" "

"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Povo preguiçoso, governo inconsequente

Era uma vez um povo muito pobre, vivendo em um lugar muito rico, governado por uma minoria muito rica. Certo dia, os líderes do lugar resolveram criar uma bolsa cujo objetivo seria ajudar pobres a sair da pobreza.
.
A princípio, a idéia pareceu muito boa; pois além de aparentar um caráter provisório (cessaria tão logo atingisse o objetivo) também exigia uma contrapartida: os pobres deveriam enviar e manter suas crianças na escola.

Foi uma festa! As escolas públicas logo se encheram de alunos, quem quase não comia passou a comer mais, nas bodegas e quitandas das favelas quem quase não vendia passou a vender mais; e, na boca do povo, quem quase sempre era xingado de ladrão ou visto como quem não se importava, passou a receber todos os louvores possíveis.

O tempo foi passando e a maioria dos descamisados, apesar de ir à escola, não ascendeu em termos de formação acadêmica e qualificação profissional. Além disso, a bolsa, antes vista como uma alavanca que os ajudaria a sair da situação em que se encontravam, passou a ser vista como um direito adquirido, vitalício e também hereditário.

Houve até quem quisesse consolidar o controvertido direito, codificando-o em um novo volume chamado CLS – Consolidação das Leis Sociais. Diante do fato, a enorme assembléia dos beneficiários se reuniu e decidiu, entre outras coisas, que:

1. Não há mais motivos para que se preocupem com o futuro, pois o futuro já chegou, com muita televisão pra assistir, alguma grana pra comprar comida e um trocado pra fazer aquela farrinha de fim de semana.

2. Fazer mais meninos é a grande sacada do momento; pois ajuda a aumentar o valor da bolsa recebida.

Enquanto isso, pergunto eu:

1. Por que a exigência de freqüentar a escola não ultrapassou o simples controle de freqüência? Ao que me parece, o aumento do número de alunos matriculados serviu apenas para atrair mais verba para escolas públicas cujos administradores deveriam ser eleitos democraticamente, mas são nomeados por critérios políticos. Por que a chegada de mais dinheiro não resultou em melhor qualidade do ensino público?

2. Por que insistiram em manter esse negócio de auxilio maternidade?

3. É claro que os defensores da idéia terão mais pobres, isto é, mais eleitores para neles votar daqui a alguns anos. No futuro, estimulada pela bolsa pobreza, a população de beneficiários estará bem maior. Quem vai financiar isso tudo? As grandes fortunas dos que só vivem a especular ou a classe média que vive a pagar impostos, trabalhar e estudar?

Enquanto nos Estados Unidos, Canadá e em outros países de primeiro mundo a grande maioria dos cidadãos detesta depender do governo, deste lado de cá do mapa, o povo preguiçoso e o governo inconseqüente prosseguem fazendo festa por causa das bolsas...

Humberto de Lima

sábado, 14 de novembro de 2009

Questão de preguiça


Enfadado, tento tirar um cochilo; mas as luzes acesas, o balanço provocado pela buraqueira e o barulho da turma já combinaram que não vão me deixar dormir.

Em meio ao burburinho, procuro identificar que tipo de música o motorista botou pra tocar hoje; o cara é eclético. Por falar em eclético, percebo que além do ronco do motor, vários sons se misturam dentro do veículo: tem celular, celular com TV, mp3, mp4, mp10, mptudo...

Apoio a cabeça no encosto, fecho os olhos e procuro não pensar em nada; apenas quero me deixar levar despreocupadamente, caminho afora.

De repente eles conseguem me tirar do modo de espera e logo tenho minha atenção despertada para um ruidoso papo que rola em todos os bancos ao meu redor. Estão falando do vestibular!

A princípio, escuto a discussão de duas meninas sobre uma das questões resolvidas nesta manhã. Elas conseguem lembrar detalhes da pergunta e até concordam que a resposta certa estava na alternativa b; o problema é que uma garante que a questão estava na prova de Física enquanto a outra afirma com toda a certeza do mundo que o enunciado estava na prova de Matemática.

Há entre eles, aqueles que preferem não conferir gabarito nem comentar nada; pois, acreditam que calar talvez seja uma forma de atrair surpresas boas no final.

Depois, alguém começa a falar sobre as questões abertas; é quando surge um conselho até então inédito para os meus ouvidos:

- O professor disse que nunca devemos deixar questões abertas em branco. Você deve colocar o que quiser, pode até mesmo escrever que está morto de fome e louco pra comer um cachorro quente com coca cola. Eles sempre vão considerar alguma coisa!

Em seguida, ouço outro diálogo que vem lá de trás:

- E tu, Fulana? Gostaste da prova?

- Amei, mas estou com medo.

Em minha cabeça, busco conciliar as duas idéias, completamente antagônicas: Ter medo apesar de ter gostado tanto. Talvez a frase se encaixasse melhor em situações de namoro e sexo; porém em provas, penso que você gosta e sai confiante ou você não gosta e sai inseguro.

Daqui a pouco, uma voz se destaca em meio às demais, trazendo a pérola do dia:

- Eu já fiz vestibular três vezes e estou consciente que se não passar dessa vez, é porque ainda não chegou a minha hora.

Chega a minha hora, isto é, minha hora de descer do carro. Então, deixo para trás aquele bando de rapazes e moças, alunos de boas escolas, filhos de bons pais e muito inteligentes. Já os conheço e tenho certeza de que não são nada burros; apenas gostam de curtir o ócio.


Humberto de Lima

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carta ao ladrão


Hoje eu paguei a primeira parcela do celular que comprei para mim e foi roubado por você há alguns dias. Foi constrangedor ver você e seu comparsa tomando nossas coisas mediante grave ameaça. Felizmente nenhum de meus amigos reagiu de forma precipitada e você não precisou acionar o seu gatilho covarde.

Assim que você desapareceu na esquina, entramos em algum lugar da mesma rua, ligamos para a polícia e descrevemos você e seu sócio-bandido. A viatura só passou por lá uns vinte minutos depois. Que pena não ter visto você algemado no noticiário do outro dia!

Lembrei que você poderia usar meu telefone para fazer mais maldades e liguei para a operadora, solicitando o bloqueio imediato do chip. Depois veio aquela trabalheira de recuperar todos os contatos perdidos e avisar para os meus conhecidos sobre o novo número que agora uso em outro aparelho que me foi presenteado por uma pessoa amiga.

Pelo que pude perceber, você já não é um iniciante no mundo do crime; pois apesar da forma violenta e arrogante com que nos abordou, não aparentou nenhum nevorsismo. Talvez já esteja acostumado a fazer isso; e, é aí que começam os seus problemas!

Com idade entre vinte e vinte e cinco anos, você está ganhando dinheiro fácil; e isto vai viciar você ainda mais neste negócio. Provavelmente você nunca mais sentirá interesse por qualquer atividade que exija estudo, trabalho árduo e honesto; afinal de contas, você acredita ter encontrado a chave para o seu futuro.

E por falar em futuro, nem preciso invocar dotes proféticos para antever as inúmeras opções que lhe aguardam. Vejamos algumas:

1. Você poderá ser preso.

2. Você poderá ser gravemente ferido em uma de suas ações ilícitas e ficar paralítico para o resto da vida. Neste caso, quero lhe avisar que a Previdência Social não dá nenhum auxílio nem garante aposentadoria para assaltantes tirados de circulação por invalidez.

3. Você poderá ser morto a qualquer momento pelo seu colega. Será que esse cara com quem você anda merece mesmo sua inteira confiança?

4. Você também corre o risco de ser derrubado pelo fogo estatal e terminar sua carreira em uma pedra fria de necrotério.

Fico imaginando suas risadas caso você pudesse ler essa carta; pois você sabe que nesse país cheio de balas perdidas, eu e você corremos os mesmos riscos. Isto me leva a pensar no maior de todos os seus problemas...

Ladrão, eu creio na existência de um lugar preparado para os que optaram pelo estreito caminho do bem; e, também prego a existência de um outro lugar preparado para os que escolheram andar pela larga e espaçosa estrada do mal.

Saiba que se morrermos agora e nada do que eu ensino for verdade, nós dois estaremos numa boa. Mas, se for verdade que céu e inferno existem, eu estarei numa boa e você se dará mal, muito mal. Pense nisto e mude de vida!

Humberto de Lima

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fora da rede!



Sempre fui resistente à tentação de ocupar espaço no orkut, facebook, sonico etc.

Recentemente, precisei localizar alguém cujo endereço eu havia perdido há algum tempo; e, acabei descobrindo que a pessoa poderia ser encontrada em uma dessas redes sociais cibernéticas. Imediatamente entrei no site, preenchi o formulário, abri uma conta e consegui recuperar o contato!

A principio, até gostei da novidade; mas depois acabei voltando atrás pelas razões seguintes:

Primeiro, lembrei que a maioria dos meus muitos contatos e também a maioria dos meus poucos amigos já estavam adicionados em minha relação de endereços eletrônicos. Neste caso, já tínhamos nosso canal de comunicação, sem que houvesse a necessidade de navegar por outros caminhos.

Depois, comecei a receber centenas de avisos do tipo: Fulana tem uma nova foto, Sicrano deu um abraço de urso em Beltrano, Elesinho está com medo, Elasinha agora tem uma amizade com o cara, há uma vaca azul na fazenda do Tontom...

Meu contado tempo como chefe de família, pastor, estudante, escritor e jogger, começou a ficar ainda mais apertado quando comecei a dar atenção às novidades que não paravam de surgir a todo instante. Consigo até imaginar porque muita gente anda se dando mal nas provas escolares, ou tendo desempenho medíocre no ambiente de trabalho...

Outra coisa que me surpreendeu foi o fato de ter sido adicionado por gente que não gosta de mim. Como não sou milionário nem celebridade, fico me perguntando qual terá sido o propósito deles...

Finalmente, depois de uns dois ou três dias, cercado pelas muitas atividades de fim de ano, resolvi dar um tempo fora da rede, sem saber quando volto.

Mas isto não significa dizer que estou me isolando do mundo. Ainda contamos com os e-mails e  temos a crônica nossa de cada domingo, aqui no HumbertodeLima.com.

Recebam meu abraço,

Humberto de Lima

Mais lidas na semana