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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

domingo, 28 de setembro de 2008

Há vagas!

 
Há vagas para candidatos com o seguinte perfil:

Que não seja anjo nem demônio; basta ser gente!

Que não me confunda com um telespectador de horário eleitoral gratuito. Não quero ouvir ninguém falando sobre as qualidades boas que tem. Prefiro vê-las!

Que me fale de seus próprios erros. Não me satisfaz apenas o fato de perceber que você é pecador; quero ouvir isso de sua própria boca. Quero ter certeza de que não estou me associando a um fariseu.

Que saiba ouvir, embora nem sempre saiba o que dizer. Você já viu coisa mais chata do que ter por perto aquele sujeito que acredita possuir todas as respostas para todas as perguntas? Vejo uma beleza sem igual quando alguém abre a boca e simplesmente fala: - Eu não sei!

Que não queira ser meu dono nem se comporte como se fosse propriedade minha; é muito mais interessante quando dois seres diferentes e livres, conseguem caminhar juntos, diferentes e livres.

Que seja tão homem ou tão mulher o suficiente para dizer: - Me perdoe! E, que após ouvir um pedido de desculpas, consiga falar: - Tudo bem!

Que não se acostume com o fundo do poço, ainda que lá tenha estado.
Que aproveite a vida, ainda que esta nem todo dia seja bela:
Saiba rir de si mesmo,
Aprecie a natureza,
Goste de música, prosa e poesia,
Seja mais um sonhador na Terra,
E embora não concordando com todas as minhas idéias, ainda queira sentar comigo.
  
Há vagas para novos amigos!

Humberto de Lima

domingo, 21 de setembro de 2008

Coisas de estudante

No antigo Colégio ABC em João Pessoa, depois de alguns dias treinando salto em distância, eu achei que poderia saltar longe, como faz atualmente a Maurren Maggi. Então, resolvi pular um lance de escadas para chegar mais rápido ao térreo e... Deu certo! Fiquei viciado naquilo; bastava terminar a aula e lá estava eu, literalmente planando em direção ao andar de baixo. Num desses vôos, enquanto eu ainda estava no ar, vi que um dos diretores estava subindo de cabeça baixa. Não tive como frear e minha tentativa de buzinar foi tardia, pois ao gritar CUIDA..., a próxima silaba foi abafada pelo estrondo do professor caindo, estatelado com uma pernada no peito! Não vi inchaços nem arranhões nem sangue, nem em mim nem nele; mas, ele continuava ali, estendido, sem forças. Depois de um tempo, começou a se mexer e foi se levantando devagarzinho.

- Me acompanhe até à sala da diretoria!
- Me diga seu nome, turma e número!
- Humberto Batista de Lima, Oitava Treze, número...
- Seu peste, se suas notas forem ruins, você vai ver. Agora saía daqui!

Deixei a sala e desci a escada, andando. Fui salvo pelas cadernetas.

UNS TEMPOS DEPOIS...

Iraquitan, uma das figuras mais divertidas que eu já vi na UFPB, foi comigo ao RU (Restaurante Universitário para uns e Recanto dos Urubus para os maledicentes). Chegamos atrasados e não conseguimos entrar, apesar da insistência. Lisos e famintos nos arrastamos lentamente em direção ao CCSA, onde teríamos aula. Passando pelo CCEN, vimos uma sala de onde saía barulho de festa e cheiro de comida. Botamos a cabeça pela janela e dissemos um para o outro: - Ei! É aqui, cara!
Fomos entrando, eu menos afoito, atrás. Lá dentro, uma mulher, perto da mesa cheia de coisas gostosas, era cumprimentada por todos. O Iraqui foi logo abraçando, beijando e dizendo:

- Feliz aniversário, professora!

A professora, que nunca tinha nos visto, nem mais magros nem mais gordos, recebeu de mim o mesmo tipo de honraria que lhe foi dada pelo meu colega e explicou, um tanto sem jeito:

- Não é aniversário não. É que estou indo fazer doutorado na Europa e a turma me presenteou com essa festa de bota-fora...

Matamos a fome ali mesmo!


POR FALAR EM BARRIGA CHEIA...

Uma amiga minha não via a hora de lanchar depois da aula, no centro de Campina Grande. Assim que teve uma chance, junto com as colegas, correu para a vendedora de churrasquinho.

- Você quer de frango, de boi... De que você quer?
- Quero de gato, mesmo!

Quando se deu conta, já tinha dito! Saiu assim, sem querer, daquele rostinho corado, com um sorriso vermelho!
A mulher resmungou alguma coisa, e, com um olhar meio atravessado, entregou a ela um espetinho de frango. Talvez o de gato já tivesse acabado ou estava faltando naquele dia.
Humberto de Lima.

domingo, 14 de setembro de 2008

A teologia do Zé

Ele aprendeu a ler com uma tia solteirona e é metido a bem informado. E é mesmo; pois ouve rádio, vê o noticiário da televisão e passeia todo dia pelo centro da cidade, a fim de ver o jornal e as revistas que são expostas na biblioteca pública. Gosta de filosofar, poetizar, e, quando me encontra, aproveita a oportunidade para teologar também. Embora nem sempre a gente concorde um com o outro; devo dizer que é gostoso ouvir a teologia do Zé! Assíduo leitor da Bíblia, ele abandonou o catolicismo, mas não virou protestante; pois acha que os crentes são uns chatos. E enche a boca, dizendo:

- Eu sou é um cristão livre!

E eu, tentando puxar brasa pra minha sardinha, vou logo respondendo:

- Calma Zé! A beleza da fé está na paciência que a gente tem um com o outro. Vamos caminhar juntos...

Mas o Zé é o Zé; não tem acordo com ele. Eu já me dou por satisfeito, tendo-o por perto, às vezes me fazendo perguntas, às vezes falando de suas lutas e inquietações.

- Você é um pregador que eu considero! – Diz ele, com sua voz de trovoada.

Pois bem; certo dia, admirou-me vê-lo calado, mão no queixo, distante, como se a alma tivesse saído do corpo. Fiquei ali, sem querer interrompê-lo, mexendo no meu celular, enquanto aguardava a vez para cortar o cabelo.

- Pastor!
- Que houve Zé?
- Você sabia que Deus fala no corpo da gente?
- Deus, no corpo da gente, falando... Como assim?

E ele continuou:

- Veja bem! Antes de você chegar, eu estava me olhando no espelho e vi que temos algumas coisas mais do que outras. Por exemplo: Dois ouvidos, uma boca, duas narinas, um coração, dois olhos, uma barriga só...

- E daí? – Indaguei curioso.

- E daí, eu entendi que devemos usar mais aquilo que temos de mais e economizar aquilo que temos de menos. Quando Deus nos deu dois olhos, dois ouvidos e uma boca só, a intenção dele era que a gente olhasse mais, ouvisse mais e falasse menos. E veja quanta desgraça se faz nesse mundo, por causa de certas pessoas que não sabem economizar na fala!

E ele:

- Porque será que temos duas narinas, duas pernas, dois braços e apenas uma barriga? Porque Ele queria dizer que devemos respirar mais, nos movimentar mais, comer menos, é claro! Imagine quantas pessoas estão agora gordas, doentes e batendo as botas porque comem de mais e se mexem de menos!

E ele de novo:

- Temos um único coração; e, a gente deveria poupá-lo de tanta coisa ruim. Você já percebeu como gastamos e maltratamos o bichinho sem dó nem piedade? É mágoa, ódio, inveja, intriga, descontrole... E, quando menos se espera, pôu! Enfartou!

E eu:

- Mas nós só temos uma cabeça...

E ele outra vez:

- Opa! Isso aqui é a cachola onde estão guardados os neurônios; você sabe que os neurônios são muitos e quanto mais a gente usa, melhor!

Balancei a cabeça, afirmativamente. Deus fala mesmo através do corpo!


Humberto de Lima

domingo, 7 de setembro de 2008

Jet Leg às avessas.


Fagundes, Recife, São Paulo, Dallas, Los Angeles, Ilha de Maui! Depois de muitas horas, incluindo o intervalo de espera entre um vôo e outro, finalmente lá estava eu, bem no meio do Oceano Pacífico, onde iria ficar por um tempo, estudando sobre liderança. Até que meu relógio biológico se adaptasse ao fuso horário local, experimentei um pouco de cansaço, dor de cabeça, sensação de náusea, vontade de dormir quando deveria estar acordado e vice versa. Eram sintomas do famoso jet leg, muito comum nas viagens intercontinentais. Lá chegando, procurei me expor ao máximo à luz natural, resistindo à tentação de deitar antes que a noite chegasse, e ingeri bastante líquido e comida leve. Por volta do quarto dia, eu já estava adaptado, com atividades em dois turnos, sem nenhum problema, com folga aos domingos.

As semanas voaram; e, ao final do curso, foi organizada uma festa das nações, da qual (foto, da esquerda para a direita) Eduardo Assencio, Eu, Osnir Ferreira, Alexandre Rossi, Silvio Esteves e Francisco Gortz, participamos, cantando um forró que fez levantar e balançar a gringada toda! Depois, houve um desfile; e eu fui indicado pelos colegas para conduzir o nosso pavilhão. Confesso que uma lágrima brotou quando naquela sala, recebi a bandeira verde-amarela das mãos do Dr. Aldo Fontao. E foi sentindo um misto de saudade e orgulho, que eu adentrei a passarela...

Finalmente, de volta pra casa, experimentei um jet leg às avessas, um jet leg bem diferente, cultural, social, político! Comecei a pensar:

- Aqui em meu país as ruas são esburacadas, motoristas não respeitam pedestres, funcionários públicos não atendem bem, vendedores olham primeiro para nossa roupa e depois decidem se vão nos dar atenção, bancos massacram a clientela com juros altos e filas intermináveis, o “jeitinho” e a "lei do Gerson" estão presentes em tudo o que é lugar...

Os sintomas desse meu outro jet leg foram indignação e tristeza, causadas pelas comparações que eu acabara de fazer. Hoje eu entendo porque muitos brasileiros sentem uma vontade enorme de voltar; mas, depois que chegam, sentem uma raiva igualmente grande. É o jet leg às avessas! Alguns reclamam muito e ficam insuportáveis nos primeiros dias; já outros ficam chatos para sempre...

Confesso que passados alguns anos depois daquela minha primeira viagem, ainda não me curei desse tipo de jet leg. Simplesmente não dá para ficar passivo diante de certas coisas do nosso tropicalíssimo jeito de ser! Por isso, vivo pregando, ministrando palestras, escrevendo sobre cidadania e fazendo o que posso para melhorar o lugar onde vivo.
 
Hoje é sete de Setembro e apesar de tudo, ainda amo o Brasil!

 
Humberto de Lima.

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