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"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lamentações

Lamento pela adolescência reprimida. Dentre muitas outras coisas, era proibido vestir bermuda, ir à praia, entrar no cinema, assistir programas de TV, olhar o circo e ouvir ou cantar qualquer outra música além da que era ouvida e cantada dentro do templo. Às vezes, eu transgredia as regras, mas o prazer sentido logo era sufocado pela pressão do meio e também pela idéia de um deus tirano, disposto a me matar por causa da última pelada no campinho da ilha.

Nessa época, meu coração já batia forte com a idéia de ser um mensageiro de Deus; o problema é que eu estava equivocado em relação à mensagem e igualmente equivocado em relação à forma de transmiti-la ao mundo. Querendo ganhar espaço dentro do sistema eclesiástico em que estava inserido, me distanciei das coisas e de gente da minha idade e envelheci por dentro e por fora. Meus fins de semana eram marcados pela cara fechada e pelas viagens a pé sob um sol causticante, dentro de um terno escuro e maior do que eu.

De vez em quando, meu espírito libertário questionava tudo, mas minhas indagações não encontravam eco nas paredes do quadrado institucional em que eu vivia. Afinal, haviam me ensinado que ouvir pregadores de outras igrejas e ler outros livros além da Bíblia colocaria em risco a minha salvação eterna. Até mesmo a leitura do Livro Sagrado só podia ser feita com as lentes oferecidas pela ótica do meu clero; em outras palavras, minhas convicções legalistas eram baseadas em textos fora de seus contextos, sem levar em conta os princípios da boa hermenêutica.

Lamento pelos efeitos de coisas que preguei. Por muito tempo, meu carisma e eloqüência foram usados para propagar idéias carregadas de extremismo e de preconceito denominacional. Por onde passava, deixava uma legião de imitadores, que vivia como eu, e como eu, gritava nas noites de domingo, afirmando que os membros de todas as outras igrejas estavam condenados ao inferno.

Há quem ainda insista em me abordar com o papo de que eu preciso “voltar pra casa”. Não tem jeito! Sou como um ex-detento, que em perfeito juízo recebeu o alvará de soltura e nunca mais quer retornar à prisão. Quando abro minha boca e começo a explicar minhas razões, logo se afastam com a cara emburrada; afinal, eles aprenderam a falar, mas ainda estão longe de querer pensar e ouvir.

Agora distante daquele evangelho-fardo, sigo apaixonado pela vocação pastoral, creio cada vez mais em Deus e sou feliz por servi-lo em beneficio da comunidade.
Humberto de Lima

3 comentários:

Gibson disse...

Um texto com uma confissão que, tenho certeza, muita gente gostaria de gritar, mas elas tem medo de Deus, por não verem que Ele nos criou para bons relacionamentos e não para nos prendermos a legalismos que só nos capacitam para a repressão e os julgamentos.
Parabéns pr Humberto! E glória a Deus por essa voz que não se deixa silenciar pelos caprichos da religião!
Um abraço fraterno!

Anônimo disse...

È extremamente lamentavel pastor Humberto que, ainda hoje, homens que buscam fazer a vontade de Deus, coloquem fardos tão pesados sobre aqueles que dirigem achando que estao agradando ao Meste. Com fardos como esse sobra pouco tempo para fazer o que Deus realmente quer! Que Deus o abençoe poderosamente, em nome de Jesus.
Irmao Roberto.

Francinaldo Nascimento disse...

Mas Deus dá!!!

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