Futebol em meus verdes anos foi como um romance
proibido. Criado debaixo dos usos e costumes da Assembléia de Deus da década de 70,
somente de vez em quando eu escapulia e batia uma peladinha às escondidas em um campinho que existia na Ilha do Bispo. Quando não era descoberto e repreendido
pelos meus pais, voltava pra casa pensativo: - Seria mesmo pecado chutar uma
inocente pelota? Talvez por isso eu nunca tenha aprendido a namorar direito,
isto é, jogar direito.
Depois de ter estudado a Bíblia de Gênesis a
Apocalipse, meu senso crítico foi pouco a pouco ficando mais aguçado; e comecei
a dizer que calção, praia e bola estavam na lista das melhores coisas que poderiam
ser curtidas por um jovem cristão. Para os mais velhos isto soou como heresia
pura; mas para mim, era uma verdade libertadora da qual eu jamais abriria mão.
Deixando para trás o que para trás ficou, quero aqui
falar sobre algumas idéias e manias que somente podem ser vistas no divertido
mundo da bola! O fato é que jogadores profissionais, peladeiros de fim de
semana, torcedores contumazes e também aqueles que só aparecem em tempos de
copa do mundo, apresentam, cada um, o seu CCF – Coeficiente de Convicções
Futebolísticas. Vejamos, pois, alguns perfis...
O patriota – Durante a copa do mundo veste até cueca
verde-amarela; e, quando se trata de algum torneio internacional de clubes,
acaba torcendo por qualquer time, desde que seja brasileiro, mesmo que seja
adversário no campeonato estadual.
O fundamentalista – Faz mandinga na esperança de
atrapalhar a equipe contrária, acende velas, reza e acredita que Deus, além de torcer,
pode também fazer um golzinho de mão para o time dele.
O hiperativo – Põe as mãos na cabeça, fica vermelho, pula,
senta, levanta, anda de um lado para o outro, rói as unhas, cruza os dedos,
tapa os olhos para não ver a cobrança da penalidade máxima... Tem certeza de
que sua participação pode acabar interferindo na direção tomada pela jabulani.
O melancólico – Mesmo ganhando, fica com pena dos
perdedores; e mostra carinha de triste quando percebe que um atleta do banco de
reservas só foi colocado em campo aos 43 minutos e meio da segunda etapa. Vai
às lágrimas quando sua equipe perde...
O surtado – Fala mal da mãe, da irmã, da avó e xinga
também a terceira e quarta gerações do técnico, árbitro ou jogador que lhe
contrariar em campo... Dá murro no ar, atira na televisão, atira a televisão,
às vezes se atira... Crê de todo o coração que partida de futebol é questão de
vida ou morte. É aconselhável que o deixem assistir ao jogo sozinho, pois se trata
de sujeito de alta periculosidade.
O enciclopédico – Sabe tudo de todas as delegações, de
todas as competições, de todas as épocas e fala alto o jogo inteirinho, achando
que o Galvão Bueno precisa ser dublado. Sua família também tem um desses?
O noviço rebelde – É aquele iniciante que espera os momentos
mais decisivos da partida para perguntar o que é impedimento, o que é 4,4,2 e
outras minúcias que a gente não consegue explicar com uma frase só.
O etílico – Esse tipo é imprevisível. Quando não
desaba para acordar no dia seguinte perguntando se já terminou o primeiro
tempo, é capaz de assumir qualquer uma das identidades acima descritas. Seu
bafo é horrível!
Vou parando por aqui, pois preciso atender a uma
chamada telefônica de uma nova espécie de torcedor ainda não catalogada.
Humberto de Lima

1 comentários:
Só pra destacar, nem todas as mulheres pertencem aos grupo das tietes! Fato!
Adorei o texto! :)
Faço parte dos hiperativos! kk
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