" "

"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

11 dicas para aumentar sua segurança na internet

Você conhece alguém que já foi vítima de algum mal estar derivado do uso da internet? Penso que sim, penso que muitos, talvez até mesmo você já tenha passado por isso; não é mesmo? Por este motivo, resolvi colocar aqui algumas dicas que lhe ajudarão a navegar com mais tranqüilidade por este mundo cibernético. É claro que não pretendo esgotar o assunto; por isso, peço aos meus leitores que façam uso do espaço reservado aos comentários e acrescentem outras recomendações que serão úteis à segurança de todos nós.

1. Quando estiver viajando e precisar usar o hotmail em um computador de uso público, opte pela segurança aprimorada. Ao sair, certifique-se de ter deixado tudo absolutamente fechado.

2. Não abra e-mails enviados por gente que você não conhece; especialmente aqueles cujos títulos dizem que estão morrendo de saudades, falam sobre fotos que você não tirou nem pediu, concursos dos quais você não participou, prêmios aos quais você não concorreu... É barco furado!

3. Não abra e-mails supostamente enviados por bancos ou repartições públicas. Toda e qualquer pendência junto à Administração Pública, ao Poder Judiciário ou instituições financeiras, é geralmente comunicada pelos Correios e deve ser preferencialmente resolvida na agência, forum ou posto de atendimento mais próximo.

4. Em conversas pelo MSN ou similares, nunca forneça números de cartão de crédito, senhas de banco ou outras informações sigilosas. Cuidado também com a fofoca online; a conversa pode acabar vazando e caindo nos olhos ou ouvidos de alguém que para ela não foi convidado.

5. Tenha cuidado com os links que às vezes aparecem em e-mails ou conversas pelo MSN. Na dúvida, não clique!

6. Se você gosta de repassar mensagens ou correntes para os seus amigos, tenha o cuidado de protegê-los, enviando o e-mail como cópia oculta. Geralmente, caçadores mal intencionados, costumam enviar lindas mensagens ou apelos dramáticos sobre pessoas doentes ou desaparecidas; às vezes, eles espalham alarmes sobre algum tipo de virus recém-descoberto, do tipo que faz explodir o monitor em sua cara. Feito isto, tentam lhe convencer que passar o conteúdo para o maior número de pessoas é a melhor forma de ajudar. Em algum momento, essas mensagens acabam voltando para eles carregadas de centenas de outros endereços que serão posteriormente utilizados para o envio de publicidade não autorizada (spam) ou para outros fins ilícitos. De onde você acha que vieram aquelas propagandas e e-mails estranhos enviados por gente que você nunca viu?

7. Pense duas vezes antes de colocar coisas da intimidade familiar em blogs e sites de relacionamentos. Será que é mesmo interessante e seguro divulgar na internet onde seus filhos pequenos estudam, onde você pretende passar as férias ou jantar no próximo final de semana? Será que vale a pena divulgar pra todo mundo fotos que deveriam ficar restritas ao seu círculo familiar ou de amigos mais íntimos?

8. Se você tem filhos pequenos, tenha o cuidado de colocar o computador em algum lugar da casa onde todos possam ver o que eles estão vendo e fazendo. Proteja a vida escolar de suas crianças, disciplinando os horários em que elas vão estar na net.

9. Tenha um bom antivírus instalado e constantemente atualizado em seu computador pessoal.

10. Se você é escritor, estude as leis que tratam dos direitos autorais, registre seus trabalhos e proteja-se ao máximo dos plagiadores de plantão.

11. Finalmente, ponha essas dicas em prática e recomende a leitura desse texto para aqueles a quem você quer bem.

Humberto de Lima

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Natal aqui, Natal em mim!


Acabo de pousar meus dedos sobre o teclado para escrever alguma coisa sobre o Natal. Devo começar dizendo que não faço isso por causa de alguma obrigação a mim imposta, nem porque outros estão agora dissertando sobre o mesmo tema, nem porque eu sou um pastor protestante. A verdade é que gosto mesmo do Natal!

Dentre as objeções que vez por outra ouço contra a celebração dessa linda festa, está a incerteza quanto à possibilidade de ter Cristo nascido no dia 25 de dezembro. Embora não haja unanimidade em relação ao assunto, devo lembrar que a grande motivação não está na cronologia do fato; mas sim, no fato em si mesmo. Ora, não saber em que dia exato nasceu um ente querido, não me impede de escolher qualquer outro dia do ano para agradecer a Deus pela sua chegada.
.
Há ainda aqueles que são extremistas quando afirmam que Natal de verdade é pobreza e outros que são igualmente exagerados quando dizem que não existe Natal sem luxo. O Messias, em seu nascimento, nos deu um belo exemplo de equilibrio e soube conciliar muito bem as duas coisas: Se por um lado ele nasceu em um estábulo, cercado pelas limitações vividas pelos pobres de sua época, por outro lado, recebeu bem a visita dos magos e seus ricos presentes.

Vejo hoje em dia que tanto mansões como também barracos neste mundo afora têm sido palcos de Natais infelizes ou felizes. Portanto, o feeling espiritual  do momento independe de onde você está ou de quanto você tem. Tem muito mais que ver com o menino da festa do que com a festa do menino!

Embora eu seja um entusiasta desta comemoração e a veja como uma oportunidade para celebrar a vida e refletir a fé, não acredito que este dia do calendário possa, por si só, de forma mágica, fazer diferença em minha vida. A festa só faz sentido a partir de um relacionamento com Jesus, que deverá ser cultivado ao longo do ano todo.

Gosto muito de cantar “Noite Feliz”, ouvir o tradicional “Jingle Bells”, ver o coro da igreja a cantar, pregar mais um sermão do advento, assistir à apresentação das crianças, dar uma volta para ver a decoração da praça, enviar e receber mensagens, comer, beber, vestir e calçar o que consegui como fruto do meu trabalho e da generosidade de meus amigos. Nunca me endivido. Quando realmente preciso e posso comprar, vou lá e compro; se não posso, me aquieto e espero...

Porém, o melhor do Natal continua sendo o momento em que me escondo naquele cantinho de sempre e converso com Jesus, como faço em outros dias, de janeiro a janeiro.

Humberto de Lima

sábado, 19 de dezembro de 2009

Divagações


Vagueia um menino na rua,
Solto, livre e sem pressa.
Vai catando pedra, vai chutando lata,
Até que some na esquina onde o assobio cessa.


Sobe a folha de jornal carregada pelo vento,
Voa leve, voa lenta.
Levando notícias que já deixaram de ser,
Segue ladeira acima na estrada poeirenta.


Empoleirados em minha janela, muitos pensamentos...
Juntos conversam e observam tudo;
Depois descem, perambulam, correm...
E acabam indo mais longe que o menino, que o jornal, que as notícias, que o próprio vento!


Humberto de Lima

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Calendário

Tem dia que dá na gente vontade não sei de que;
Às vezes ficar quietinho sem ter nada pra fazer,
Outras vezes correr mundo e noutro canto aparecer.

Tem dia que a gente lembra coisa ruim que já passou;
Também pensa em coisa boa que no passado ficou.
É o armário do tempo se abrindo no corredor.

Tem dia que a gente sente uma luta interior;
Cá dentro a briga é bem grande entre o santo e o pecador.
Mas dá pra seguir em frente, com a graça do Senhor.

Tem dia...

Humberto de Lima.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Povo preguiçoso, governo inconsequente

Era uma vez um povo muito pobre, vivendo em um lugar muito rico, governado por uma minoria muito rica. Certo dia, os líderes do lugar resolveram criar uma bolsa cujo objetivo seria ajudar pobres a sair da pobreza.
.
A princípio, a idéia pareceu muito boa; pois além de aparentar um caráter provisório (cessaria tão logo atingisse o objetivo) também exigia uma contrapartida: os pobres deveriam enviar e manter suas crianças na escola.

Foi uma festa! As escolas públicas logo se encheram de alunos, quem quase não comia passou a comer mais, nas bodegas e quitandas das favelas quem quase não vendia passou a vender mais; e, na boca do povo, quem quase sempre era xingado de ladrão ou visto como quem não se importava, passou a receber todos os louvores possíveis.

O tempo foi passando e a maioria dos descamisados, apesar de ir à escola, não ascendeu em termos de formação acadêmica e qualificação profissional. Além disso, a bolsa, antes vista como uma alavanca que os ajudaria a sair da situação em que se encontravam, passou a ser vista como um direito adquirido, vitalício e também hereditário.

Houve até quem quisesse consolidar o controvertido direito, codificando-o em um novo volume chamado CLS – Consolidação das Leis Sociais. Diante do fato, a enorme assembléia dos beneficiários se reuniu e decidiu, entre outras coisas, que:

1. Não há mais motivos para que se preocupem com o futuro, pois o futuro já chegou, com muita televisão pra assistir, alguma grana pra comprar comida e um trocado pra fazer aquela farrinha de fim de semana.

2. Fazer mais meninos é a grande sacada do momento; pois ajuda a aumentar o valor da bolsa recebida.

Enquanto isso, pergunto eu:

1. Por que a exigência de freqüentar a escola não ultrapassou o simples controle de freqüência? Ao que me parece, o aumento do número de alunos matriculados serviu apenas para atrair mais verba para escolas públicas cujos administradores deveriam ser eleitos democraticamente, mas são nomeados por critérios políticos. Por que a chegada de mais dinheiro não resultou em melhor qualidade do ensino público?

2. Por que insistiram em manter esse negócio de auxilio maternidade?

3. É claro que os defensores da idéia terão mais pobres, isto é, mais eleitores para neles votar daqui a alguns anos. No futuro, estimulada pela bolsa pobreza, a população de beneficiários estará bem maior. Quem vai financiar isso tudo? As grandes fortunas dos que só vivem a especular ou a classe média que vive a pagar impostos, trabalhar e estudar?

Enquanto nos Estados Unidos, Canadá e em outros países de primeiro mundo a grande maioria dos cidadãos detesta depender do governo, deste lado de cá do mapa, o povo preguiçoso e o governo inconseqüente prosseguem fazendo festa por causa das bolsas...

Humberto de Lima

sábado, 14 de novembro de 2009

Questão de preguiça


Enfadado, tento tirar um cochilo; mas as luzes acesas, o balanço provocado pela buraqueira e o barulho da turma já combinaram que não vão me deixar dormir.

Em meio ao burburinho, procuro identificar que tipo de música o motorista botou pra tocar hoje; o cara é eclético. Por falar em eclético, percebo que além do ronco do motor, vários sons se misturam dentro do veículo: tem celular, celular com TV, mp3, mp4, mp10, mptudo...

Apoio a cabeça no encosto, fecho os olhos e procuro não pensar em nada; apenas quero me deixar levar despreocupadamente, caminho afora.

De repente eles conseguem me tirar do modo de espera e logo tenho minha atenção despertada para um ruidoso papo que rola em todos os bancos ao meu redor. Estão falando do vestibular!

A princípio, escuto a discussão de duas meninas sobre uma das questões resolvidas nesta manhã. Elas conseguem lembrar detalhes da pergunta e até concordam que a resposta certa estava na alternativa b; o problema é que uma garante que a questão estava na prova de Física enquanto a outra afirma com toda a certeza do mundo que o enunciado estava na prova de Matemática.

Há entre eles, aqueles que preferem não conferir gabarito nem comentar nada; pois, acreditam que calar talvez seja uma forma de atrair surpresas boas no final.

Depois, alguém começa a falar sobre as questões abertas; é quando surge um conselho até então inédito para os meus ouvidos:

- O professor disse que nunca devemos deixar questões abertas em branco. Você deve colocar o que quiser, pode até mesmo escrever que está morto de fome e louco pra comer um cachorro quente com coca cola. Eles sempre vão considerar alguma coisa!

Em seguida, ouço outro diálogo que vem lá de trás:

- E tu, Fulana? Gostaste da prova?

- Amei, mas estou com medo.

Em minha cabeça, busco conciliar as duas idéias, completamente antagônicas: Ter medo apesar de ter gostado tanto. Talvez a frase se encaixasse melhor em situações de namoro e sexo; porém em provas, penso que você gosta e sai confiante ou você não gosta e sai inseguro.

Daqui a pouco, uma voz se destaca em meio às demais, trazendo a pérola do dia:

- Eu já fiz vestibular três vezes e estou consciente que se não passar dessa vez, é porque ainda não chegou a minha hora.

Chega a minha hora, isto é, minha hora de descer do carro. Então, deixo para trás aquele bando de rapazes e moças, alunos de boas escolas, filhos de bons pais e muito inteligentes. Já os conheço e tenho certeza de que não são nada burros; apenas gostam de curtir o ócio.


Humberto de Lima

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carta ao ladrão


Hoje eu paguei a primeira parcela do celular que comprei para mim e foi roubado por você há alguns dias. Foi constrangedor ver você e seu comparsa tomando nossas coisas mediante grave ameaça. Felizmente nenhum de meus amigos reagiu de forma precipitada e você não precisou acionar o seu gatilho covarde.

Assim que você desapareceu na esquina, entramos em algum lugar da mesma rua, ligamos para a polícia e descrevemos você e seu sócio-bandido. A viatura só passou por lá uns vinte minutos depois. Que pena não ter visto você algemado no noticiário do outro dia!

Lembrei que você poderia usar meu telefone para fazer mais maldades e liguei para a operadora, solicitando o bloqueio imediato do chip. Depois veio aquela trabalheira de recuperar todos os contatos perdidos e avisar para os meus conhecidos sobre o novo número que agora uso em outro aparelho que me foi presenteado por uma pessoa amiga.

Pelo que pude perceber, você já não é um iniciante no mundo do crime; pois apesar da forma violenta e arrogante com que nos abordou, não aparentou nenhum nevorsismo. Talvez já esteja acostumado a fazer isso; e, é aí que começam os seus problemas!

Com idade entre vinte e vinte e cinco anos, você está ganhando dinheiro fácil; e isto vai viciar você ainda mais neste negócio. Provavelmente você nunca mais sentirá interesse por qualquer atividade que exija estudo, trabalho árduo e honesto; afinal de contas, você acredita ter encontrado a chave para o seu futuro.

E por falar em futuro, nem preciso invocar dotes proféticos para antever as inúmeras opções que lhe aguardam. Vejamos algumas:

1. Você poderá ser preso.

2. Você poderá ser gravemente ferido em uma de suas ações ilícitas e ficar paralítico para o resto da vida. Neste caso, quero lhe avisar que a Previdência Social não dá nenhum auxílio nem garante aposentadoria para assaltantes tirados de circulação por invalidez.

3. Você poderá ser morto a qualquer momento pelo seu colega. Será que esse cara com quem você anda merece mesmo sua inteira confiança?

4. Você também corre o risco de ser derrubado pelo fogo estatal e terminar sua carreira em uma pedra fria de necrotério.

Fico imaginando suas risadas caso você pudesse ler essa carta; pois você sabe que nesse país cheio de balas perdidas, eu e você corremos os mesmos riscos. Isto me leva a pensar no maior de todos os seus problemas...

Ladrão, eu creio na existência de um lugar preparado para os que optaram pelo estreito caminho do bem; e, também prego a existência de um outro lugar preparado para os que escolheram andar pela larga e espaçosa estrada do mal.

Saiba que se morrermos agora e nada do que eu ensino for verdade, nós dois estaremos numa boa. Mas, se for verdade que céu e inferno existem, eu estarei numa boa e você se dará mal, muito mal. Pense nisto e mude de vida!

Humberto de Lima

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fora da rede!



Sempre fui resistente à tentação de ocupar espaço no orkut, facebook, sonico etc.

Recentemente, precisei localizar alguém cujo endereço eu havia perdido há algum tempo; e, acabei descobrindo que a pessoa poderia ser encontrada em uma dessas redes sociais cibernéticas. Imediatamente entrei no site, preenchi o formulário, abri uma conta e consegui recuperar o contato!

A principio, até gostei da novidade; mas depois acabei voltando atrás pelas razões seguintes:

Primeiro, lembrei que a maioria dos meus muitos contatos e também a maioria dos meus poucos amigos já estavam adicionados em minha relação de endereços eletrônicos. Neste caso, já tínhamos nosso canal de comunicação, sem que houvesse a necessidade de navegar por outros caminhos.

Depois, comecei a receber centenas de avisos do tipo: Fulana tem uma nova foto, Sicrano deu um abraço de urso em Beltrano, Elesinho está com medo, Elasinha agora tem uma amizade com o cara, há uma vaca azul na fazenda do Tontom...

Meu contado tempo como chefe de família, pastor, estudante, escritor e jogger, começou a ficar ainda mais apertado quando comecei a dar atenção às novidades que não paravam de surgir a todo instante. Consigo até imaginar porque muita gente anda se dando mal nas provas escolares, ou tendo desempenho medíocre no ambiente de trabalho...

Outra coisa que me surpreendeu foi o fato de ter sido adicionado por gente que não gosta de mim. Como não sou milionário nem celebridade, fico me perguntando qual terá sido o propósito deles...

Finalmente, depois de uns dois ou três dias, cercado pelas muitas atividades de fim de ano, resolvi dar um tempo fora da rede, sem saber quando volto.

Mas isto não significa dizer que estou me isolando do mundo. Ainda contamos com os e-mails e  temos a crônica nossa de cada domingo, aqui no HumbertodeLima.com.

Recebam meu abraço,

Humberto de Lima

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Metamorfose

Depois dos quarenta, percebo que nem tudo o que ficou para trás foi ruim. Além dos erros, perdas e danos, trago comigo muitas lembranças boas às quais gosto de voltar; dentro delas o meu pensamento navega e sobre elas escrevo de vez em quando.

O amanhã com o qual eu não me importava na infância e para o qual eu olhava com um olhar carregado de romantismo em meus tempos de adolescente ainda continua diante de mim, visto agora de um ângulo totalmente novo. Vou chegar lá, mas já não tenho pressa.

Costumo, nas noites de sexta-feira, depois da semana carregada de trabalho e estudos, me presentear com as pipocas compradas do carrinho do Seu Zé. Uma vez embarcado, não as como aos punhados; faço o saquinho de pipocas render e as pego, uma a uma, durante os trinta quilômetros da estrada. Assim encaro o meu hoje; como algo que deve ser saboreado com o mesmo prazer com que vou degustando as pipocas enquanto o ônibus anda e salta pelos velhos buracos da PB 100.
.
Embora sem fugir dos inevitáveis confrontos do cotidiano, prefiro ajustar o foco e dar atenção a algumas coisas que outrora me pareciam sempre adiáveis.

Quero gastar mais tempo com amigos, ainda que não sejam tantos.

Quero me concentrar no prazer que vem de abraços, olhares e sorrisos carregados de espontaneidade, num escambo em que ninguém perde nada.

Quero continuar esculpindo idéias e gastar mais tempo com música e poesia.

Quero andar pelo mato e apreciar os detalhes de cada planta e de cada bicho.

Bela é a lagarta, bela é a borboleta e bela é a metamorfose que acontece entre uma e outra. Assim vejo a vida!

Humberto de Lima

sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre o Sermão da Sexagésima


É Março de 1652 e eu estou na capela real em Lisboa. Na pressa, esqueci de programar minha máquina do tempo para que eu chegasse aqui munido de roupas próprias da época e do lugar. Agora é tarde; minha calça jeans, o par de tênis, a camiseta branca e a mochila chamam a atenção de todos por onde quer que eu passe! Por isso, resolvi ficar bem atrás, onde não possa ser percebido. Do altar principal é anunciado o momento da homilia. Todos se voltam em direção ao púlpito suspenso em uma das paredes. Trajando um hábito escuro, aparece o padre Antonio Vieira. Não há microfones; mas a boa acústica do lugar, somada à reverência do povo, torna possível ouvir qualquer espirro em qualquer ponto da igreja lotada.

- Semen est verbum Dei! – Assim começa ele o sermão, baseado na parábola do semeador, contida no Evangelho de Lucas, capítulo 8. Apesar das citações bíblicas em Latim, é em Português que ele prega o tempo todo. E eu, apesar do sotaque e da entonação com que fala o jesuíta, consigo entender tudo.

Na nave do templo, os fiéis permanecem atentos, como se estivessem bebendo avidamente cada palavra, cada silaba. Na parte reservada às autoridades e aos clérigos, percebo algumas caras um tanto descontentes; mas, apesar delas, o orador prossegue, parte por parte, até ao décimo e último ponto de sua mensagem.

Ao final, o povo é despedido e eu começo a andar em sentido contrário ao da multidão. Não tenho tempo a perder; mais alguns minutos e tenho que partir de volta para o século vinte e um. Depois de procurá-lo por alguns instantes, acabo encontrando-o em um aposento mais reservado, cercado por um pequeno grupo. Com minha frase de abordagem já devidamente ensaiada, me aproximo sorrindo e vou logo dizendo:

- Meu nome é Humberto. Acabo de chegar do Brasil para entrevistar o senhor!

- Hum! Espero que tragas boas noticias de longe. Elas sempre fazem bem quando não temos boas noticias por perto!

As pessoas em redor olham para mim. Entre uma risadinha e outra, ouço algumas senhoras da corte sussurrando aos ouvidos das amigas. Acho que todos gostaram do meu jeito; me acharam engraçado, diferente. Depois de uma breve prosa bem humorada, o padre diz que eu sou um sujeito bastante espirituoso e pede licença a todos porque necessita dar uma entrevista a este pregador do futuro. E aqui vai a conversa, em sua integra:

HL – No sermão, o senhor disse que nunca na igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores como hoje. Isso não é bom?
Pe. Vieira – Deveria ser bom, mas não o é, infelizmente. As pessoas ouvem muito como se não estivessem ouvindo nada; voltam pra casa do mesmo jeito, sem mudança de vida. Como eu disse, é como semear muitas sementes e não colher nada.

HL – O povo não tem sua parcela de culpa nisso tudo?
Pe. Vieira – Quando cheguei, percebi que você já estava aqui desde o início; e, portanto, você deve concordar comigo que Deus não tem nenhuma culpa nessa estória. É claro que o povo também peca quando não dá a devida atenção à Palavra; porém, os maiores culpados agora em meu tempo são os pregadores. Não sei como andam as coisas em seu Brasil do futuro (risos).

HL – O que falta nas pregações de hoje?
Pe. Vieira – Primeiro, está faltando clareza. Fico zangado quando vejo os colegas tentando falar sobre quarenta assuntos diferentes em quarenta minutos. Acabam misturando tudo, confundem a cabeça do povo e no final ninguém lembra de nada. Além disso, tem a questão da linguagem; falam de um jeito rebuscado que o povo não entende.

HL – Algumas pessoas ficaram chocadas com aquela frase em que o senhor disse que pregadores de Deus às vezes pregam as palavras do demônio.
Pe. Vieira – Sim! Isso acontece quando trechos das Escrituras são citados fora do contexto e acabam virando pretexto para apoiar idéias e interesses puramente humanos e muitas vezes pecaminosos.

HL – O senhor também fala sobre aqueles que se limitam a repetir o que dizem os outros...
Pe. Vieira – Não há nada errado em fazer citações, dando os créditos a quem de direito. O problema está nesta mania de sempre repetir quem está na moda, embora estar na moda nem sempre seja útil e coerente. Este tipo de mensagem é típico de quem tem preguiça de ler, pensar e pesquisar. É bem melhor produzir arduamente o material que prego ao invés de ficar repetindo certas coisas somente porque Fulano ou Beltrano as disse.

HL – Se estes detalhes forem corrigidos, voltaremos a ter bons pregadores e boas pregações?
Pe. Vieira – Ainda não! Falta rever o estilo de vida de quem sobe ao púlpito. Ter nome de pregador ou ser pregador de nome não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o mundo. Em minha opinião, o melhor conceito que um pregador leva ao púlpito é o conceito que de sua vida têm os ouvintes.

HL – Esse seu posicionamento tem lhe custado muita inimizade, dentro e fora da Igreja...
 Pe. Vieira – É verdade. Muita gente tem desejado minha cabeça, tanto no Brasil como também aqui em Portugal. É por isso que em minha biografia você vai me ver enfrentando perseguições, prisões e julgamentos impostos pela Inquisição.
.
HL – Percebo no senhor algumas tendências reformadoras, como em Lutero e Calvino...
Pe. Vieira – Não me confunda com os protestantes! Acho que você deveria ler também o meu sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda. Lá você saberá o que penso sobre eles!
.
Aparentemente cansado, o padre se levanta e diz que precisa ir pra casa. Nesse instante, o bip vibra em meu bolso, avisando que eu também devo retornar. Agradeço pela atenção, despeço-me e atravesso a capela agora vazia em direção à porta principal. Em seguida, para não causar espantos, procuro a mesma rua deserta onde anteriormente apareci; e de lá, com apenas um clique, saio do portal da ficção e entro outra vez na realidade do meu escritório.

Deixando de lado a hostilidade de Vieira em relação ao Protestantismo, devemos reconhecer que o seu Sermão da Sexagésima é muito mais que uma bela peça literária; é um atualíssimo chamado à reflexão. Por isso, recomendo que o mesmo seja lido por todos nós, pregadores destes tempos pós-modernos.

Humberto de Lima.

sábado, 10 de outubro de 2009

Perfil




Sou o que sou,
Sou o que fui,
Sou o que não sou,
Sou o que espero ser.

Corro, me arrasto,
Enterro-me, vôo.
Limpo, sujo, limpo outra vez;
Aprendendo a desistir do desistir de mim mesmo.

Sou saudade,
Sou presença,
Sou desilusão,
Sou desejo.

Lembro, esqueço,
Parto, fico.
Cheio, vazio, cheio de novo;
Até que termine o meu nado no outro lado do mar.

Humberto de Lima.

sábado, 3 de outubro de 2009

A corrente


Visto com bons olhos pelo resto do mundo, escolhido como anfitrião da copa do mundo e dos jogos olímpicos, forte candidato a uma vaga no conselho de segurança da ONU, exemplo de democracia para nuestros hermanos, somos um país emergente!

De fato, olhando pelo espelho retrovisor da História, podemos ver o quanto já avançamos em direção ao melhor. Basta lembrar que em outras épocas éramos colônia, o povo não tinha liberdade de praticar outra religião além daquela que lhe fora imposta como oficial, nossas mulheres eram impedidas de votar, experimentamos golpes de estado, estivemos sob regime ditatorial, sentimos em nossas bocas o gosto amargo da censura, fomos devedores do FMI e também convivemos com o stress da inflação.

Por esses e por outros motivos, simplesmente não consigo me juntar àqueles que somente reclamam; pois reconheço, apesar das razões que ainda tenho para reclamar, que também existe muita coisa boa para comemorar.

Lentamente, saímos do passado e agora caminhamos no presente, ansiosos por um futuro que ainda está bem distante. Refiro-me aqui a um futuro não cronológico, dentro do qual a maior novidade não será o fato de estarmos mais velhos; falo de um tempo em que estaremos livres de mazelas sociais incompatíveis com uma nação cuja economia está agora entre as dez maiores do mundo!

Porque estamos em movimento, seria injusto sermos acusados de inércia; lentidão é o nosso problema. Somos lentos em passar para o povo informações que fazem diferença, somos vagarosos em transmitir aos nossos filhos conhecimentos transformadores.

Como resultado dessa lentidão, temos ao nosso redor milhões de cidadãos que ainda não conhecem a Constituição Federal promulgada há mais de vinte anos. Tais cidadãos, por ignorar o conteúdo da Carta Magna, seguem vivendo como agentes passivos e meros expectadores de uma sociedade que eles mesmos poderiam mudar.

Pensando nisto, sugiro que seja incluído na grade curricular do Ensino Fundamental, o estudo dos primeiros onze artigos do texto constitucional. Sugiro também, que o mesmo conteúdo seja revisado pelos alunos do Ensino Médio!

Lá, nossos estudantes aprenderão que todo poder emana do povo, que todos são iguais perante a lei, que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Mais que isto, eles saberão desde cedo que existem garantias fundamentais e direitos sociais pelos quais devem lutar.

Dessa forma, aguçando o senso crítico de toda uma geração de crianças e adolescentes, estaremos programando bombas do bem, que explodirão dentro de poucos anos, nos mais diferentes setores da sociedade, na forma de cidadãos mais éticos e mais exigentes.

Como uma corrente, proponho que esta idéia seja passada para o maior número possível de pessoas; e, espero que pais, professores, pastores, padres e rabinos desse país, promovam a reflexão sobre o tema em seus lares, escolas e paróquias.

Sim, nós podemos ensinar o abc da cidadania aos nossos pequenos, incluí-lo passo a passo em suas cartilhas, tornar o assunto leitura exigida para o vestibular e fazer do Direito Constitucional disciplina obrigatória em todos os cursos superiores.

Aos legisladores de plantão, apelo para que transformem essa idéia em norma positivada. E finalmente, ao povo brasileiro, lanço o desafio para que faça a devida pressão, caso essa sugestão seja ignorada por aqueles que podem e devem incluí-la em nosso ordenamento jurídico.

Humberto de Lima

sábado, 26 de setembro de 2009

Sobre Cantares, amor e sexo


”Como são lindos os seus pés calçados com sandálias, ó filha do príncipe!
As curvas das suas coxas são como jóias, obra das mãos de um artífice.
Seu umbigo é uma taça redonda onde nunca falta o vinho de boa mistura.
Sua cintura é um monte de trigo cercado de lírios.
...
Como você é linda! Como você me agrada! Oh, o amor e suas delícias!
Seu porte é como o da palmeira, e os seus seios como cachos de frutos.
Eu disse: Subirei à palmeira e me apossarei dos seus frutos.
Sejam os seus seios como os cachos da videira, o aroma da sua respiração como maçãs e a sua boca como o melhor vinho...”. Cantares 7:1,2,6-9.

 
Objeto de polêmica ao longo dos séculos, o livro de Cantares, quando não esquecido, tem sido lido com as lentes alegóricas dos rabinos e teólogos medievais, cujas interpretações continuam influenciando a maioria dos leitores em nossos dias.

Entretanto, uma leitura mais desarmada, facilmente nos leva a entender que o livro não sugere qualquer semelhança entre a jovem desejada da narrativa poética e a nação hebréia. Pelo contrário, no livro do profeta Oséias e em outras muitas passagens do Antigo Testamento, o povo hebreu é comparado a uma esposa adúltera, que trai o tempo todo, apesar de ter Jeová como um marido que persiste em oferecer possibilidades de reconciliação.

É igualmente descabida a idéia, ainda aceita por grande parte dos doutrinadores, de que o livro se refere ao amor de Cristo por sua igreja. Na verdade, a Bíblia compara Cristo e seus seguidores a um casal de noivos, cujo grande encontro, predito para algum lugar do futuro, é também comparado a uma cerimônia de casamento (¹). A relação vista em Cantares, ao contrário disto, não resulta em casamento, não tem duração significativa nem aparece posteriormente nas crônicas daquele período.

Qual terá sido a razão do insucesso de Salomão? Terá sido ele exigente demais em relação ao sexo oposto? Terá sido ele uma pessoa de difícil convivência na vida privada? Ou terá sua posição de homem mais rico do mundo dificultado a possibilidade de viver um relacionamento espontâneo, sem a influência dos interesses políticos e desconfianças da corte?

Trechos do livro de Eclesiastes revelam um Salomão que apesar de ter tido muitas mulheres, em sua velhice confessa não ter encontrado aquela. Já em outros pontos do mesmo livro, apesar de estar sempre cercado por muita gente, ele deixa transparecer certa solidão; e, sugere para os seus súditos que o fruto de tanto trabalho feito debaixo do sol só teria valido a pena se pudesse ser desfrutado junto com uma mulher amada (²).

Embora os estudiosos não sejam unânimes quanto à possibilidade da autoria salomônica de Cantares, tem razão LaSor, quando reconhece que o ambiente e o tom da obra, refletem com precisão a época e a glória do grande rei (³). E é navegando pela biografia do sábio monarca e explorando a intertextualidade em torno dela, que descobrimos duas possibilidades para o Cântico dos Cânticos:

1. Talvez o livro esteja mesmo falando sobre alguém por quem Salomão esteve apaixonado, sem um final feliz;
2. Talvez seja a narrativa, por ele mesmo escrita, uma descrição de como ele idealizava o amor; ou, provavelmente, uma forma de compensar seus fracassos nesta área da vida.

Finalmente, não posso abandonar o tema sem antes tecer algumas considerações sobre a razão de ser e a importância deste livro. Julgado dispensável pelos mais puritanos, Cantares tem uma mensagem a transmitir. Com ele, aprendemos, entre muitas outras coisas, que:

O dinheiro e as relações de poder podem trazer acompanhantes (Salomão tinha um harém) mas não garantem  a satisfação que somente se encontra no amor;

Além disso, é perfeitamente permitido falar e poetizar sobre o lado erótico do ser, sem entretanto, descer às raias do pornográfico nem ser excomungado pelo Divino.
.
Finalmente, Cantares nos leva a refletir sobre os conflitos, os prazeres e a beleza que só podem ser observados numa relação homem-mulher.

(¹) . Efésios 5:25-27; Apocalipse 22:17.
(²) . Eclesiastes 2:8; 7:28; 9:9.
(³) . LaSor, Willian - Introdução ao Antigo Testamento, Editora Vida Nova, p. 558.
Humberto de Lima

sábado, 19 de setembro de 2009

A chegada do doutor

Lembro como se tivesse acontecido hoje. Eu estava jogando bola de gude quando avisaram que o doutor iria chegar à ilha; foi um frenesi! Mulheres se agitaram, os homens fizeram uma roda para conversar sobre o assunto e as crianças logo se encarregaram de divulgar o lugar onde o homem atenderia ao povo.
.
Curioso, eu também queria ir lá para ver que novidade era aquela. À noite, acompanhei alguns adultos  da família e, na hora marcada, cheguei ao local da reunião. A dona da casa, com ares de gente importante, controlava a entrada das pessoas.
.
- Menino fica brincando do lado de fora! Me entreguem o tito! Preciso ver o tito de eleitor!
.
Sem entender o que estava acontecendo, fiquei mais curioso e dei um jeito de ir logo entrando. Passei pelo terraço apinhado de gente e fui parar numa sala que tinha mais gente ainda. Em cima de uma mesa grande, ví vários cortes de tecido, sobre os quais as mulheres iam colocando cartões cor de terra, que mais tarde descobri ser o tal tito cobrado lá na porta. Sentado, ao lado da mesa, estava um sujeito alto, cabelo com brilhantina e paletó azul marinho.

Lá pras tantas, a anfitriã apresentou o homem, disse que ele iria falar e o povo foi logo aplaudindo. Fiquei ali quietinho, vendo tudo num canto de parede.
.
O individuo levantou-se, desejou boa noite e começou sua fala. Observei que de pé, ele ficava três vezes maior. E foi falando, falando, falando...
.
Explicou que para ganhar um corte de fazenda, o dono de cada título deveria votar nele e colar um retrato dele em casa, na parede da frente. A maioria dos presentes acenou afirmativamente.
.
- Dotô! Exclamou uma senhora, levantando a mão.
.
- Eu preciso cobrir minha casinha de palha mas num tenho dinheiro pra comprar as telhas...
.
Houve um burburinho geral, várias pessoas tentaram falar ao mesmo tempo, mas o cara não perdeu o controle da situação. Com um aceno seguido de fala mansa, ele retomou a palavra, dizendo que esse tipo de pedido seria anotado no caderno para ser atendido logo depois da eleição.
.
Findo o discurso, um a um, os documentos foram devolvidos ao povo, juntamente com as peças de pano, seguidos de palmas, como numa cerimônia de entrega de certificados; e, uma mulher magra começou a anotar os pedidos do pessoal.
.
- Peçam como quem pede a Deus! - Falou um bêbado que estava sentado no chão por falta de cadeira suficiente.
.Saí de fininho e fui para a cozinha, onde o doutor, agora sem paletó, estava jantando com os seus acompanhantes, noutra mesa que de tudo tinha. Confesso que senti água na boca ao ver o camarão e aquele caranguejo ao molho de coco, mas voltei pra casa sem participar daquela comilança e sem ganhar corte de pano.
.
No dia seguinte, perguntei aos vizinhos qual era o trabalho daquele doutor, mas eles não souberam me dizer ao certo. O fato é que depois disso nunca mais o ví de novo.
.
Só depois que eu cresci, pude entender que naquela noite, pela primeira vez, eu havia sido apresentado a um novo mundo, até então desconhecido e cheio de safadezas.
.
Humberto de Lima

domingo, 13 de setembro de 2009

É tempo de ser cachorro


Um dia desses, depois de alguns anos, encontrei uma ex-colega de faculdade a quem fui logo perguntando:
- Como está o Andrônico?
- Não sei. Não estou mais com ele.
- Vocês namoraram tanto tempo...
- Mas descobri que ele é um cachorrão!
 
Nem pedi que ela me contasse detalhes do ocorrido; fiz algumas conexões com lembranças do passado e deduzi o que aconteceu a partir da descrição que ela fez do cara – cachorrão. Depois que ela foi embora, comecei a pensar: - Por que que chamar de cachorro um ex-noivo interesseiro, mentiroso e canalha? Não, os caninos não merecem tal comparação!
 
É igualmente injusto quando os norte-americanos, querendo xingar alguém, chamam a pessoa de "son of a bitch". Mesmo no cio, nenhuma cadela se assemelha a uma mulher vadia; pois na realidade, a cadela não fica com todos aqueles cães que a seguem durante dias. Trata-se de um processo seletivo em que pouco a pouco, pretendentes vão sendo eliminados; e, no final somente um terá acesso à relação de acasalamento.
 
Também não gosto quando os brasileiros, querendo se referir a um mau sujeito, dizem que ele é um filho do cão ou está com o cão no couro. Não vejo nos cães maldade nem malícia suficientes para compará-los ao capeta.
 
Com raras exceções de comportamentos agressivos que são na maioria das vezes instigados pelo bicho homem, a grande maioria desses animais vive produzindo manchetes boas, como estas:
· Cão salva dono de afogamento.
· Cão livra dona de morte.
· Cachorro salva gatinhos na Austrália.
· Cadela protege bebê abandonado pela mãe.
 
No filme Marley & Eu, baseado em livro homônimo, o autor narra o cotidiano de um casal que traz para dentro de casa um cachorro trapalhão. Apesar de toda a bagunça que provoca, Marley se torna querido de toda a família; e, sai da estória inspirando John Grogan a dizer:
 
“Um cachorro não precisa de carrões, de grandes casas nem de roupas de marca. Símbolos de status nada significam para ele. Um graveto já está ótimo. Um cachorro não se importa se você é rico ou pobre, inteligente ou idiota, esperto ou burro. Um cachorro não julga os outros por sua cor, credo ou classe social... Dê seu coração a ele e ele lhe dará o dele. É realmente muito simples, mas, mesmo assim, nós humanos, tão mais sábios e sofisticados, sempre tivemos problemas para descobrir o que realmente importa. De quantas pessoas você pode falar isso? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial?”
 
Por isso, peço: Não usem mais a palavra cachorro como sinônimo de gente ruim. E, lembrando de meu amigo Dick, cachorro de Biu Vaqueiro, que vinha dormir todas as noites aqui na porta da Igreja Batista, em verdade, em verdade vos digo:
 
Aprendei com os cachorros e sereis melhores humanos!
 
Humberto de Lima

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

No Tech Day

 
Você não consegue passar um dia sem telefone, jogos eletrônicos, computador, mp3, 4, 10..., televisão e outros apetrechos? 
 
Você fica irritadíssimo toda vez que sua conexão de internet cai, ainda que as interrupções não sejam tão freqüentes?
 
Quando a caminho do trabalho, depois de ter dirigido 10 quilômetros, você volta para pegar o celular ou um dos celulares que deixou em casa?
 
Você é do tipo que sempre leva laptop pra cama? Em suas noites, você tem acumulado mais horas de vídeo game do que horas de sono?
 
Seu desempenho no trabalho diminuiu e seus equipamentos de última geração nada lhe acrescentaram em termos de tempo livre?
 
Você checa e-mails enquanto almoça?
 
Você acaba de bater seu próprio recorde de downloads; e, em contrapartida, não lembra quando teve sexo com seu homem ou mulher? Ele ou ela já está reclamando que você anda bastante ausente e literalmente muito down?
 
SEUS PROBLEMAS APENAS COMEÇARAM! Você está viciado em tecnologia!
 
Dentre outros, você corre o risco de:
  1. Ficar mais doente; pois doente você já aparenta estar;
  2. Perder disciplinas na universidade ou ser contemplado com a cerimônia de jubilação (tem cerimônia pra isso?);
  3. Perder o emprego; seu patrão não vai lhe agüentar por muito tempo;
  4. Enfrentar brigas domésticas, receber um pedido de divórcio ou ver acontecer coisa pior;
MAS NÃO SE DESESPERE! Há uma saída!
 
Sugiro que você experimente viver um no tech day. Um dia na semana, longe dessas coisinhas eletrônicas, vai lhe mostrar que é perfeitamente possível saber lidar com elas.
 
À principio, você talvez fique nervoso, inquieto, queira subir nas paredes, vendo que a televisão e o computador permanecem desligados... Talvez seja melhor ir à praia, ao sítio, ao parque; pois se ficar em casa ou inventar de ir ao escritório a provação será bem mais difícil.
 
Se resistir á tentação e conseguir se acalmar, redescobrirá prazeres há muito esquecidos ou sentirá outros nunca experimentados. Tomar banho de sol ou de chuva, ter momentos de oração, conversar com o pessoal de casa, ler um livro, brincar com as crianças, passear de bicicleta, dar uma volta com o cachorro, fazer um serviço no quintal, cuidar de uma planta, tirar uma soneca depois do almoço...
 
Se não conseguir, procure ajuda profissional imediatamente; e, depois que estiver curado, tome cuidado para não ir de um extremo ao outro.
 
- Volte a navegar; e, de vez em quando, pare aqui no meu blog.
 
Humberto de Lima

sábado, 5 de setembro de 2009

Cometa

Voltas sem que eu te chame,
Chegas sem avisar,
És longo o suficiente para que eu saiba que vieste,
E curto demais para que te faças entender.

Quando apareces, te vejo bem real,
Quando te vais, deixas rastro de ficção.
Melhor assim, não te espero de novo;
Mas se retornas, não me importo.

Tua órbita prossegue em torno de mim;
Não cansas de mim?
Já te batizei e te dei um nome:
És apenas sonho bom,
Recorrente...

Humberto de Lima.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quando a alma é brasileira


Certa vez, um taxista de Miami me disse que não entendia porque alguns colegas cubanos, mesmo depois de estabilizados na cidade, não paravam de falar em Cuba. Expliquei que aqueles cubanos, diferentemente de outros, ainda que venham a morrer velhos e abastados na terra do Tio Sam, conservarão suas almas cubanas, para sempre cubanas.
 
Aquela conversa me fez lembrar que eu também carrego um sentimento forte, espiritual, vitalício, pelo torrão que me serviu de berço.
 
Do outro lado do Atlântico, já vi olhos e ouvidos de compatriotas ficarem em estado de alerta toda vez que as mídias falam da terra natal. E a tristeza bate à porta deles  quando as notícias que daqui recebem não são lá tão boas. São brasileiros de alma brasileira! Lá e cá, eles podem ser encontrados em todos os lugares.
 
Mas, o que significa ter uma alma genuinamente brasileira?
 
A alma é brasileira quando se revolta, diante da fama mundialmente alcançada, de que somos a nação do jeitinho, do serviço público ineficiente, dos juros exorbitantes, da insuportável carga tributária, do voto de cabresto, do coronelismo perpétuo e do paternalismo político-partidário.
 
A alma é brasileira quando exige a realização plena de seus direitos e protesta contra a corrupção, fortemente arraigada no mundo dos negócios e também na vida privada!
 
A alma é brasileira quando ensina valores às crianças; e estas, mais atentas ao exemplo do que ao discurso, aprendem que colar na prova é desonesto, furar a fila é desrespeitoso e subtrair bem alheio é crime.
 
A alma é brasileira quando entende que nosso país não pode contar com cidadãos que existiram há dois séculos atrás; pois eles já se foram. De igual modo, não podem agora ser úteis aqueles que irão nascer daqui a duzentos anos; eles ainda não chegaram!
 
A alma é brasileira quando descobre que somente nós temos o potencial para fazer acontecer as mudanças das quais tanto precisamos para o nosso tempo.
 
A alma é brasileira quando tira da cabeça a idéia de que Deus também é brasileiro. Cremos em Deus mas não acreditamos que ele seja brasileiro, assim como também não é norte-americano, nem argentino, nem britânico etc.

Reconhecemos ser indispensável a benção do Altíssimo mas sabemos que ele não vai premiar nossa mediocridade nem vai assumir responsabilidades que são inteiramente nossas! Temos problemas sérios e crônicos que devem ser enfrentados não somente com oração mas também com muito trabalho, estudo, vergonha na cara, participação política, voto sério e muito suor.

Que nossas almas se convertam a Ele e ao Brasil!

 
Humberto de Lima

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A minha ilha

Sinto saudade da ilha;
Pois tudo era mágico lá.
Tinha bichos no quintal,
E uma cerca de varas, com mangueira e trapiá.

A maré da ilha era um oceano,
Sua mata, minha Amazônia.
A gente entrava no mangue sem ter hora pra voltar;
Na caça de goiamum e de caranguejo uçá!

Às vezes Durango Kid, outras vezes Tarzan,
Na ilha eu era cacique, sem ter medo do amanhã.
Pra casa cheia de primos, vinham os filhos dos vizinhos,
E o barulho era contínuo, sem vontade de parar: brincar, brigar, brincar...

As meninas da ilha eram as mais bonitas do mundo!
Existia outro mundo além da ilha?
Por causa delas, dava vontade de crescer,
E de virar logo homem pra então casar e ver,
Como era esse negócio de marido e mulher...

Não!
Eu não quero vossa ilha!
Tenho saudades da minha,
Daquela que foi e nunca mais voltará a ser...

Humberto de Lima

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Jardilina

Oh Jardilina,
Eu te chamei e tu vieste,
Cá bem juntinho a mão me deste,
Te tive perto e foi tão bom!

Ai Jardilina,
Sem que eu entendesse foste embora,
Aí eu vi que homem chora,
Só ela ficou, a saudade de tu!

Sabe Jardilina,
Às vezes vejo que tu voltas,
Mas pela brecha o sol me chama,
Dizendo: - Zé, foi sonho teu!

Voa Jardilina,
Eu num te quero numa gaiola;
Aqui me aquieto, rede e viola;
Quem sabe um dia tu lembras d’eu...

Humberto de Lima

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Quase lá!

Às vezes goteja, água de sino;
Outras vezes, o assento vira rede e embala micro-sonhos.
Já pensamos na Lei das Doze Tábuas, tentamos trocar idéias com o Leviatã de Hobbes;
E, desejamos, intensamente, chegar lá!

Depois de tantas mudanças, Bat-Caverna, primeiro andar...,
O constitucional se sobrepôs ao infraconstitucional;
O PIB de Campina Grande não subiu;
Batemos um papo com São Tomás e ouvimos as confissões de Agostinho!
Eita vontade doida de chegar lá!

O trailer foi passado e avisou que o debate ia pegar fogo;
Um trenó chegou, trazendo o natal;
E nós perguntamos se este país tem futuro.
O pregador advertiu: - “Já fui como vocês e vocês serão como eu!”;
Melhor não esquecer a homilia; ela também nos ajuda a chegar lá!

Evasão é uma mulher feia, Elisão é uma linda miss;
Maria da Penha é lei;
E ainda há juizes em Berlim!
Com o processo andando, perto de ser coisa julgada;
os futuros bacharéis, pacientemente aguardam...

Humberto de Lima

sábado, 15 de agosto de 2009

Keep an eye on my wife

Eu trabalhava no Hotel Tambaú, em João Pessoa. Certo dia, um hóspede, um tanto preocupado, me procurou e disse:

- Humberto!
- Yes, Sir!
- Keep an eye on my wife!
- Eu?
- Sim. Vou passar quatro dias fora. Por favor, veja como ela se comporta. E se perceber alguma coisa errada, me diga quando eu voltar.

Qual terá sido o porquê daquele pedido? Seria a mulher dele uma pessoa doente, infiel, bizarra, excêntrica? Seria ele um cara ciumento, maluco ou apenas alguém preocupado com o bem estar da esposa?
Com aparência de alguém que beirava os trinta, a mulher se mostrava saudável. Era muito bonita e sorria sempre que passava pela recepção. Não falava nada em Português, nem em Espanhol, nem em Inglês; e, ainda que o soubesse, não teria tempo para parar e conversar com as pessoas. A filha manhosa, de cinco ou seis anos não a largava um instante, sempre puxando-a de um lado pra outro.

Quando o marido voltou, me perguntou?

- Ficou de olho nela?
- Without doubt, Sir!
- Tudo ok? Ela se comportou bem?
- Sim, penso que não há nada errado com sua mulher!

Soltando um assopro aliviado e satisfeito, o homem abriu a carteira e me deu cem dólares. Respondi que não era preciso me pagar por nada; mas ele enfiou o dinheiro no meu bolso, bateu no meu ombro e disse que guardasse para celebrar alguma coisa boa. À noite, passei pelo restaurante e vi os dois jantando felizes, enquanto a menina, cochilava no colo da mãe.

Nos dias que se seguiram, pareciam recém-casados em plena lua de mel; depois, voltaram para o velho continente. E eu, que na época ainda via o mundo com ingênuos olhos de menino, não perguntei nada, não entendi nada...
.
Humberto de Lima

Mais lidas na semana