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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

sábado, 24 de abril de 2010

Sobre religião e direitos humanos

Meu primeiro contato com a expressão “direitos humanos” se deu quando eu era ainda menino. Em época de ditadura militar, apresentadores de programas policiais divulgavam através do rádio a idéia de que os direitos humanos eram invenção de bandidos para a proteção de outros bandidos. Até mesmo eu fui, em alguns momentos, pequeno papagaio verde-amarelo, repetindo para o povão aquela linha de pensamento que era facilmente assimilada pela maioria.

Mas os anos passaram e minha velha opinião sobre o assunto foi finalmente modificada pela maturidade adquirida com o correr do tempo, pelas conversas na universidade, pelos livros que li, pelas reflexões sobre o Evangelho de Cristo e também pela Constituição Federal de 1988.

Recentemente, navegando pelas páginas da história mundial, me voltei para o tema religião e direitos humanos, na tentativa de entender até que ponto as duas coisas andam de mãos dadas ou se antagonizam. Como pastor, eu não posso esquecer belos exemplos que nos foram dados por cristãos como Martin Luther King, Desmond Tutu, Madre Tereza de Calcutá, dentre muitos outros, católicos e protestantes, famosos e anônimos, de ontem e de hoje. Sem dúvida, muito do que já foi feito em prol das liberdades individuais, feito foi por gente religiosa, pessoas que apesar da falibilidade inerente a todo ser humano, viram na religião não apenas um meio de busca do divino, mas também instrumento de implementação do bem comum.

Entretanto, observei que a linha do tempo apresenta lapsos (alguns deles, como a Idade Média, duraram milênios) em que a religião foi utilizada por alguns poucos, como instrumento de dominação, exploração e aniquilamento das massas. Preocupante é perceber que o mundo tecnológico e globalizado de nossos dias ainda tem em seu mapa vergonhosas manchas onde seres humanos são perseguidos, presos, torturados e assassinados por fanáticos religiosos que não respeitam outras formas de crer diferentes daquela que eles mesmos professam.

Por isso, devem os países democráticos constantemente revisar seus ordenamentos jurídicos e fortalecer suas defesas contra ideologias ou sistemas políticos que atentem contra um dos mais sagrados de todos os direitos fundamentais – a liberdade de culto.

Que nossas fronteiras continuem fechadas para os deuses da intolerância! A manutenção do Estado Laico e da livre expressão de todas as crenças, sem violar o direito dos que não querem crer, é o atestado de sanidade mental, social e política de uma nação.

Humberto de Lima

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Vida Maria


Vida Maria como tantas outras,
Quando nasci te vi e me assustei.
Mas és tão linda, fui acostumando;
E com o tempo eu me apeguei.
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Tivemos brigas e elas foram tantas,
Não poucas vezes eu só reclamei.
Hoje percebo o quanto tu és única;
Ah, se não partes, melhor te amarei!
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Te amarei, indo às pequenas coisas,
Que tu me deste e eu nem percebi!
Gastarei tempo com outras Marias,
Que tão sozinhas andam por aqui.
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Se tu me dizes não ter o controle,
E não decides quando é que vais,
Direi bem alto Àquele que enviou-te:
Deixa que ela fique um pouco mais!
Humberto de Lima

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Deslizes e deslizamentos.


Todos nós sabemos que jogar dejetos nas ruas resulta, dentre outros males, no entupimento de galerias pluviais. Uma vez obstruídas, elas não absorvem o conteúdo das chuvas e o que deveria continuar sendo estrada, se transforma em inundação de água suja, causadora de prejuízos e enfermidades. Contudo, o desassistido povo da periferia continua lançando seus detritos em calçadas ainda invisíveis aos olhos vendados do poder público. Se por lugares assim o caminhão do lixo não passa, eles decidem descartar o entulho em qualquer canto e esperar pela próxima enxurrada.
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Todos nós sabemos que durante o período das enchentes os rios crescem e precisam de um espaço extra ao lado de seus leitos para correr sem problemas. Também estamos cientes da necessidade de preservação das matas ciliares, indispensáveis à preservação destes mesmos rios. Porém, bem debaixo dos narizes omissos dos órgãos de gestão ambiental, as margens ribeirinhas continuam sendo desmatadas e invadidas por loteamentos e construções irregulares.  Depois de cada cheia, o povo lamenta a perda da geladeira, da TV, da cama e da própria casa. E os rios seguem chorando a morte de seus peixes e o fedor da poluição.
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Todos nós sabemos que nem todo monte ou encosta é apropriado para habitação. Alguns, quando desmatados, se transformam em áreas de risco. Todavia, de forma desordenada, o processo de favelização sobe a serra para depois descer em forma de desabamentos, soterramentos, mortes e dores. O Morro do Bumba é apenas a ponta de um iceberg bem maior do que podemos imaginar. Disso tudo, todo mundo sabe!
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Sabem disso os legisladores e alguns deles já provaram que disso sabem ao editar boas leis sobre a matéria. Sabem disso os ocupantes do Poder Executivo; entretanto preferem remediar em vez de prevenir. Sabe disso o Ministério Público; embora prefira ser provocado, esquecendo sua liberdade de agir ex oficio. Também sabe disso o povo; mas este, parece gostar do mais fácil.

A lei do mais fácil parece mesmo estar impregnada na alma brasileira. Lucrar de qualquer jeito, construir em qualquer lugar e votar em qualquer um é mais fácil e mais rápido que fazer a coisa certa.
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Enquanto isso, sob os deslizes e deslizamentos, flui um  mar de lama...
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Humberto de Lima

terça-feira, 6 de abril de 2010

Recado para John

Corre, John!
Teu celular novo não é novo mais,
Todo mundo já viu essa tua camisa,
Teu carro é bom, mas não é da hora.
Comprar, comprar! É o que mais precisas!

Corre, John!
Acabou o evento da semana passada,
A página com tua foto já foi amassada;
E se não vais ao colunista, ele não vem a ti.
Brilhar, brilhar! É o que mais te agrada!

Corre, John!
Tens gente nova pra encontrar,
Talvez sem defeitos, do jeito que imponhas;
Com defeitos, basta tu John!
Trocar, trocar! É o que mais tu sonhas!

E agora, John?
Tua conta bancária já não agüenta,
Teu corpo malhado também não suporta,
A cabeça insone mais e mais esquenta;
És espírito cansado e enfraquecida aorta!

Vem!
Volta com pressa à tua vida simples,
à tua família e aos velhos amigos.
Entra de novo naquele quartinho,
Onde quietinho falavas com Deus.

Ainda dá tempo, John...
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Humberto de Lima

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