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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

sábado, 26 de setembro de 2009

Sobre Cantares, amor e sexo


”Como são lindos os seus pés calçados com sandálias, ó filha do príncipe!
As curvas das suas coxas são como jóias, obra das mãos de um artífice.
Seu umbigo é uma taça redonda onde nunca falta o vinho de boa mistura.
Sua cintura é um monte de trigo cercado de lírios.
...
Como você é linda! Como você me agrada! Oh, o amor e suas delícias!
Seu porte é como o da palmeira, e os seus seios como cachos de frutos.
Eu disse: Subirei à palmeira e me apossarei dos seus frutos.
Sejam os seus seios como os cachos da videira, o aroma da sua respiração como maçãs e a sua boca como o melhor vinho...”. Cantares 7:1,2,6-9.

 
Objeto de polêmica ao longo dos séculos, o livro de Cantares, quando não esquecido, tem sido lido com as lentes alegóricas dos rabinos e teólogos medievais, cujas interpretações continuam influenciando a maioria dos leitores em nossos dias.

Entretanto, uma leitura mais desarmada, facilmente nos leva a entender que o livro não sugere qualquer semelhança entre a jovem desejada da narrativa poética e a nação hebréia. Pelo contrário, no livro do profeta Oséias e em outras muitas passagens do Antigo Testamento, o povo hebreu é comparado a uma esposa adúltera, que trai o tempo todo, apesar de ter Jeová como um marido que persiste em oferecer possibilidades de reconciliação.

É igualmente descabida a idéia, ainda aceita por grande parte dos doutrinadores, de que o livro se refere ao amor de Cristo por sua igreja. Na verdade, a Bíblia compara Cristo e seus seguidores a um casal de noivos, cujo grande encontro, predito para algum lugar do futuro, é também comparado a uma cerimônia de casamento (¹). A relação vista em Cantares, ao contrário disto, não resulta em casamento, não tem duração significativa nem aparece posteriormente nas crônicas daquele período.

Qual terá sido a razão do insucesso de Salomão? Terá sido ele exigente demais em relação ao sexo oposto? Terá sido ele uma pessoa de difícil convivência na vida privada? Ou terá sua posição de homem mais rico do mundo dificultado a possibilidade de viver um relacionamento espontâneo, sem a influência dos interesses políticos e desconfianças da corte?

Trechos do livro de Eclesiastes revelam um Salomão que apesar de ter tido muitas mulheres, em sua velhice confessa não ter encontrado aquela. Já em outros pontos do mesmo livro, apesar de estar sempre cercado por muita gente, ele deixa transparecer certa solidão; e, sugere para os seus súditos que o fruto de tanto trabalho feito debaixo do sol só teria valido a pena se pudesse ser desfrutado junto com uma mulher amada (²).

Embora os estudiosos não sejam unânimes quanto à possibilidade da autoria salomônica de Cantares, tem razão LaSor, quando reconhece que o ambiente e o tom da obra, refletem com precisão a época e a glória do grande rei (³). E é navegando pela biografia do sábio monarca e explorando a intertextualidade em torno dela, que descobrimos duas possibilidades para o Cântico dos Cânticos:

1. Talvez o livro esteja mesmo falando sobre alguém por quem Salomão esteve apaixonado, sem um final feliz;
2. Talvez seja a narrativa, por ele mesmo escrita, uma descrição de como ele idealizava o amor; ou, provavelmente, uma forma de compensar seus fracassos nesta área da vida.

Finalmente, não posso abandonar o tema sem antes tecer algumas considerações sobre a razão de ser e a importância deste livro. Julgado dispensável pelos mais puritanos, Cantares tem uma mensagem a transmitir. Com ele, aprendemos, entre muitas outras coisas, que:

O dinheiro e as relações de poder podem trazer acompanhantes (Salomão tinha um harém) mas não garantem  a satisfação que somente se encontra no amor;

Além disso, é perfeitamente permitido falar e poetizar sobre o lado erótico do ser, sem entretanto, descer às raias do pornográfico nem ser excomungado pelo Divino.
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Finalmente, Cantares nos leva a refletir sobre os conflitos, os prazeres e a beleza que só podem ser observados numa relação homem-mulher.

(¹) . Efésios 5:25-27; Apocalipse 22:17.
(²) . Eclesiastes 2:8; 7:28; 9:9.
(³) . LaSor, Willian - Introdução ao Antigo Testamento, Editora Vida Nova, p. 558.
Humberto de Lima

sábado, 19 de setembro de 2009

A chegada do doutor

Lembro como se tivesse acontecido hoje. Eu estava jogando bola de gude quando avisaram que o doutor iria chegar à ilha; foi um frenesi! Mulheres se agitaram, os homens fizeram uma roda para conversar sobre o assunto e as crianças logo se encarregaram de divulgar o lugar onde o homem atenderia ao povo.
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Curioso, eu também queria ir lá para ver que novidade era aquela. À noite, acompanhei alguns adultos  e, na hora marcada, cheguei ao local da reunião. A dona da casa, com ares de gente importante, controlava a entrada das pessoas.
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- Menino fica brincando do lado de fora! Me entreguem o tito! Preciso ver o tito de eleitor!
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Sem entender o que estava acontecendo, fiquei mais curioso e dei um jeito de ir logo entrando. Passei pelo terraço apinhado de gente e fui parar numa sala que tinha mais gente ainda. Em cima de uma mesa grande, ví vários cortes de tecido, sobre os quais as mulheres iam colocando cartões cor de terra, que mais tarde descobri ser o tal tito cobrado lá na porta. Sentado, ao lado da mesa, estava um sujeito alto, cabelo com brilhantina e paletó azul marinho.

Lá pras tantas, a anfitriã apresentou o homem, disse que ele iria falar e o povo foi logo aplaudindo. Fiquei ali quietinho, vendo tudo num canto de parede.
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O individuo levantou-se, desejou boa noite e começou sua fala. Observei que de pé, ele ficava três vezes maior. E foi falando, falando, falando...
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Explicou que para ganhar um corte de fazenda, o dono de cada título deveria votar nele e colar um retrato dele em casa, na parede da frente. A maioria dos presentes acenou afirmativamente.
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- Dotô! Exclamou uma senhora, levantando a mão.
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- Eu preciso cobrir minha casinha de palha mas num tenho dinheiro pra comprar as telhas...
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Houve um burburinho geral, várias pessoas tentaram falar ao mesmo tempo, mas o cara não perdeu o controle da situação. Com um aceno seguido de fala mansa, ele retomou a palavra, dizendo que esse tipo de pedido seria anotado no caderno para ser atendido logo depois da eleição.
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Findo o discurso, um a um, os documentos foram devolvidos ao povo, juntamente com as peças de pano, seguidos de palmas, como numa cerimônia de entrega de certificados; e, uma mulher magra começou a anotar os pedidos do pessoal.
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- Peçam como quem pede a Deus! - Falou um bêbado que estava sentado no chão por falta de cadeira suficiente.
.Saí de fininho e fui para a cozinha, onde o doutor, agora sem paletó, estava jantando com os seus acompanhantes, noutra mesa que de tudo tinha. Confesso que senti água na boca ao ver o camarão e aquele caranguejo ao molho de coco, mas voltei pra casa sem participar daquela comilança e sem ganhar corte de pano.
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No dia seguinte, perguntei aos vizinhos qual era o trabalho daquele doutor, mas eles não souberam me dizer ao certo. O fato é que depois disso nunca mais o ví de novo.
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Só depois que eu cresci, pude entender que naquela noite, pela primeira vez, eu havia sido apresentado a um novo mundo, até então desconhecido e cheio de safadezas.
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Humberto de Lima

domingo, 13 de setembro de 2009

É tempo de ser cachorro


Um dia desses, depois de alguns anos, encontrei uma ex-colega de faculdade a quem fui logo perguntando:
- Como está o Andrônico?
- Não sei. Não estou mais com ele.
- Vocês namoraram tanto tempo...
- Mas descobri que ele é um cachorrão!
 
Nem pedi que ela me contasse detalhes do ocorrido; fiz algumas conexões com lembranças do passado e deduzi o que aconteceu a partir da descrição que ela fez do cara – cachorrão. Depois que ela foi embora, comecei a pensar: - Por que que chamar de cachorro um ex-noivo interesseiro, mentiroso e canalha? Não, os caninos não merecem tal comparação!
 
É igualmente injusto quando os norte-americanos, querendo xingar alguém, chamam a pessoa de "son of a bitch". Mesmo no cio, nenhuma cadela se assemelha a uma mulher vadia; pois na realidade, a cadela não fica com todos aqueles cães que a seguem durante dias. Trata-se de um processo seletivo em que pouco a pouco, pretendentes vão sendo eliminados; e, no final somente um terá acesso à relação de acasalamento.
 
Também não gosto quando os brasileiros, querendo se referir a um mau sujeito, dizem que ele é um filho do cão ou está com o cão no couro. Não vejo nos cães maldade nem malícia suficientes para compará-los ao capeta.
 
Com raras exceções de comportamentos agressivos que são na maioria das vezes instigados pelo bicho homem, a grande maioria desses animais vive produzindo manchetes boas, como estas:
· Cão salva dono de afogamento.
· Cão livra dona de morte.
· Cachorro salva gatinhos na Austrália.
· Cadela protege bebê abandonado pela mãe.
 
No filme Marley & Eu, baseado em livro homônimo, o autor narra o cotidiano de um casal que traz para dentro de casa um cachorro trapalhão. Apesar de toda a bagunça que provoca, Marley se torna querido de toda a família; e, sai da estória inspirando John Grogan a dizer:
 
“Um cachorro não precisa de carrões, de grandes casas nem de roupas de marca. Símbolos de status nada significam para ele. Um graveto já está ótimo. Um cachorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Um cachorro não julga os outros por sua cor, credo ou classe social... Dê seu coração a ele e ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa. De quantas pessoas você pode falar isso? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial?”
 
Por isso, peço: Não usem mais a palavra cachorro como sinônimo de gente ruim. E, lembrando de meu amigo Dick, cachorro de Biu Vaqueiro, que vinha dormir todas as noites aqui na porta da Igreja Batista, em verdade, em verdade vos digo:
 
Aprendei com os cachorros e sereis melhores humanos!
 
Humberto de Lima

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

No Tech Day

 
Você não consegue passar um dia sem telefone, jogos eletrônicos, computador, mp3, 4, 10..., televisão e outros apetrechos? 
 
Você fica irritadíssimo toda vez que sua conexão de internet cai, ainda que as interrupções não sejam tão freqüentes?
 
Quando a caminho do trabalho, depois de ter dirigido 10 quilômetros, você volta para pegar o celular ou um dos celulares que deixou em casa?
 
Você é do tipo que sempre leva laptop pra cama? Em suas noites, você tem acumulado mais horas de vídeo game do que horas de sono?
 
Seu desempenho no trabalho diminuiu e seus equipamentos de última geração nada lhe acrescentaram em termos de tempo livre?
 
Você checa e-mails enquanto almoça?
 
Você acaba de bater seu próprio recorde de downloads; e, em contrapartida, não lembra quando teve sexo com seu homem ou mulher? Ele ou ela já está reclamando que você anda bastante ausente e literalmente muito down?
 
SEUS PROBLEMAS APENAS COMEÇARAM! Você está viciado em tecnologia!
 
Dentre outros, você corre o risco de:
  1. Ficar mais doente; pois doente você já aparenta estar;
  2. Perder disciplinas na universidade ou ser contemplado com a cerimônia de jubilação (tem cerimônia pra isso?);
  3. Perder o emprego; seu patrão não vai lhe agüentar por muito tempo;
  4. Enfrentar brigas domésticas, receber um pedido de divórcio ou ver acontecer coisa pior;
MAS NÃO SE DESESPERE! Há uma saída!
 
Sugiro que você experimente viver um no tech day. Um dia na semana, longe dessas coisinhas eletrônicas, vai lhe mostrar que é perfeitamente possível saber lidar com elas.
 
À principio, você talvez fique nervoso, inquieto, queira subir nas paredes, vendo que a televisão e o computador permanecem desligados... Talvez seja melhor ir à praia, ao sítio, ao parque; pois se ficar em casa ou inventar de ir ao escritório a provação será bem mais difícil.
 
Se resistir á tentação e conseguir se acalmar, redescobrirá prazeres há muito esquecidos ou sentirá outros nunca experimentados. Tomar banho de sol ou de chuva, ter momentos de oração, conversar com o pessoal de casa, ler um livro, brincar com as crianças, passear de bicicleta, dar uma volta com o cachorro, fazer um serviço no quintal, cuidar de uma planta, tirar uma soneca depois do almoço...
 
Se não conseguir, procure ajuda profissional imediatamente; e, depois que estiver curado, tome cuidado para não ir de um extremo ao outro.
 
- Volte a navegar; e, de vez em quando, pare aqui no meu blog.
 
Humberto de Lima

sábado, 5 de setembro de 2009

Cometa

Voltas sem que eu te chame,
Chegas sem avisar,
És longo o suficiente para que eu saiba que vieste,
E curto demais para que te faças entender.

Quando apareces, te vejo bem real,
Quando te vais, deixas rastro de ficção.
Melhor assim, não te espero de novo;
Mas se retornas, não me importo.

Tua órbita prossegue em torno de mim;
Não cansas de mim?
Já te batizei e te dei um nome:
És apenas sonho bom,
Recorrente...

Humberto de Lima.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quando a alma é brasileira


Certa vez, um taxista de Miami me disse que não entendia porque alguns colegas cubanos, mesmo depois de estabilizados na cidade, não paravam de falar em Cuba. Expliquei que aqueles cubanos, diferentemente de outros, ainda que venham a morrer velhos e abastados na terra do Tio Sam, conservarão suas almas cubanas, para sempre cubanas.
 
Aquela conversa me fez lembrar que eu também carrego um sentimento forte, espiritual, vitalício, pelo torrão que me serviu de berço.
 
Do outro lado do Atlântico, já vi olhos e ouvidos de compatriotas ficarem em estado de alerta toda vez que as mídias falam da terra natal. E a tristeza bate à porta deles  quando as notícias que daqui recebem não são lá tão boas. São brasileiros de alma brasileira! Lá e cá, eles podem ser encontrados em todos os lugares.
 
Mas, o que significa ter uma alma genuinamente brasileira?
 
A alma é brasileira quando se revolta, diante da fama mundialmente alcançada, de que somos a nação do jeitinho, do serviço público ineficiente, dos juros exorbitantes, da insuportável carga tributária, do voto de cabresto, do coronelismo perpétuo e do paternalismo político-partidário.
 
A alma é brasileira quando exige a realização plena de seus direitos e protesta contra a corrupção, fortemente arraigada no mundo dos negócios e também na vida privada!
 
A alma é brasileira quando ensina valores às crianças; e estas, mais atentas ao exemplo do que ao discurso, aprendem que colar na prova é desonesto, furar a fila é desrespeitoso e subtrair bem alheio é crime.
 
A alma é brasileira quando entende que nosso país não pode contar com cidadãos que existiram há dois séculos atrás; pois eles já se foram. De igual modo, não podem agora ser úteis aqueles que irão nascer daqui a duzentos anos; eles ainda não chegaram!
 
A alma é brasileira quando descobre que somente nós temos o potencial para fazer acontecer as mudanças das quais tanto precisamos para o nosso tempo.
 
A alma é brasileira quando tira da cabeça a idéia de que Deus também é brasileiro. Cremos em Deus mas não acreditamos que ele seja brasileiro, assim como também não é norte-americano, nem argentino, nem britânico etc.

Reconhecemos ser indispensável a benção do Altíssimo mas sabemos que ele não vai premiar nossa mediocridade nem vai assumir responsabilidades que são inteiramente nossas! Temos problemas sérios e crônicos que devem ser enfrentados não somente com oração mas também com muito trabalho, estudo, vergonha na cara, participação política, voto sério e muito suor.

Que nossas almas se convertam a Ele e ao Brasil!

 
Humberto de Lima

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