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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Metamorfose

Depois dos quarenta, percebo que nem tudo o que ficou para trás foi ruim. Além dos erros, perdas e danos, trago comigo muitas lembranças boas às quais gosto de voltar; dentro delas o meu pensamento navega e sobre elas escrevo de vez em quando.

O amanhã com o qual eu não me importava na infância e para o qual eu olhava com um olhar carregado de romantismo em meus tempos de adolescente ainda continua diante de mim, visto agora de um ângulo totalmente novo. Vou chegar lá, mas já não tenho pressa.

Costumo, nas noites de sexta-feira, depois da semana carregada de trabalho e estudos, me presentear com as pipocas compradas do carrinho do Seu Zé. Uma vez embarcado, não as como aos punhados; faço o saquinho de pipocas render e as pego, uma a uma, durante os trinta quilômetros da estrada. Assim encaro o meu hoje; como algo que deve ser saboreado com o mesmo prazer com que vou degustando as pipocas enquanto o ônibus anda e salta pelos velhos buracos da PB 100.
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Embora sem fugir dos inevitáveis confrontos do cotidiano, prefiro ajustar o foco e dar atenção a algumas coisas que outrora me pareciam sempre adiáveis.

Quero gastar mais tempo com amigos, ainda que não sejam tantos.

Quero me concentrar no prazer que vem de abraços, olhares e sorrisos carregados de espontaneidade, num escambo em que ninguém perde nada.

Quero continuar esculpindo idéias e gastar mais tempo com música e poesia.

Quero andar pelo mato e apreciar os detalhes de cada planta e de cada bicho.

Bela é a lagarta, bela é a borboleta e bela é a metamorfose que acontece entre uma e outra. Assim vejo a vida!

Humberto de Lima

sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre o Sermão da Sexagésima


É Março de 1652 e eu estou na capela real em Lisboa. Na pressa, esqueci de programar minha máquina do tempo para que eu chegasse aqui munido de roupas próprias da época e do lugar. Agora é tarde; minha calça jeans, o par de tênis, a camiseta branca e a mochila chamam a atenção de todos por onde quer que eu passe! Por isso, resolvi ficar bem atrás, onde não possa ser percebido. Do altar principal é anunciado o momento da homilia. Todos se voltam em direção ao púlpito suspenso em uma das paredes. Trajando um hábito escuro, aparece o padre Antonio Vieira. Não há microfones; mas a boa acústica do lugar, somada à reverência do povo, torna possível ouvir qualquer espirro em qualquer ponto da igreja lotada.

- Semen est verbum Dei! – Assim começa ele o sermão, baseado na parábola do semeador, contida no Evangelho de Lucas, capítulo 8. Apesar das citações bíblicas em Latim, é em Português que ele prega o tempo todo. E eu, apesar do sotaque e da entonação com que fala o jesuíta, consigo entender tudo.

Na nave do templo, os fiéis permanecem atentos, como se estivessem bebendo avidamente cada palavra, cada silaba. Na parte reservada às autoridades e aos clérigos, percebo algumas caras um tanto descontentes; mas, apesar delas, o orador prossegue, parte por parte, até ao décimo e último ponto de sua mensagem.

Ao final, o povo é despedido e eu começo a andar em sentido contrário ao da multidão. Não tenho tempo a perder; mais alguns minutos e tenho que partir de volta para o século vinte e um. Depois de procurá-lo por alguns instantes, acabo encontrando-o em um aposento mais reservado, cercado por um pequeno grupo. Com minha frase de abordagem já devidamente ensaiada, me aproximo sorrindo e vou logo dizendo:

- Meu nome é Humberto. Acabo de chegar do Brasil para entrevistar o senhor!

- Hum! Espero que tragas boas noticias de longe. Elas sempre fazem bem quando não temos boas noticias por perto!

As pessoas em redor olham para mim. Entre uma risadinha e outra, ouço algumas senhoras da corte sussurrando aos ouvidos das amigas. Acho que todos gostaram do meu jeito; me acharam engraçado, diferente. Depois de uma breve prosa bem humorada, o padre diz que eu sou um sujeito bastante espirituoso e pede licença a todos porque necessita dar uma entrevista a este pregador do futuro. E aqui vai a conversa, em sua integra:

HL – No sermão, o senhor disse que nunca na igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Isso não é bom?
Pe. Vieira – Deveria ser bom, mas não o é, infelizmente. As pessoas ouvem muito como se não estivessem ouvindo nada; voltam pra casa do mesmo jeito, sem mudança de vida. Como eu disse, é como semear muitas sementes e não colher nada.

HL – O povo não tem sua parcela de culpa nisso tudo?
Pe. Vieira – Quando cheguei, percebi que você já estava aqui desde o início; e, portanto, você deve concordar comigo que Deus não tem nenhuma culpa nessa estória. É claro que o povo também peca quando não dá a devida atenção à Palavra; porém, os maiores culpados agora em meu tempo são os pregadores. Não sei como andam as coisas em seu Brasil do futuro (risos).

HL – O que falta nas pregações de hoje?
Pe. Vieira – Primeiro, está faltando clareza. Fico zangado quando vejo os colegas tentando falar sobre quarenta assuntos diferentes em quarenta minutos. Acabam misturando tudo, confundem a cabeça do povo e no final ninguém lembra de nada. Além disso, tem a questão da linguagem; falam de um jeito rebuscado que o povo não entende.

HL – Algumas pessoas ficaram chocadas com aquela frase em que o senhor disse que pregadores de Deus às vezes pregam as palavras do demônio.
Pe. Vieira – Sim! Isso acontece quando trechos das Escrituras são citados fora do contexto e acabam virando pretexto para apoiar idéias e interesses puramente humanos e muitas vezes pecaminosos.

HL – O senhor também fala sobre aqueles que se limitam a repetir o que dizem os outros...
Pe. Vieira – Não há nada errado em fazer citações, dando os créditos a quem de direito. O problema está nesta mania de sempre repetir quem está na moda, embora estar na moda nem sempre seja útil e coerente. Este tipo de mensagem é típico de quem tem preguiça de ler, pensar e pesquisar. É bem melhor produzir arduamente o material que prego ao invés de ficar repetindo certas coisas somente porque Fulano ou Beltrano as disse.

HL – Se estes detalhes forem corrigidos, voltaremos a ter bons pregadores e boas pregações?
Pe. Vieira – Ainda não! Falta rever o estilo de vida de quem sobe ao púlpito. Ter nome de pregador ou ser pregador de nome não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo. Em minha opinião, o melhor conceito que um pregador leva ao púlpito é o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

HL – Esse seu posicionamento tem lhe custado muita inimizade, dentro e fora da Igreja...
 Pe. Vieira – É verdade. Muita gente tem desejado minha cabeça, tanto no Brasil como também aqui em Portugal. É por isso que em minha biografia você vai me ver enfrentando perseguições, prisões e julgamentos impostos pela Inquisição.
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HL – Percebo no senhor algumas tendências reformadoras, como em Lutero e Calvino...
Pe. Vieira – Não me confunda com os protestantes! Acho que você deveria ler também o meu sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. Lá você saberá o que penso sobre eles!
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Aparentemente cansado, o padre se levanta e diz que precisa ir pra casa. Nesse instante, o bip vibra em meu bolso, avisando que eu também devo retornar. Agradeço pela atenção, despeço-me e atravesso a capela agora vazia em direção à porta principal. Em seguida, para não causar espantos, procuro a mesma rua deserta onde anteriormente apareci; e de lá, com apenas um clique, saio do portal da ficção e entro outra vez na realidade do meu escritório.

Deixando de lado a hostilidade de Vieira em relação ao Protestantismo, devemos reconhecer que o seu Sermão da Sexagésima é muito mais que uma bela peça literária; é um atualíssimo chamado à reflexão. Por isso, recomendo que o mesmo seja lido por todos nós, pregadores destes tempos pós-modernos.

Humberto de Lima.

sábado, 10 de outubro de 2009

Perfil




Sou o que sou,
Sou o que fui,
Sou o que não sou,
Sou o que espero ser.

Corro, me arrasto,
Enterro-me, vôo.
Limpo, sujo, limpo outra vez;
Aprendendo a desistir do desistir de mim mesmo.

Sou saudade,
Sou presença,
Sou desilusão,
Sou desejo.

Lembro, esqueço,
Parto, fico.
Cheio, vazio, cheio de novo;
Até que termine o meu nado no outro lado do mar.

Humberto de Lima.

sábado, 3 de outubro de 2009

A corrente


Visto com bons olhos pelo resto do mundo, escolhido como anfitrião da copa do mundo e dos jogos olímpicos, forte candidato a uma vaga no conselho de segurança da ONU, exemplo de democracia para nuestros hermanos, somos um país emergente!

De fato, olhando pelo espelho retrovisor da História, podemos ver o quanto já avançamos em direção ao melhor. Basta lembrar que em outras épocas éramos colônia, o povo não tinha liberdade de praticar outra religião além daquela que lhe fora imposta como oficial, nossas mulheres eram impedidas de votar, experimentamos golpes de estado, estivemos sob regime ditatorial, sentimos em nossas bocas o gosto amargo da censura, fomos devedores do FMI e também convivemos com o stress da inflação.

Por esses e por outros motivos, simplesmente não consigo me juntar àqueles que somente reclamam; pois reconheço, apesar das razões que ainda tenho para reclamar, que também existe muita coisa boa para comemorar.

Lentamente, saímos do passado e agora caminhamos no presente, ansiosos por um futuro que ainda está bem distante. Refiro-me aqui a um futuro não cronológico, dentro do qual a maior novidade não será o fato de estarmos mais velhos; falo de um tempo em que estaremos livres de mazelas sociais incompatíveis com uma nação cuja economia está agora entre as dez maiores do mundo!

Porque estamos em movimento, seria injusto sermos acusados de inércia; lentidão é o nosso problema. Somos lentos em passar para o povo informações que fazem diferença, somos vagarosos em transmitir aos nossos filhos conhecimentos transformadores.

Como resultado dessa lentidão, temos ao nosso redor milhões de cidadãos que ainda não conhecem a Constituição Federal promulgada há mais de vinte anos. Tais cidadãos, por ignorar o conteúdo da Carta Magna, seguem vivendo como agentes passivos e meros expectadores de uma sociedade que eles mesmos poderiam mudar.

Pensando nisto, sugiro que seja incluído na grade curricular do Ensino Fundamental, o estudo dos primeiros onze artigos do texto constitucional. Sugiro também, que o mesmo conteúdo seja revisado pelos alunos do Ensino Médio!

Lá, nossos estudantes aprenderão que todo poder emana do povo, que todos são iguais perante a lei, que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Mais que isto, eles saberão desde cedo que existem garantias fundamentais e direitos sociais pelos quais devem lutar.

Dessa forma, aguçando o senso crítico de toda uma geração de crianças e adolescentes, estaremos programando bombas do bem, que explodirão dentro de poucos anos, nos mais diferentes setores da sociedade, na forma de cidadãos mais éticos e mais exigentes.

Como uma corrente, proponho que esta idéia seja passada para o maior número possível de pessoas; e, espero que pais, professores, pastores, padres e rabinos desse país, promovam a reflexão sobre o tema em seus lares, escolas e paróquias.

Sim, nós podemos ensinar o abc da cidadania aos nossos pequenos, incluí-lo passo a passo em suas cartilhas, tornar o assunto leitura exigida para o vestibular e fazer do Direito Constitucional disciplina obrigatória em todos os cursos superiores.

Aos legisladores de plantão, apelo para que transformem essa idéia em norma positivada. E finalmente, ao povo brasileiro, lanço o desafio para que faça a devida pressão, caso essa sugestão seja ignorada por aqueles que podem e devem incluí-la em nosso ordenamento jurídico.

Humberto de Lima

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