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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre o Sermão da Sexagésima


É Março de 1652 e eu estou na capela real em Lisboa. Na pressa, esqueci de programar minha máquina do tempo para que eu chegasse aqui munido de roupas próprias da época e do lugar. Agora é tarde; minha calça jeans, o par de tênis, a camiseta branca e a mochila chamam a atenção de todos por onde quer que eu passe! Por isso, resolvi ficar bem atrás, onde não possa ser percebido. Do altar principal é anunciado o momento da homilia. Todos se voltam em direção ao púlpito suspenso em uma das paredes. Trajando um hábito escuro, aparece o padre Antonio Vieira. Não há microfones; mas a boa acústica do lugar, somada à reverência do povo, torna possível ouvir qualquer espirro em qualquer ponto da igreja lotada.

- Semen est verbum Dei! – Assim começa ele o sermão, baseado na parábola do semeador, contida no Evangelho de Lucas, capítulo 8. Apesar das citações bíblicas em Latim, é em Português que ele prega o tempo todo. E eu, apesar do sotaque e da entonação com que fala o jesuíta, consigo entender tudo.

Na nave do templo, os fiéis permanecem atentos, como se estivessem bebendo avidamente cada palavra, cada silaba. Na parte reservada às autoridades e aos clérigos, percebo algumas caras um tanto descontentes; mas, apesar delas, o orador prossegue, parte por parte, até ao décimo e último ponto de sua mensagem.

Ao final, o povo é despedido e eu começo a andar em sentido contrário ao da multidão. Não tenho tempo a perder; mais alguns minutos e tenho que partir de volta para o século vinte e um. Depois de procurá-lo por alguns instantes, acabo encontrando-o em um aposento mais reservado, cercado por um pequeno grupo. Com minha frase de abordagem já devidamente ensaiada, me aproximo sorrindo e vou logo dizendo:

- Meu nome é Humberto. Acabo de chegar do Brasil para entrevistar o senhor!

- Hum! Espero que tragas boas noticias de longe. Elas sempre fazem bem quando não temos boas noticias por perto!

As pessoas em redor olham para mim. Entre uma risadinha e outra, ouço algumas senhoras da corte sussurrando aos ouvidos das amigas. Acho que todos gostaram do meu jeito; me acharam engraçado, diferente. Depois de uma breve prosa bem humorada, o padre diz que eu sou um sujeito bastante espirituoso e pede licença a todos porque necessita dar uma entrevista a este pregador do futuro. E aqui vai a conversa, em sua integra:

HL – No sermão, o senhor disse que nunca na igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Isso não é bom?
Pe. Vieira – Deveria ser bom, mas não o é, infelizmente. As pessoas ouvem muito como se não estivessem ouvindo nada; voltam pra casa do mesmo jeito, sem mudança de vida. Como eu disse, é como semear muitas sementes e não colher nada.

HL – O povo não tem sua parcela de culpa nisso tudo?
Pe. Vieira – Quando cheguei, percebi que você já estava aqui desde o início; e, portanto, você deve concordar comigo que Deus não tem nenhuma culpa nessa estória. É claro que o povo também peca quando não dá a devida atenção à Palavra; porém, os maiores culpados agora em meu tempo são os pregadores. Não sei como andam as coisas em seu Brasil do futuro (risos).

HL – O que falta nas pregações de hoje?
Pe. Vieira – Primeiro, está faltando clareza. Fico zangado quando vejo os colegas tentando falar sobre quarenta assuntos diferentes em quarenta minutos. Acabam misturando tudo, confundem a cabeça do povo e no final ninguém lembra de nada. Além disso, tem a questão da linguagem; falam de um jeito rebuscado que o povo não entende.

HL – Algumas pessoas ficaram chocadas com aquela frase em que o senhor disse que pregadores de Deus às vezes pregam as palavras do demônio.
Pe. Vieira – Sim! Isso acontece quando trechos das Escrituras são citados fora do contexto e acabam virando pretexto para apoiar idéias e interesses puramente humanos e muitas vezes pecaminosos.

HL – O senhor também fala sobre aqueles que se limitam a repetir o que dizem os outros...
Pe. Vieira – Não há nada errado em fazer citações, dando os créditos a quem de direito. O problema está nesta mania de sempre repetir quem está na moda, embora estar na moda nem sempre seja útil e coerente. Este tipo de mensagem é típico de quem tem preguiça de ler, pensar e pesquisar. É bem melhor produzir arduamente o material que prego ao invés de ficar repetindo certas coisas somente porque Fulano ou Beltrano as disse.

HL – Se estes detalhes forem corrigidos, voltaremos a ter bons pregadores e boas pregações?
Pe. Vieira – Ainda não! Falta rever o estilo de vida de quem sobe ao púlpito. Ter nome de pregador ou ser pregador de nome não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo. Em minha opinião, o melhor conceito que um pregador leva ao púlpito é o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

HL – Esse seu posicionamento tem lhe custado muita inimizade, dentro e fora da Igreja...
 Pe. Vieira – É verdade. Muita gente tem desejado minha cabeça, tanto no Brasil como também aqui em Portugal. É por isso que em minha biografia você vai me ver enfrentando perseguições, prisões e julgamentos impostos pela Inquisição.
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HL – Percebo no senhor algumas tendências reformadoras, como em Lutero e Calvino...
Pe. Vieira – Não me confunda com os protestantes! Acho que você deveria ler também o meu sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. Lá você saberá o que penso sobre eles!
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Aparentemente cansado, o padre se levanta e diz que precisa ir pra casa. Nesse instante, o bip vibra em meu bolso, avisando que eu também devo retornar. Agradeço pela atenção, despeço-me e atravesso a capela agora vazia em direção à porta principal. Em seguida, para não causar espantos, procuro a mesma rua deserta onde anteriormente apareci; e de lá, com apenas um clique, saio do portal da ficção e entro outra vez na realidade do meu escritório.

Deixando de lado a hostilidade de Vieira em relação ao Protestantismo, devemos reconhecer que o seu Sermão da Sexagésima é muito mais que uma bela peça literária; é um atualíssimo chamado à reflexão. Por isso, recomendo que o mesmo seja lido por todos nós, pregadores destes tempos pós-modernos.

Humberto de Lima.

2 comentários:

Alice disse...

LIdo. e quem sabe sempre relido !

agora...já que viajas no tempo que tal viajares a Ubatuba? pago a cerveja a beira-mar !!


abraçosss

Humberto de Lima disse...

Olá Alice!

Obrigado pelo convite. Quando puder, irei mesmo a Ubatuba... Tenho vontade de conhecer você e o Tatá pessoalmente...
Vocês também são bem vindos aqui na Paraiba!
Abraço,

Humberto.

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