, educação, sem a mínima consciência de qual é o seu papel na sociedade, até porque, muitos deles nem desempenham nenhum papel na sociedade em que vivem a não ser aquele de pedintes da sua própria subcondição humana.
Abraço
Jaqueline.
Olá Pastor!!
Gostei mt do seu texto sobre a classe média.
Bastante reflexivo!
Aproveito p/ desejar-lhe um Feliz Dia dos Pais!
Que Deus t abençõe!
Pastor Arlindo
Texto bastante expressivo e que retrata bem a nossa realidade brasileira, colonização de exploração, que vem persistindo até hoje. Devemos sim, lutar para despertar nas classes excluídas(este é uma ato educador) a consciência de que eles podem contribuir para mudar a história do nosso país através do voto consciente. Esse é um bom começo. Abaixo o voto de cabresto!
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