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"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Assim nasceu o meu país

Os ventos sopraram e as caravelas partiram em direção ao novo mundo, trazendo centenas de degredados, cujas penas tinham um propósito meramente punitivo: mantê-los distante da metrópole.
 
Para não ser injusto, convém informar que nem todos haviam cometido crimes como furto, roubo, estupro ou assassinato. Boa parte deles veio parar aqui por ter incomodado a Igreja, com a prática de costumes ou de alguma crença religiosa diferente daquela recomendada pelo "Santo Ofício". 
 
E os administradores da grande ilha, que depois se descobriu ser uma grande terra, a eles não ofereceram muitas alternativas: 1. Alguns conseguiram tocar a vida honestamente como pequenos agricultores, soldados, religiosos, funcionários públicos, mendigos etc; 2. Outros voltaram a delinqüir e morreram em consequência disso; 3. Outros ainda, demonstrando grande capacidade de conchavo com corruptos representantes de El Rei, deram continuidade às atividades ilícitas praticadas em Portugal. Seguindo a lógica darwiniana, sobreviveriam os mais fortes, ou, em alguns casos, os mais espertos.
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Embora alguns digam ter sido de Pero Vaz de Caminha a afirmação de que “aqui, em se plantando tudo dá”, os apadrinhados da Coroa tinham como lema a idéia de que aqui, em se tirando, tudo vale. 
 
Diferentemente dos pilgrims, fundadores das 13 colônias britânicas na América do Norte, não havia neles o propósito de ficar, nem de fazer daqui o novo lar onde cresceriam, estudariam e trabalhariam seus filhos e netos. A elite lusitana não queria deixar de ser lusitana. O sonho de consumo deles era formar os filhos em Coimbra e voltar mais ricos para Lisboa. Enquanto houvesse caça, pau-brasil, alguma pedra preciosa e possibilidade de mandar açúcar para a Europa, as sesmarias teriam razão de ser. Portanto, tudo aqui era provisório; e extrair, eles pensavam, era melhor do que investir.
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Tupiniquins, tamoios e tupinambás foram expulsos para o interior; afinal, uma reforma agrária devia ser feita e donatários precisavam tomar posse da área. Mais tarde, os silvícolas seriam escravizados, mas não por muito tempo; pois suas cabeças e sistemas imunológicos não agüentariam os maus tratos nem os novos vírus e bactérias trazidos pelos ibéricos.
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O tempo começou a mostrar que a grande terra era muito mais do que isso; era um continente! Porque ir embora, sem antes procurar por ouro nos sertões? Porque continuar caçando índios, se podiam importar escravos? Do outro lado do mar, africanos vendiam africanos; e os navios negreiros descarregavam a mercadoria em nossos portos. As senzalas eram depósitos de gente que acordava para trabalhar de graça ou apanhar, e que dormia, para no outro dia acordar e trabalhar de graça, ou apanhar de novo.
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Os clérigos também vieram. Mantidos pelos cofres públicos, eles trouxeram a “santa” inquisição, com a missão de matar judeus, protestantes e bruxas. Também disseram aos negros que não se rebelassem e aceitassem a escravidão como “vontade de Deus”. Leram a Bíblia em Latim, e conduziram cerimônias, igualmente em Latim. Ao povo, sem nada entender, restava acreditar que de Roma saía toda a verdade.
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Assim nasceu o meu país!
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Humberto de Lima

4 comentários:

Ermeson Santos disse...

Grande amigo,

Se os juristas irão dar aula hoje, eu não sei. Mas tenho certeza que você, como cronista, se sai muito bem. Você tem o dom da narrativa que flui! Já pensou em ser jornalista?

Maria Araújo Pereira disse...

Perfeitamente, Pastor!

Cleide Rodrigues de Lima disse...

Belíssimo texto Pastor! Excelente visão realista de nossa história! Tudo o que deveria ser contado nos livros didáticos apresentados a nossos filhos...

Auzilene Azevedo disse...

Com certeza pastor !

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