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"Um líder é alguém que conhece o caminho, vai pelo caminho e mostra o caminho". (John C. Maxwell).

sábado, 25 de outubro de 2008

Confissões




Eu já pensei que minha congregação era a única que tinha a verdade completa; as outras, quando muito, tinham apenas fragmentos da verdade.

Eu já preguei que todos aqueles que não pertenciam ao meu círculo denominacional estavam irremediavelmente perdidos.

Eu já me privei de muitos prazeres e alegrias nesta vida. Deixei de fazer coisas que o Livro Sagrado permite, em nome de um grupo que simplesmente proibia, sem que para tais proibições houvesse explicação lógica ou teológica.

Eu já dei mais importância ao exterior em detrimento do interior. Para mim, a roupa por cima da pessoa era muito mais importante do que a pessoa por dentro da roupa; e, apenas quem se encaixava nos bizarros modelos de nossa grife, era considerado santo! Assim, a língua comprida era perfeitamente tolerada, desde que o seu dono ou dona também usasse mangas compridas.

Eu já fui manipulado por pessoas que falavam em nome de Deus; e, em nome dele, fiz muita gente crer em coisas que Ele nunca disse nem escreveu.

Eu já fui do tipo que tudo aceitava cegamente, sem questionamentos. Meu senso crítico, na tentativa de se amoldar ao sistema, ficou preso, em regime fechado, por muitos anos.

Eu já fui daqueles que preferem carisma ao caráter. Não me preocupava muito o fato de o cara ser um velhaco; se ele tinha o dom de profecia, estava tudo bem.

Eu já fui daqueles que evitam contato com primos (os primos aqui, eram os membros de qualquer outra igreja que não fosse a minha); pois, não achava uma boa idéia me misturar com eles. Afinal, me ensinaram desde cedo que o Pai Celestial havia preparado o céu para os filhos apenas; os primos, apesar de serem um pouco parecidos com a gente, ficariam de fora.

Eu já repassei este conselho para adolescentes que nem ainda tinham concluído o ensino médio: - Você está sofrendo tentação? Sua única saída é casar logo para transar sem culpa!

Despreparados em todos os aspectos, eles se apressavam para o casamento, muitas vezes sem a convicção de que aquela pessoa e aquele momento eram realmente o que queriam. Tempos depois, começavam a estourar aqui e ali, casos de divórcio (para os mais corajosos), casos de adultério e casos crônicos de convivência insuportável, mantidos aos trancos e barrancos em nome da religião.

Eu já confundi evangelizar com ser chato. Mal uma pessoa se aproximava de mim, eu já ia tentando provar por A + B que ela estava errada e eu estava certo. Se quisesse estar certa também, a pessoa deveria passar imediatamente para o meu lado e se tornar minha irmã. Mas, alguns ficavam me olhando, como que a perguntar: - Como é que ele quer que eu seja irmão dele, se ele nem sabe ser meu amigo?

Eu confesso: Já fui assim!

Hoje em dia faço parte de uma comunidade cristã porque penso que a beleza da fé consiste em ter amigos, com quem eu possa caminhar estrada a fora. Apenas abandonei aquele velho estilo de vida, e, junto com ele, deixei também um monte de costumes, ideias e crenças nas quais não acredito mais. É claro que ainda tenho comigo algumas marcas de feridas sofridas naquele tempo, e alguns defeitos que insistem em continuar fazendo parte de mim...

Então, se você me perguntar o que eu sou agora... Bem, estou longe de quem eu era e ainda muito distante de quem eu gostaria de ser. Mas carrego na mochila uma enorme vontade de viver e vou aprendendo enquanto vivo, um dia de cada vez, como ensinou o Mestre.

Humberto de Lima.

sábado, 18 de outubro de 2008

Quando um homem ama uma mulher...


Jornais do país inteiro noticiaram a morte da menina de quinze anos de idade, residente no ABC Paulista. Inconformado com o fim do relacionamento, o ex-namorado a seqüestrou, manteve-a em cárcere privado por quase uma semana, e, em seguida a matou com um revólver. Razão alegada pelo autor do crime: Amor!

Seria este um caso isolado e raro? Não! Em artigo publicado na revista Consultor Jurídico, em 14 de outubro de 2002, Luiza Nagib Eluf nos informa que, de acordo com um levantamento feito pela ONG “União de Mulheres de São Paulo”, com base em dados das Delegacias de Policia, em 1998, pelo menos 2.500 mulheres já eram mortas por ano, no país, vítimas de crimes passionais. Sem querer dissertar sobre as implicações jurídicas, sociológicas, psicológicas e espirituais, envolvendo esse e outros casos, opto por seguir um caminho diferente. Prefiro aqui, uma abordagem a la Percy Sledge. Por isso digo:
 
Quando um homem ama uma mulher...
 
Ele não tenta ser o dono dela; pois ela não é coisa, é gente!

Ele não controla, não agride, não ameaça, não prende, não bate...

Ele sabe exatamente qual é a diferença entre lutar pelo seu amor e forçar a barra. Lutar sim, forçar jamais! Desconfie e fuja para bem longe do homem que lhe disser: - Você vai ficar comigo, haja o que houver, aconteça o que acontecer!

Ele a deixa livre para que se vá; e a recebe de novo, se ela volta por si mesma.

Ele não desatina nem se aniquila por causa de seu grande amor. Ao contrário disso, as boas lembranças dela o estimulam para que viva, siga em frente e vença na vida, sempre!

Ainda que envelheça e morra sem que haja um reencontro, ele partirá bem; pois afinal, quando chegar sua hora, saberá que não terá passado em vão por este mundo, e feliz, dirá para si mesmo: - Eu a amei!

Humberto de Lima

sábado, 11 de outubro de 2008

Crise mundial, no meu quintal!

Esta foi uma semana maluca!
Lá no lado de cima da linha do Equador, o índice Dow Jones despencou de novo e ferrou milhões de norte-americanos. Do lado de cá, o I-Bovespa acompanhou a queda iniciada na terra do Uncle Sam e lascou alguns brasileiros (investidores de curtíssimo prazo). Já os bancários, certos de que não há crise, resolveram que está na hora de exigir aumento e entraram em greve!

Problemão: Faltou dinheiro no caixa eletrônico, faltou dinheiro no meu bolso, e faltou ração no quintal. De manhã cedo, dei de cara com um piquete armado na porta dos fundos! O galo e todas as suas galinhas (ele agora está com quatro), acompanhados dos frangos, frangas, pintos e pintas, estavam revoltados, fazendo barulho e sujando minha calçada toda! Fazer barulho e muito cocô na minha calçada foi a melhor forma de protesto encontrada por eles. Além disso, começaram a me seguir aonde quer que eu fosse, com aquela convicção sindical de que “galinhas unidas jamais serão vencidas!” Apesar de não ser fluente no idioma delas, consegui entender que por trás daquilo tudo o grito era um só: - Queremos nosso milho, queremos nosso milho!

Solução: Sem nenhuma reserva no FMH – Fundo Monetário Humbertonical, recorri ao endividamento externo (sim, dívida externa!). Falei com o dono do mercadinho e ele me enviou meia saca de milho para pagamento posterior. Dentre as clausulas do nosso contrato (tácito, em razão de outros semelhantes, anteriormente firmados), fiz questão de incluir prazo ilimitado e não incidência de juros. Dessa maneira, o negócio se tornou perfeitamente viável para mim.
Em poucos minutos, o moto-boy chegou, trazendo a encomenda; e, minhas famélicas galináceas vibraram, cacarejando para todos os lados que eu sou o melhor dono do mundo!

Sugestão:

1. Se você tem ações na bolsa, não faça nada com elas agora. A época está boa para comprar mais, se você for um investidor de longo prazo. Se você queria um retorno mais rápido, se deu mal e não quer vender com prejuízo, espere também; pois vai levar um bom tempo até que as perdas sejam recuperadas.

2. Comprar roupas, calçados, eletrônicos e automóveis é bem diferente de comprar milho para galinha. Então, fuja dos crediários! Os juros estão altíssimos! Pratique a regra das 48 horas: Saia de perto daquela vitrine que lhe tenta com a possibilidade de comprar em 1001 vezes e corra pra casa. Se dois dias depois, o impulso não tiver passado, volte para a loja e seja feliz em seu novo endividamento.

3. Economize ao máximo, economize em tudo, até nos espirros! Afinal, não sabemos por quantas outras vezes essa semana maluca vai se repetir.

4. Se você seguir as minhas dicas, e, ainda assim, der tudo errado, não se desespere nem fique com raiva de mim. Eu lhe garanto que tudo passa e daqui a cem anos ninguém fala mais nisso...


Humberto de Lima

sábado, 4 de outubro de 2008

Vira, desvira e revira!


Depois de um dia inteiro lendo e escrevendo, nada melhor que um banho, um gostoso suco de maracujá e uma cama fofinha! Ali deitado, fazendo o balanço da quarta-feira e procurando relaxar para acordar bem na quinta, vou adormecendo aos poucos, quando, de repente:

- Praraaapapapapa! Pêi! Pôu! Praraaapapapapa! Bum! Bum!

O barulho é ensurdecedor. Parece um bombardeio, mas nós não estamos em guerra! Os tiros também não são para São João nem para São Pedro; pois já estamos em setembro! É terremoto? Não, a cama não está balançando! Não é terremoto! A rede elétrica explodiu? Não, pela vidraça da sala vejo que as luzes da cidade estão acesas e a rede elétrica não explodiu! Não é trovoada, não está chovendo, o céu está estrelado! O que terá acontecido, então?

Resolvo não abrir janela, não ir ao jardim; pois em meio a esse estrondo todo pode ser que haja uma bala perdida... Graças a Deus, aqui não temos problemas com bala perdida; mas, como bem dizia o meu avô Venâncio, Seguro morreu de velho e Desconfiado ainda é vivo! Decido me aquietar. Se houver acontecido uma coisa muito boa ou alguma desgraça, todos ficarão sabendo pela manhã; aliás, vale ressaltar que se for notícia ruim, chegará mais ligeiro.

Amanhece o dia, saio para caminhar, volto para casa, e nada... Ninguém diz nada, ninguém comenta nada... Só lá para o meio dia é que fico sabendo o motivo daquele estouro quase apocalíptico:

- Foi o Duvidécio que virou!
- Duvidécio virou? Quando? Onde? Como?
- É que ele ia votar em Totonho, mas agora passou para o lado de Chico...
- Ah, entendi...

As semanas se passaram e eu fui me acostumando com aquelas rajadas de fogos. Numa noite elas vinham do lado de Chico, na outra noite vinham do lado de Totonho. Tudo por causa do Duvidécio, que virava, desvirava e se revirava o tempo todo, se sentindo a celebridade da hora!

Numa cidade pequena e de campanha muito acirrada, um voto pode fazer a diferença entre a derrota e a vitória. Em quem o Duvidécio vai votar? Nem ele mesmo ainda sabe! Até lá, tudo pode acontecer, inclusive nada!

Enquanto isso, Totonho e Chico, na maior ansiedade, aguardam...


Humberto de Lima

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