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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

domingo, 3 de agosto de 2008

Reflexões na canoa.


Era cedinho quando saí de casa. Junto com os filhos da vizinha, me dirigi ao quintal de Seu Nô, onde outros meninos nos esperavam em um ancoradouro com várias canoas atracadas. A maré cheia e o cheiro do manguezal me fascinavam. Tudo o que eu mais queria era explorar aquele mundo novo.  Os meninos mais experientes e mais afoitos entraram na água e logo desapareceram em um ponto onde o rio fazia a curva.

Sozinho, com água pela cintura, alcancei a primeira embarcação e fui saltando, uma por uma, até chegar à última delas, bem mais distante, num local que eu imaginava interessante para dar meu primeiro mergulho. Estava seguro. Havia pegado emprestado na biblioteca do Grupo Escolar um livro sobre natação que foi lido e relido em um único dia. 

Não tenho como descrever a agonia que senti! Desci, subi, desci de novo, engoli água, me debati; e, por fim, não sei como, desesperado e ofegante, consegui alcançar a canoa e voltar pra ela. Com meus treze anos de idade, deitei dentro do pequeno barco e assim fiquei por algum tempo, pensando assustado nas duas grandes verdades que acabara de descobrir:

1. Eu não era tão imortal o quanto pensava que era;
2. Eu teria que voltar para a água, se quisesse aprender a nadar.

Chamei um dos colegas que se aproximava e lhe contei tudo. Ele me disse: - Beto, tu tá doido? Aqui é muito fundo pra quem ainda não sabe nada! Tem que voltar pro raso e começar por lá!. Então, respeitando a natureza, comecei a ensaiar minhas primeiras braçadas. Alguns dias depois eu já nadava como os outros!
 
E o livro? O livro não era ruim. Mostrava com figuras os diferentes estilos de nado e trazia outras informações interessantes. O meu problema foi pensar que tinha aprendido no livro uma coisa que eu só aprenderia na água!

Às vezes reclamamos que Deus não ensina nada, não fala nada, não diz nada em relação a algumas situações da vida. Mesmo a Bíblia, em alguns momentos somente nos apresenta princípios gerais de vivência, que parecem não se encaixar muito bem no caso específico. Por exemplo, onde na Bíblia você encontra respostas para perguntas como: Compro uma casa ou um apartamento? Vou ser ginecologista ou pediatra? Fico com Genoveva ou com Magnólia? É em situações assim que muitos correm atrás de “profetas” manipuladores e acabam se frustrando por seguir orientações que são dadas em nome do Altíssimo, sem que Ele tenha dito uma só palavra.

Embora eu admita a possibilidade de exceções, acredito ser regra de Deus silenciar em relação a algumas respostas que devem ser encontradas no vivenciar das circunstâncias de cada dia. Algumas lições devem ser aprendidas na água!
 
Imagine se seu pai tivesse segurado você no colo para evitar que você não sofresse nenhum tombo; você simplesmente estaria atrofiado e não teria aprendido a andar! Como um bebê que aprende a andar caindo e levantando, nossos erros e acertos nos serão úteis para o resto da vida.
 
Depois daquela experiência, eu escolhi tentar de novo e de novo até conseguir a façanha de deslizar suavemente por cima e também por baixo das águas do velho e ainda limpo Sanhauá. Assim é a existência. Use a fé , o bom senso e a inteligência que Deus lhe deu, enfrente a maré da vida e você e sairá nadando. 

Humberto de Lima

Um comentário:

Gustavo Almeida disse...

Se minha memória não estiver me traíndo, acredito que li este texto algum tempo atrás, mas naquele momento não me tocou tanto quanto agora. Parece ser o relato de uma experiência simples e aparentemente insignificante, mas a reflexão por trás das palavras ali escritas é muito profunda e intensa! Deixo o abraço deste amigo que nem sempre comenta seus textos, mas se trata de um assiduo leitor.

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