" "

"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

terça-feira, 28 de julho de 2009

A proposta

Arrepiou-se todo. Não podia ser! Mas era! Vibrou, gritou, rolou pelo chão de tanta alegria; afinal, era a melhor noticia que recebera em toda sua vida!

Depois de ter dançado pela casa toda, deitou exausto no sofá, curtindo o bom momento...

- Que maravilha! Logo agora, quando eu sinto que estou conquistando a Selminha!

O dia tinha sido pesado lá na firma; e ele, apesar de toda a excitação que a novidade lhe trouxera, acabou dormindo ali mesmo.

No dia seguinte, acordou com batidas fortes na porta. Era Fabinho, o motoboy da empresa, que a mandado do chefe, viera saber por que o auxiliar de escritório, além de ter desligado o telefone, não aparecera.

- Vou abrir a porta, mas fique de longe!
- O que ta havendo, homem? O que você tem?
- Tosse, espirro, febre alta, gripe do porco!

Depois da mentira, caiu a ficha; havia se livrado de Fabinho, mas, percebendo que a euforia da noite estava agora misturada com as preocupações que lhe trouxera o dia, tomou café e voltou para o sofá. Precisava pensar melhor, e muito!

- Que porcaria! Logo agora, quando eu estou quase conquistando a Selminha!

Teve medo que seu estado de espírito inluenciasse a decisão da garota. Neste caso, mesmo recebendo uma resposta positiva, faltaria nele a convicção da conquista; e, dessa forma, seria impossível saber se ela teria ficado com ele por amor.

Na semana passada, ladrões tentaram levar seu cavalo de estimação, sua montaria preferida em noites de vaquejada; por sorte, os cachorros latiram, sua espingarda mandou chumbo e os indivíduos desapareceram no meio do mato. Lembrou também de certas pessoas, interesseiras e falsas, que viviam nas redondezas e só se aproximavam dele para obter alguma vantagem...

- Meu Deus! Tenho que sumir daqui!

Na outra manhã, voltou para a usina, como se nada tivesse acontecido. O vigia abriu o portão meio desconfiado...

- E tu não tais doente?
- Tava...
- E não era a tal da suína?
- Pensei que fosse...

No fim de semana, tomou coragem e conversou com a moça:

- Estou pensando seriamente em ir embora, pra começar tudo do zero, noutro lugar...
- Você não ta feliz aqui?
- Mais ou menos... – Respondeu, com voz trêmula e coração aos pulos.
- Quero vender meu cavalo, minhas três vacas, a casa, a moto; e viajar pra outro canto...

Ela o ouvia, com um olhar surpreso e triste. Ele precisava fazer a proposta; e gaguejou, dizendo:

- Selminha, foge comigo!
- Sim, fujo! Mas você tem que me jurar que não fez coisa errada!
- Sim, depois te explico tudo; mas juro pelo que há de mais sagrado que não fiz nada errado!

Não demorou muito, ele vendeu tudo o que tinha e desapareceu junto com a moça. Embora ambos já tivessem passado dos vinte anos, a família dela ficou irada pelo fato de a mesma ter se entregue a um pé rapado.

Na cidade grande, alugaram um quitinete; e Selminha logo arranjou trabalho na residência de uma médica aposentada. Ele, por sua vez, saía todos os dias de casa, mas voltava dizendo que não conseguira nada.

- Tenha calma, amor! Enquanto você não consegue, a gente vai se virando pelo tempo que for necessário, com o dinheiro que doutora Ana me paga.

Doía ver Selminha chegar exausta em casa; mas, aquelas quatro semanas de trabalho eram necessárias para mantê-la distraída e ocupada, enquanto ele corria para lá e para cá, tomando mil e uma providências e agilizando mil e uma coisas. Quando tudo estava finalmente pronto, ele chegou em casa sorrindo e a abraçou, dizendo:

- Saia desse trabalho, arrume as malas; e vamos fugir outra vez!
- Fugir? De novo? Pra onde?
- Pra uma vida melhor. Já arranjei tudo!
- Arranjou tudo? Como assim?
- É que nós agora temos um bom trocado, eu acertei a Megasena!
.
Selminha dera provas de que merecia ficar sabendo do segredo. E merecia também desfrutá-lo...

Humberto de Lima

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Manhã de folga

Está chovendo forte, o vento uiva pela janela do banheiro e adentra o quarto ainda escuro. JJ abre os olhos, se espreguiça e estende a mão em busca do celular; precisa ter noção do tempo. Todos saíram cedo; e ele, está sozinho nesta manhã de segunda-feira. Verifica a hora e desliga o telefone de novo; é seu dia de folga e ele não quer ter o seu despertar invadido pelo som de campanhinhas.

Ele se estica todo outra vez e volta a se deitar, com vontade de ficar ali mais um pouco, ouvindo os galos, que no fundo do quintal se revezam entre um canto e outro. Mas não consegue...

De repente, como uma daquelas filas que dobram o quarteirão, uma multidão de pensamentos se apresenta diante dele; cada um deles querendo ser atendido primeiro, com aquela pressão avassaladora de quem esperou dias e só agora encontrou espaço na agenda do homem.

Lembra da gafe cometida naquela reunião e tem vontade de entrar no travesseiro.
– Será que todos perceberam? – Pergunta-se.

Como em data-show, a consciência começa a passar slides de seus pecados mais recentes; e, para completar a série, lembranças de coisas difíceis para resolver no dia seguinte, começam a bater palmas insistentemente. Longe de ser um Superman espiritual, hoje ele está se sentindo afadigado e jururu...
.
Durante a semana toda, JJ ouviu gente, aconselhou gente, ajudou a carregar a carga de muita gente; e agora, exatamente agora quando está mais cansado, seus próprios problemas aparecem, fazendo pouco caso do seu merecido descanso!

E ele sabe que não é bom deixar o quarto assim, nem é recomendável continuar deitado. Então, se ajoelha ao pé da cama e chora, e ora sem nenhuma pressa... Sai dali aliviado, com a certeza cada vez mais forte, de que ser pastor também implica ser ovelha. E JJ ainda é uma delas, ovelha do Sumo Pastor!


Humberto de Lima

domingo, 19 de julho de 2009

Conselhos


Evite...
.
Ser fiador,
Usar o limite do cheque especial;
Fazer pagamento mínimo de cartão de crédito,
Assinar contratos sem ler as entrelinhas;
Confiar no desconfiável,
Adiar a solução de um mal entendido,

Deixar que os elogios de seus fãs lhe acomodem;
Permitir que as críticas dos inimigos lhe derrubem;
Mendigar atenção de quem quer que seja;
Não se perdoar, ainda que outros tenham lhe negado perdão;
Compartilhar coisas íntimas com quem não deseja compartilhar coisa alguma;
Induzir à paixão alguém por quem você não está apaixonado;

Esquecer de amar a si mesmo;
Pensar que a saúde é de ferro e não quebra nunca;
Comer demais e se mexer de menos;
Deixar para amanhã o exame ou o remédio que deve ser tomado hoje;
Trabalhar no dia de folga;
Reprimir abraço, oração, lágrima, sorriso ou risada;

Tentar agradar a gregos e troianos;
Contender com fanáticos e santarrões;
Julgar apenas com base na acusação, sem ter ouvido a defesa;
Autorizar que a boca diga sim, se o coração estiver dizendo não;
Buscar benção sem querer ser benção;
Viver sem sonhos ou sonhar sem ir à luta.


Humberto de Lima

domingo, 12 de julho de 2009

Michael Jackson na Terra do Sempre

Confesso que não gosto muito de escrever sobre as últimas noticias, pelas razões seguintes: elas ainda estão frescas, incompletas, e, geralmente carregam uma percentagem muito alta de especulações e sensacionalismo. Não me apetece o furo de reportagem. Prefiro esperar que a poeira baixe, para só então, decidir se falo ou não falo; e, na maioria das vezes, acabo por resolver que é melhor ir em busca de outro assunto. Hoje, porém, estou aqui, contrariando a regra...

Eu era adolescente quando ele apareceu no mercado brasileiro; e, vendo-o, percebi que o mesmo não teria dificuldades em se diferenciar daqueles artistas cujas carreiras são marcadas por um único hit. Cantando bem e dançando como ninguém, o jovem nascido no Estado de Indiana, tinha tudo para ganhar espaço e se firmar cada vez mais no universo do show business; e foi isto o que fez!

A partir dos anos 90, seus problemas de saúde e financeiros, juntamente com alguns escândalos, começaram a alimentar as páginas dos tablóides e revistas de fofocas. No último dia 25 de junho de 2009, depois de um tempo sumido, enquanto se preparava para retornar aos palcos, Michael Joseph Jackson surpreendeu o mundo com a noticia de um show inédito e indesejado – sua própria morte!

Diferente do que se vê no poema de João Cabral de Melo Neto, a morte e a vida do rei do pop nada tiveram de severina. Sua vida, sua morte, seu funeral e pós-funeral, foram cobertos pelo luxo da fortuna e pelos flashes da fama. Enquanto viveu e morreu, e também depois disto, o cantor foi, e ainda continua sendo um show: um show que enriqueceu seus empresários, nutriu a cobiça de seus parentes, deu ibope às agências de noticias, divertiu seus fãs; e, por um instante, nos fez esquecer a sujeira da política internacional e doméstica...

É uma pena que o proprietário de Neverland não tenha conseguido conciliar os três efes (fama, fortuna e família). É meu desejo que em sua agonia, ele tenha apelado para as misericórdias do Eterno; e, longe dos holofotes, tenha encontrado descanso no lado bom da Terra do Sempre...
.
Humberto de Lima

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A receita de Zefa

Zefa mora distante meia hora do centro e tem uma criação de galinhas e ovos orgânicos, de onde ela e seu marido Zeca vão tirando o sustento de cada dia.

Sua manhã começa com uma hora tranqüila, isto é, alguns minutos tranqüilos de oração; depois vem o café, e, logo em seguida, ela dá inicio ao trabalho na chácara, onde além dos bichos, também cuida de uma horta e de um pomar. E quando fala de sua hora tranqüila, seus olhos brilham!

- Ah meu fi, é a primeira coisa que faço. Vou pro meu cantinho e fico ali, cuidando do meu relacionamento cum Nosso Sinhô...
- E tem mais: Cunverso assim mesmo, do meu jeito, por causa de que eu num sei falá difíci, mas conto tudo, falo tudinho cum meu Pai Eterno...

Zefa não gosta de injustiça. Conta-se que certa vez, os dois filhos do finado Totonho abandonaram o pai, venderam tudo o que tinham, pegaram o dinheiro e se danaram mundo afora. Ela reuniu os vizinhos, construíram um quartinho para o velho e cuidaram dele por alguns anos, até que ele morreu.

Muito vaidosa, costuma se enfeitar toda e sair de Fiat com o marido, para ir à igreja ou passear na cidade, como ela mesma diz. Gosta de assistir ao Globo Rural, é vidrada em dicas de saúde; e, três vezes por semana, com o intuito de melhorar a leitura, freqüenta um curso para jovens e adultos. Quem ouve sua risada estrondosa, logo percebe que ela é uma pessoa de bem com a vida!

- Mas num pense que sou perfeita! – Diz, cheia de prosa – Eu também tenho cá meus defeitos! O Zeca que o diga!

Zeca, deitado na rede do alpendre, solta um sorriso cúmplice e começa a afinar a viola; enquanto isso, os cheiros de café quente, macaxeira e carne de sol assada se misturam no ar e tomam conta do ambiente. Logo em seguida, os amigos começam a chegar, trazendo mais comida, e vão tomando assento em seus tamboretes ao redor da mesa. É sexta-feira de noite; crianças brincam no terreiro sob a luz de uma gambiarra e o barulho das mulheres enche a cozinha... Vai começar a janta, a conversa e a cantoria...

Enquanto observam a maestria com que Josefa pilota seu fogão a lenha, as vizinhas vão entendendo qual é a sua receita para viver bem: Olhar pra cima e amar a Deus, olhar ao redor e amar ao próximo, e, olhar para o espelho e também amar a si mesma!
.
Esse jeito de ser me faz lembrar de algo parecido que li no Evangelho de São Mateus. Na realidade, a velha receita não foi inventada por Zefa; foi aprendida de Jesus. E, como diz o pessoal lá da roça, funciona e é uma beleza...


Humberto de Lima

Mais lidas na semana