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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A receita de Zefa

Zefa mora distante meia hora do centro e tem uma criação de galinhas e ovos orgânicos, de onde ela e seu marido Zeca vão tirando o sustento de cada dia.

Sua manhã começa com uma hora tranqüila, isto é, alguns minutos tranqüilos de oração; depois vem o café, e, logo em seguida, ela dá inicio ao trabalho na chácara, onde além dos bichos, também cuida de uma horta e de um pomar. E quando fala de sua hora tranqüila, seus olhos brilham!

- Ah meu fi, é a primeira coisa que faço. Vou pro meu cantinho e fico ali, cuidando do meu relacionamento cum Nosso Sinhô...
- E tem mais: Cunverso assim mesmo, do meu jeito, por causa de que eu num sei falá difíci, mas conto tudo, falo tudinho cum meu Pai Eterno...

Zefa não gosta de injustiça. Conta-se que certa vez, os dois filhos do finado Totonho abandonaram o pai, venderam tudo o que tinham, pegaram o dinheiro e se danaram mundo afora. Ela reuniu os vizinhos, construíram um quartinho para o velho e cuidaram dele por alguns anos, até que ele morreu.

Muito vaidosa, costuma se enfeitar toda e sair de Fiat com o marido, para ir à igreja ou passear na cidade, como ela mesma diz. Gosta de assistir ao Globo Rural, é vidrada em dicas de saúde; e, três vezes por semana, com o intuito de melhorar a leitura, freqüenta um curso para jovens e adultos. Quem ouve sua risada estrondosa, logo percebe que ela é uma pessoa de bem com a vida!

- Mas num pense que sou perfeita! – Diz, cheia de prosa – Eu também tenho cá meus defeitos! O Zeca que o diga!

Zeca, deitado na rede do alpendre, solta um sorriso cúmplice e começa a afinar a viola; enquanto isso, os cheiros de café quente, macaxeira e carne de sol assada se misturam no ar e tomam conta do ambiente. Logo em seguida, os amigos começam a chegar, trazendo mais comida, e vão tomando assento em seus tamboretes ao redor da mesa. É sexta-feira de noite; crianças brincam no terreiro sob a luz de uma gambiarra e o barulho das mulheres enche a cozinha... Vai começar a janta, a conversa e a cantoria...

Enquanto observam a maestria com que Josefa pilota seu fogão a lenha, as vizinhas vão entendendo qual é a sua receita para viver bem: Olhar pra cima e amar a Deus, olhar ao redor e amar ao próximo, e, olhar para o espelho e também amar a si mesma!
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Esse jeito de ser me faz lembrar de algo parecido que li no Evangelho de São Mateus. Na realidade, a velha receita não foi inventada por Zefa; foi aprendida de Jesus. E, como diz o pessoal lá da roça, funciona e é uma beleza...


Humberto de Lima

4 comentários:

Jessyca disse...

Amei o texto Humberto, mostra com riqueza de detalhes a vida de uma mulher simples e cheia de virtudes.
Beijão!

Alice disse...

Humberto,


ler-te é uma delicia !!




bjkas

Talitta Dantas disse...

Belíssimo texto!
Chego a sentir paz lendo-o...

Deus o abençoe, pastor!

Francinaldo Nascimento disse...

Texto excelente Reverendo,dar pra relaxar na simplicidade que é Deus,vista nesta história,e saber que no senhor podemos fazer proezas. Na vida quando temos uma prova,exame ou desafio,este são precedidos de experiências acumuladas que poderão nos dar bom desempenho,se utilizarmos as habilidades adquiridas pela vida a luz do Evangelho. Dona Zefa,abre a camisa e encara o mundo de frente,olha pra vida sem medo sabendo onde quer chegar e, como diz o Texto sagrado:"A alegria do coração aformoseia o rosto".Em dona Zefa nós vemos nitidamente pontos consolidantes de pureza do Evangelho. Isto é que é significatividade, resultado de uma consonância com a pureza de Deus. Acredito muito que o caráter do Cristão é revelado na hora das provações e tentações. Com certeza Dona Zefa guarda com muita ternura o verso 22 do Capítulo 3 de Lamentações e Vive a vida compenetrada com o verso anterior. Shalon Adonai.

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