Quando o governador assumiu, logo tratou de
exonerar todos os desafetos que ocupavam cargos de confiança, substituindo-os
por gente sua; o que me parece lógico e necessário.
Bajulador número 01 do ex-mandatário, Simão Boquinha
foi um dos primeiros a ser mandado de volta para o seu salário mínimo, lá na
periferia da capital. Estrebuchou, xingou, amaldiçoou e berrou aos quatro
ventos que jamais faria qualquer acordo com o “satanás” que acabara de assumir
o poder executivo.
Depois de ter queimado as parcas reservas que haviam
sobrevivido ao seu estilo de vida consumista, Simão foi pouco a pouco perdendo
a pose e se desfazendo de alguns bens. Primeiro, teve que devolver a super casa
ao banco, tendo que voltar para aquele bairro cuja poeira ele tinha batido dos
pés há alguns anos atrás.
Em seguida, como numa avalanche que começa
pequenininha e vai crescendo rápida e assustadoramente, teve que trocar o
carrão por um carrinho, usando a diferença para ir pagando as despesas
domésticas...
Avesso aos estudos, tendo dedicado seus melhores
anos ao mundo da politicagem, Simão finalmente chegou ao fundo do poço. Dessa
forma, os próximos dois anos o deixariam em situação de quase mendicância,
sobrevivendo graças aos esforços filantrópicos de alguns parentes.
Até que, para sua salvação ou perdição (a análise
depende muito do olhar do leitor), o deputado estadual de Simão resolveu deixar
a oposição e mudar de lado por todas as razões nada doutrinárias que geralmente
caracterizam este tipo de migração.
A princípio, Simão fingiu ser difícil, mas ficou apenas no ensaio. O deputado mandou chamá-lo e ele atendeu correndo, como um cachorrinho faminto a quem mostram um osso com muita carne. Quando saiu do gabinete, estampava um sorriso que ia de orelha a orelha, dizendo:
- To com o homem e não abro!
Reconduzido ao cargo comissionado, Simão Boquinha
agora terá que se desdobrar para manter seu novo chefe no poder; pois seu novo
chefe, enquanto no poder estiver, será também sua ideologia, seu provedor e seu
deus.
E se porventura você achar essa estória parecida com a história de alguém que você conhece, saiba que não se trata apenas de mera coincidência. A ficção e a realidade às vezes se encontram para revelar os bastidores de um país-mercado onde votos e almas ainda são descaradamente postos à venda.
Humberto de Lima

2 comentários:
Do irmao Roberto.
Pr Humberto, "assim caminha a humanidade", a descricao é perfeita! é lamentavel figuras como essas, resta-nos pedir ao pai que livre a Sua casa dos tais. E com a proximidae de novas eleicoes eles se evidenciam.
Que Deus o abencoe Sampre!
Irmao Roberto
Olá Humberto,
Suas crônicas são d+. Essa última então, tá ótima!
Postar um comentário