" "

"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O homem que adiava

-->
Chovia fino. De sua rede, Quincas olhava para a serra onde os coriscos caíam sem parar. Dos outros, sete já haviam adormecido; somente ele e Zé Galo continuavam acordados e silentes, ouvindo o coaxar da saparia.
- Zé?
- Fala Quincas!
- Estava aqui pensando numa coisa que Tonho me disse hoje de manhã...
- Homem, Tonho ta morto desde ontem e nós dois fomos pro enterro dele hoje de tarde. Tu ta endoidecendo?
Além de ter sido um vaqueiro dos bons, o velho Tonho fora um cabra daqueles que se vai e deixa muita saudade. Solteirão, nas horas de folga, ele costumava dedilhar viola caipira, contava causos, e, entre uma prosa e outra, soltava um suspiro viajante, daqueles que faz chegar do outro lado do mundo. Aí abria o coração e pela enésima vez falava de sua vontade de sair da vila para realizar um de seus planos: conduzir boiada, pescar dourados e ver jacaré no pantanal.
- To de bom juízo, Zé! É que hoje de manhã, enquanto eu olhava pro rosto do Tonho lá na capela, parecia que ele tava falando comigo o tempo todo.
- Falando o que, homem?
O falecido, apesar de ser dono de seu próprio sítio e de ter juntado dinheiro suficiente para fazer a viagem dos seus sonhos, tinha mania de adiar as coisas. Nunca marcava data para nada; dessa forma, o tempo ia passando e ele também.
- Apesar de morto, foi como se Tonho estivesse me dizendo: Quincas, fui deixando tudo pra depois e acabei não indo pro Mato Grosso! E aquela dúvida, Quincas? Tu não vais tirar aquela dúvida?
Brincando com um vaga-lume que pousara em seu dedo, Zé Galo encarou a idéia como sendo mais um dos muitos pensamentos que passam pela cabeça da gente em momentos assim.
- Amanhã será outro dia, Quincas, apenas outro dia...
Mas tinha que ser diferente, pois Quincas estava agora decidido. Naquela madrugada de segunda-feira, arrumou a mala, acertou contas com o patrão, pegou um ônibus e rumou para as bandas do agreste.

Semanas depois, ainda triste por causa do não que ouvira, enviou de lá um torpedo pro celular de Zé:
- Dina não quis ficar comigo mas continuo aqui por mais um tempo. Quero ser veterinário!
 
Humberto de Lima

Um comentário:

Clauberta Meyer disse...

Humberto de Lima, sempre se supera na sua sabedoria!!!

Mais lidas na semana