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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

domingo, 30 de novembro de 2008

Os infelizes

Os dois se conheceram no luxuoso escritório de um famoso detetive particular. Sabe aquela coisa de você ir com a cara do outro logo de primeira? Pois foi exatamente isto que aconteceu! Um tanto constrangidos e ansiosos, era como se estivessem à procura de um ser semelhante, com dor semelhante, para então se sentirem normais e descobrir que não estavam sozinhos no mundo.

O tempo demorava a passar, duas senhoras haviam acabado de entrar, uma outra aguardava para ser atendida antes dos dois, e, as revistas e jornais não estavam prendendo a atenção deles naquela manhã. Puxar alguma conversa era o único jeito.

- Você já conhecia este escritório?
- Não. É minha primeira vez aqui, foi indicado por um amigo.

Papo foi e papo veio; os dois ficaram sabendo que o motivo que os trouxera àquela sala era exatamente o mesmo: ambos suspeitavam serem vítimas da traição feminina. Um deles, chamado de Oséias (tudo a ver com o profeta homônimo), acreditava estar sendo passado para trás pela esposa; o outro, se apresentou como Inocêncio e reclamava de uma namorada que provavelmente estava lhe enganando.

Oséias, que a principio só conseguia pensar em seu próprio problema, acabou sentindo pena do Inocêncio, ao ver que seu novo colega também sofria loucamente apaixonado, a ponto de perder o juízo.

Os dias passaram e as investigações prosseguiram. Consultado por telefone, o detetive garantiu aos dois que apesar das dificuldades do caso, sua equipe já estava em ação; porém, qualquer detalhe divulgado antecipadamente, poderia atrapalhar os trabalhos. Os dois novos amigos teriam que esperar; e entre uma e outra prosa, no café do calçadão, se consolavam mutuamente, com solidários desejos de boa sorte.

Numa segunda-feira, o detetive pediu que os dois comparecessem ao escritório, levando algumas informações adicionais; e, ao ver como eles conversavam animadamente, pediu que voltassem na sexta-feira, no mesmo horário. A semana se arrastou lentamente; e, na sexta, depois de se certificar que os dois estavam desarmados, os fez entrar juntos na sala.

O investigador, percebendo o jeito melancólico do Oséias, perguntou:

- O que você faria se eu lhe confirmasse que sua mulher realmente lhe trai com um amigo seu?
- Doutor, seria um sofrimento dobrado. Logo com um amigo meu!
- E você, Inocêncio? O que faria se eu lhe dissesse que sua namorada é casada e está tendo um caso com um terceiro elemento?
- Eu mato os dois, eu juro que mato os dois!

O detetive prosseguiu, falando em tom quase paterno:

- Oséias, se por um lado o sofrimento é dobrado, por outro, ele pode lhe deixar livre para começar vida nova.
- Inocêncio, não vale à pena a insensatez de matar alguém e virar criminoso por causa dessa situação infeliz. Lembre dos Dez Mandamentos, pense bem e decida melhor o seu destino!

Acionando o DVD Player, o profissional começa a mostrar o filme...

- Pois é, Oséias! Além de ter ficado com você e com o Inocêncio, a Cindy também está envolvida com esse terceiro individuo que agora aparece na tela!

Fora do vídeo, enquanto Oséias se derrama em lágrimas silenciosas, Inocêncio o abraça, chorando, urrando e gritando:

- Me perdoa Oséias! Eu não sabia de nada! Perdoa-me, homem!


Humberto de Lima

sábado, 22 de novembro de 2008

Escolhas

 
Prefiro esquecer as performances deste mundo palco.
E ser... Simplesmente ser!

Prefiro não surfar a onda da descrença.
Nada de sufocar o grito dentro de mim: - Aba, Pai!

Prefiro não me limpar para só depois me relacionar com o Altíssimo; eu nunca conseguiria!
Vou me limpando à medida que dele me aproximo...

Prefiro não inspecionar ninguém!
É bem melhor admitir que somos todos obras inacabadas,
Construções ainda em andamento...

Prefiro amar do meu jeito a amar de jeito nenhum!
Meu amar está longe de ser perfeito, mas é amar assim mesmo!

Cada vez menos fariseu, cada vez mais publicano...
Vem comigo!

Humberto de Lima

sábado, 15 de novembro de 2008

E o tempo passou...

À medida que dezembro se aproxima, eu vou ficando mais reflexivo. É que meu balanço anual começa mais cedo e só termina em meados de janeiro. E isto me faz lembrar de uma matéria que vi na televisão, há algum tempo atrás:

Um grupo de amigos costumava jogar na loteria semanalmente. Juntos, mantinham um bolão e deixavam o dinheiro na mão de um deles, o tesoureiro da turma. Este se encarregava de fazer a aposta e depois prestava conta de tudo aos colegas. Certo dia, após conferir o resultado do sorteio, eles explodiram de alegria! Estavam milionários! Logo correram para a casa do outro, a fim de comemorar a fortuna...
Mas, ficaram decepcionados ao descobrir que o amigo não havia feito a aposta combinada. O que ele disse?

- Eu achava que ainda tinha bastante tempo... Deixei para fazer o jogo depois; e, quando me dei conta, a lotérica já estava fechada!

Em recente viagem à minha cidade de origem, encontrei pessoas que não via há muito. Gente que há dez anos atrás, dizia que precisava estudar e trabalhar para melhorar o padrão de vida; mas não foi à luta e ainda hoje continua na mesma. Gente que sabia da necessidade de começar uma dieta, fazer um tratamento de saúde, se exercitar; mas não fez nada e agora está em situação bem pior. Gente que havia prometido se cuidar em outras áreas da vida; mas foi adiando as coisas e agora está cada vez mais perdida. Comecei a pensar também em minhas pequenas e grandes covardias...

Quando achamos que temos tempo sobrando, perdemos o senso de urgência e passamos a deixar para depois até mesmo as decisões mais importantes de nossa existência. Da mesma forma como aquele grupo de apostadores perdeu a chance de desfrutar o grande prêmio, muitas pessoas já perderam amizades, dinheiro, saúde, emprego, e em alguns casos, morreram precocemente, simplesmente porque achavam que ainda tinham muito tempo pela frente.

Enquanto reviso esse texto, desejo a possibilidade de ter outro sábado; mas nós sabemos que este sábado, 15 de novembro de 2008, nunca mais se repetirá na história. Por isso, precisamos aproveitá-lo ao máximo, não deixando para depois coisas que cada um, individualmente, já resolveu que são importantes e necessárias para hoje.

Talvez seja hora de você tirar da gaveta o plano de descansar um pouco, voltar a caminhar,  ler aquele livro, ver aquele filme, enviar aquele email, ter aquela conversa, dar aquele abraço, praticar aquela boa ação, retornar àquela sala de aula, participar daquele concurso público, correr atrás daquela oportunidade, fazer aquela declaração de amor, viajar, cantar, tocar, dançar ou simplesmente ouvir aquela música, escrever aquele poema, fazer aquela festa...

Deus dá aos vencidos e aos vencedores, aos decididos e aos confusos, um mesmo dia de 24 horas, 1.440 minutos, 86.400 segundos. As mudanças, para pior ou para melhor, em muito dependerão do que você vai fazer com o seu tempo, agora!
Carpe Diem!
  
Humberto de Lima

domingo, 9 de novembro de 2008

A pomada milagrosa

É muito comum no interior, você ainda encontrar vendedores de ervas e porções milagrosas. Isso não é privilégio somente dos tempos de meu avô, quando vendiam xaropes que prometiam remoçar a pessoa em dez anos!

Pois bem, foi lá para as bandas do Planalto da Borborema que eu vi um desses comerciantes, enchendo a cidade com o anúncio que saía de seu carro de propaganda volante. Sendo um carro que anda, fica redundante dizer que é volante; mas, o sujeito insistia em dizer que era um carro de propaganda volante!

A gravação com voz impostada e bonita, transmitida pelo auto-falante, convidava o povo para comprar a Pomada Reumatizante. Isso, reumatizante! Poderia ser anti-reumática ou coisa parecida, mas era reumatizante mesmo!

Nas janelas, os velhinhos se animavam ao ouvir que a pomada servia para curar dor de cabeça, dor de dente, dor de ouvido, dor na coluna, tosse, febre, inchaços, problemas do sistema nervoso, pulmões, rins, baço, fígado, intestinos, úlceras, gastrite, todos os tipos de inflamações e um monte de outras mazelas que o locutor esqueceu de citar na hora da gravação. O preço era imperdível, coisa de brasileiro para brasileiro! Apenas um Real! E o povão comprando, cheio de esperança...

Não lembro se a publicidade falava sobre dor de cotovelo nem de impotência sexual, mas vi um camarada dizendo para outro companheiro de calçada que iria experimentar. Provavelmente, há tempos não dava conta do recado...

- Ora, se selve pra tanta coisa, deve sevir também pra meu probrema, né cumpade?

Amiga minha contou que um dia desses, o pneu do carro de propaganda volante furou e o cara estava sem o step. Desceu agitado, olhou para os lados, coçou a cabeça, e gritou:

- Merda de pneu! O que eu faço agora?

Um menino que ia passando, sorriu pra ele, e disse:

- Passa a Pomada!


Humberto de Lima

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Apesar do mundo...

 
Eu ainda quero...

Sentir o sol da manhã em meu rosto;
Tomar uma ducha, depois da corrida e do banho de suor;
Nadar nas águas de Tambaú e ver a cidade, de dentro do mar;
Deitar na praia e soltar o pensamento, empinar o pensamento;
Continuar ouvindo minhas músicas preferidas;
Poder mais uma vez saborear o cheiro de um livro novo;
Esconder-me num canto, onde sem medos, possa me abrir com Deus;

Escrever por prazer;
Descobrir que um leitor voltou trazendo mais alguém;
Cantar por cantar e receber como cachê sensações que só a música produz;
Tocar minha gaita no silêncio da noite;
Ver o espelho e continuar gostando de mim mesmo;
Encontrar os amigos - aqueles que amam em todo o tempo;
Ir outras vezes ao púlpito, e dele descer com a certeza de que levantei mais alguém...

Molhar canteiros;
Ter bichos no quintal;
Abençoar as crianças;
Reverenciar os mais velhos,
Deixar as mulheres entrar primeiro, sair primeiro, sentar primeiro;
Degustar sem pressa um sorvete ou pipoca depois da sexta-feira cansativa;
Deitar de noite e achar que meu dia valeu a pena.

Olhar pra trás, ver que a turbulência passou;
E apesar da vida, seguir vivendo...
 
Humberto de Lima

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