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"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

domingo, 26 de abril de 2009

Um dia de cão!


Parecia mais um daqueles dias em que a gente só sai de casa pra cumprir tabela... Botou o paletó, entrou no carro e rumou para a Câmara, onde pretendia passar toda a manhã articulando manobras. Isto mesmo! Manobras! É que tem uma turma lá dentro que está sempre querendo acabar com ele! Neste caso, ou o sujeito se defende ou se ferra...

Pra falar a verdade, alguns projetos interessantes estavam na fila para serem discutidos e votados; mas, até mesmo gente do lado adversário concordou em deixar pra depois. Afinal, quase todos gostam de fazer hora extra durante o recesso parlamentar; pois um trocadinho a mais é sempre bem vindo.

De repente, percebeu que o clima estava agitado; parecia um daqueles dias em que a turma vai votar, para eleger a nova presidência da casa. Antes mesmo de chegar ao gabinete, um colega o abordou e foi logo contando a desgraceira:

- Ei, acabaram com o nosso esquema de passagens aéreas! Agora, somente você e um assessor comprovadamente a serviço, terão o bilhete pago pelo Legislativo!
- E tem mais! – Prosseguiu o colega – A verba de gabinete foi reduzida a um valor que dá para empregar decentemente apenas dois assessores.

Suou frio ao ver que o companheiro, histérico, não parava de falar:

- E tem mais! A prestação de contas das verbas indenizatórias será aberta, disponibilizada, uma a uma, não somente para o Tribunal de Contas da União, mas também para os adversários e para a imprensa!

Frenético, o amigo parecia querer matá-lo com aquela rajada de noticia ruim:

- A partir de agora, depois de reformadas as residências funcionais, não teremos mais direito a auxilio moradia. Quem quiser morar em mansão holywoodiana, vai ter que pagar do próprio bolso; e, as despesas com telefone e cartas não poderão ultrapassar um determinado limite!

O cérebro começou a fazer contas. Pelos seus cálculos, ele teria um prejuízo mensal de aproximadamente R$ 90 mil. Livres mesmo, ele só teria o salário de R$ 16.512,00...

- 16 mil! Somente 16 mil?

Começou a gelar, não sentia mais as pernas, a vista escureceu, a cabeça rodou... Estava morrendo...

No auge da agonia, acordou com uma goteira pingando sobre os pés e com as mãos da mulher sacolejando seus braços e perguntando:

- O que é isso? Que estória é essa de 16 mil?
- Nada não, mulher. Sonhei que eu não era eu...

De manhã, já refeito do pesadelo, trepado em seu tamborete de três pernas, enquanto tomava despreocupadamente seu café com sorda, Zé Merreca pensou:

- Como sofre um deputado!
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Humberto de Lima.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O bicho-homem e o bicho-bicho


Velhos tempos na Ilha! Ainda não haviam construído o viaduto e eu voltava numa noite de quarta-feira, depois das dez, da casa da namorada que morava no centro...

Ao sair da Rua Visconde de Itaparica, dobrei à direita e preparei-me para descer a ladeira do cemitério. As lâmpadas de todos os postes estavam quebradas, estava nublado e não era noite de lua; à minha frente, uma escuridão da cor de carvão tomava conta de tudo.

Logo percebi que o vulto de outro cara caminhava um pouco adiante. Diminui o ritmo de minhas passadas para que ele se distanciasse de mim. Ele, por sua vez, incomodado com a idéia de ter alguém caminhando bem atrás, também reduziu a velocidade e se afastou para o lado direito da estrada.

Pensei: - Não vou me adiantar, não quero dar as costas para esse estranho...
E reagi me esgueirando pelo lado esquerdo da calçada, quase colado ao muro do campo santo.

Bem no meio do caminho, resolvi olhar melhor para ver se reconhecia o sujeito. Nada! Ninguém falava nada, ninguém dizia nada; e ele também estava me olhando!

Um cachorro que descia se encontrou com um cachorro que subia; e, logo os dois pararam para fazer aquela velha saudação em que um cheira o fundo do outro.

Nisso, o homem meteu a mão no bolso. Estremeci e meti a mão no bolso também! E agora? Se ele repentinamente tirasse a mão do bolso? E se ele tivesse uma arma? Desse jeito, fomos descendo, mão no bolso, até ao pé da ponte, onde um casebre tinha um bico de luz.

- Beto?
- Ari?
- Homem, eu tava com medo de tu!
- E eu também tava com medo de tu!

Seguimos pela Avenida Redenção conversando e rindo de nós mesmos. Em casa, já deitado, lembrei de mim, de Ari e também dos cachorros...

E pensei: - Puxa! Como o bicho-homem tem medo de outro bicho-homem!
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Às vezes olho pro nosso mundo e acho que as coisas vão bem melhor no mundo do bicho-bicho...
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Humberto de Lima

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