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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

domingo, 30 de novembro de 2008

Os infelizes

Os dois se conheceram no luxuoso escritório de um famoso detetive particular. Sabe aquela coisa de você ir com a cara do outro logo de primeira? Pois foi exatamente isto que aconteceu! Um tanto constrangidos e ansiosos, era como se estivessem à procura de um ser semelhante, com dor semelhante, para então se sentirem normais e descobrir que não estavam sozinhos no mundo.

O tempo demorava a passar, duas senhoras haviam acabado de entrar, uma outra aguardava para ser atendida antes dos dois, e, as revistas e jornais não estavam prendendo a atenção deles naquela manhã. Puxar alguma conversa era o único jeito.

- Você já conhecia este escritório?
- Não. É minha primeira vez aqui, foi indicado por um amigo.

Papo foi e papo veio; os dois ficaram sabendo que o motivo que os trouxera àquela sala era exatamente o mesmo: ambos suspeitavam serem vítimas da traição feminina. Um deles, chamado de Oséias (tudo a ver com o profeta homônimo), acreditava estar sendo passado para trás pela esposa; o outro, se apresentou como Inocêncio e reclamava de uma namorada que provavelmente estava lhe enganando.

Oséias, que a principio só conseguia pensar em seu próprio problema, acabou sentindo pena do Inocêncio, ao ver que seu novo colega também sofria loucamente apaixonado, a ponto de perder o juízo.

Os dias passaram e as investigações prosseguiram. Consultado por telefone, o detetive garantiu aos dois que apesar das dificuldades do caso, sua equipe já estava em ação; porém, qualquer detalhe divulgado antecipadamente, poderia atrapalhar os trabalhos. Os dois novos amigos teriam que esperar; e entre uma e outra prosa, no café do calçadão, se consolavam mutuamente, com solidários desejos de boa sorte.

Numa segunda-feira, o detetive pediu que os dois comparecessem ao escritório, levando algumas informações adicionais; e, ao ver como eles conversavam animadamente, pediu que voltassem na sexta-feira, no mesmo horário. A semana se arrastou lentamente; e, na sexta, depois de se certificar que os dois estavam desarmados, os fez entrar juntos na sala.

O investigador, percebendo o jeito melancólico do Oséias, perguntou:

- O que você faria se eu lhe confirmasse que sua mulher realmente lhe trai com um amigo seu?
- Doutor, seria um sofrimento dobrado. Logo com um amigo meu!
- E você, Inocêncio? O que faria se eu lhe dissesse que sua namorada é casada e está tendo um caso com um terceiro elemento?
- Eu mato os dois, eu juro que mato os dois!

O detetive prosseguiu, falando em tom quase paterno:

- Oséias, se por um lado o sofrimento é dobrado, por outro, ele pode lhe deixar livre para começar vida nova.
- Inocêncio, não vale à pena a insensatez de matar alguém e virar criminoso por causa dessa situação infeliz. Lembre dos Dez Mandamentos, pense bem e decida melhor o seu destino!

Acionando o DVD Player, o profissional começa a mostrar o filme...

- Pois é, Oséias! Além de ter ficado com você e com o Inocêncio, a Cindy também está envolvida com esse terceiro individuo que agora aparece na tela!

Fora do vídeo, enquanto Oséias se derrama em lágrimas silenciosas, Inocêncio o abraça, chorando, urrando e gritando:

- Me perdoa Oséias! Eu não sabia de nada! Perdoa-me, homem!


Humberto de Lima

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