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"Um líder é alguém que conhece o caminho, vai pelo caminho e mostra o caminho". (John C. Maxwell).

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Do vigésimo segundo andar

Do vigésimo segundo andar...
O grande se apequena,
O minúsculo se agiganta,
E o distante se aproxima.

Lá,
Vejo mais que antes,
Sei mais que antes;
Sou ao mesmo tempo águia poderosa e pardal cansado.

De lá,
Entendo e choro o que não foi,
Imagino o que ainda poderá ser
E ouço a voz que me faz teimoso.

Viver, querer, sonhar...
Verbos falam comigo no vigésimo segundo andar!

Humberto de Lima

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Senhora Inspiração


Por onde andas tu, foste além mar?
Cadê o teu sussurro, que já não vem em meio ao vento?
Estás de folga, talvez de férias?
Ou brincas de esconde-esconde, fingindo não mais voltar?

Paciente, te espero;
Mas não muito!
Insistente, parto em busca de ti;
Então te encontro e te convido para o leito branco de meu rascunho...

Ali, sem pressa, sinto o prazer de te escrever e te editar;
De novo, de novo e de novo até fazer-te texto.
Depois, te assumo e te selo com o selo do meu próprio nome;
E tu, em pleno êxtase, me chamas de autor!

Humberto de Lima

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lamentações

Lamento pela adolescência reprimida. Dentre muitas outras coisas, era proibido vestir bermuda, ir à praia, entrar no cinema, assistir programas de TV, olhar o circo e ouvir ou cantar qualquer outra música além da que era ouvida e cantada dentro do templo. Às vezes, eu transgredia as regras, mas o prazer sentido logo era sufocado pela pressão do meio e também pela idéia de um deus tirano, disposto a me matar por causa da última pelada no campinho da ilha.

Nessa época, meu coração já batia forte com a idéia de ser um mensageiro de Deus; o problema é que eu estava equivocado em relação à mensagem e igualmente equivocado em relação à forma de transmiti-la ao mundo. Querendo ganhar espaço dentro do sistema eclesiástico em que estava inserido, me distanciei das coisas e de gente da minha idade e envelheci por dentro e por fora. Meus fins de semana eram marcados pela cara fechada e pelas viagens a pé sob um sol causticante, dentro de um terno escuro e maior do que eu.

De vez em quando, meu espírito libertário questionava tudo, mas minhas indagações não encontravam eco nas paredes do quadrado institucional em que eu vivia. Afinal, haviam me ensinado que ouvir pregadores de outras igrejas e ler outros livros além da Bíblia colocaria em risco a minha salvação eterna. Até mesmo a leitura do Livro Sagrado só podia ser feita com as lentes oferecidas pela ótica do meu clero; em outras palavras, minhas convicções legalistas eram baseadas em textos fora de seus contextos, sem levar em conta os princípios da boa hermenêutica.

Lamento pelos efeitos de coisas que preguei. Por muito tempo, meu carisma e eloqüência foram usados para propagar idéias carregadas de extremismo e de preconceito denominacional. Por onde passava, deixava uma legião de imitadores, que vivia como eu, e como eu, gritava nas noites de domingo, afirmando que os membros de todas as outras igrejas estavam condenados ao inferno.

Há quem ainda insista em me abordar com o papo de que eu preciso “voltar pra casa”. Não tem jeito! Sou como um ex-detento, que em perfeito juízo recebeu o alvará de soltura e nunca mais quer retornar à prisão. Quando abro minha boca e começo a explicar minhas razões, logo se afastam com a cara emburrada; afinal, eles aprenderam a falar, mas ainda estão longe de querer pensar e ouvir.

Agora distante daquele evangelho-fardo, sigo apaixonado pela vocação pastoral, creio cada vez mais em Deus e sou feliz por servi-lo em beneficio da comunidade.
Humberto de Lima

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

As conversas de Anabela

Anabela é uma daquelas pessoas que eu conheci lá para as bandas do litoral e nunca mais esqueci!
Dentre os seus passatempos preferidos estão caminhada, hidroginástica e as viagens com o marido ou com algumas de suas muitas amigas. Mas há ainda outras duas coisas que não posso deixar de citar: ela adora olhar defuntos e conversar sobre enfermidades. Nos velórios, ela observa bem direitinho a cara do morto, faz amizade com algum parente do mesmo, e, em poucos minutos já sabe um monte de coisas sobre a biografia e também sobre a causa mortis.

Uma vez, num consultório médico, uma mulher falou pra ela o tipo de problema que a levara até ali. Coitada! Anabela contou-lhe sobre outra mulher, conhecida sua, que teve o mesmo tipo de mazela, mas ainda conseguiu sobreviver por mais dois anos.

Certo dia, por ocasião de uma visita, lhe perguntei sobre um conhecido nosso, que eu não via há bastante tempo. Imediatamente ela me disse por onde andava o camarada e já foi fazendo um link em direção ao seu tema preferido:

- Ah, você nem sabe! Um vizinho dele começou sentindo uma dor nas costelas, essa dor foi aumentando, aumentando, aumentando...; e, quando ele resolveu cuidar, o tumor já estava grande demais!

Enquanto ela continuava, contando os detalhes dolorosos do caso, eu, arredio a esses papos, fui logo inventando uma maneira de mudar o rumo da prosa.

- Estou pensando em tomar uma sopa. A senhora sabe onde temos uma boa soparia por aqui?
- Sim, sei; tem uma excelente lá no fim da Epitácio. Por falar em sopa, Lia de Dudé tomou uma sopa de camarão e ficou toda intoxicada! Tudo começou com uma coceira danada, parecia que os olhos iam saltar das caixas; depois, ela foi ficando toda roxa e inchada! Quase, quase! Alergia é um doenção; parece simples, mas também mata!

Eu – Será que este sábado vai ser bom para pegar uma praia?
Ela – Acho que sim; ainda estamos no verão. Mas é preciso ter cuidado. Um dia desses, uma amiga minha lá de Bayeux foi parar no Hospital Napoleão Laureano. Resultado? Câncer de pele!

Com um poder de descrição incrível, ela prossegue, fazendo passar no telão de nossas mentes todas as minúcias sofridas pela amiga.

Procuro outra vez cambiar o foco da conversa, mas não vou muito longe. Dois minutos depois lá está ela de novo discorrendo sobre uma moça que está acometida por uma hemorróida agressiva.

Percebendo minhas tentativas de correr em direção a outros assuntos, Anabela se volta para os demais que estão sentados à mesa e finalmente dispara:
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- Virgem Maria! Parece que esse Humberto é nervoso!

Humberto de Lima

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