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"Quando a escola progride, tudo progride!". (Martinho Lutero).

sábado, 16 de agosto de 2008

Por onde anda Suelen?

Poucos olhares me marcaram como aquele olhar e poucos sorrisos foram adicionados ao HD de meu cérebro de forma tão permanente. Ao vê-la pela primeira vez não tive dúvida de que estava encontrando uma pessoa de bem com a vida. E era mesmo!

Quando a conheci, fui logo perguntando se ela trabalhava e estudava. Ela disse que trabalhava numa loja, mas estava impedida de estudar por causa do emprego.
Contou que se num dia trabalhava das 9:00 às 18:00, no outro dia deveria estar lá das 13:00 às 22:00, sempre com uma hora de intervalo para almoço ou jantar. As folgas aconteciam uma vez por semana em dias incertos, com direito a um domingo livre por mês.

Sugeri então que ela solicitasse do chefe a possibilidade de ter um horário fixo, que lhe permitisse estudar pela manhã ou à noite. Ela disse que já tinha falado com o gerente; mas, ouviu que a empresa queria colaboradores que se dedicassem em tempo integral. De outra forma, como poderiam contar com suas horas extras?

- Isso é injusto. Deveriam te deixar trabalhar num horário e estudar em outro! – Desabafei enquanto a escutava.

Assim, como quem levanta um cobertor, fui pouco a pouco descobrindo os problemas e os sonhos daquela moça pobre, saída de uma escola pública medíocre. Ela vivia com a mãe desempregada e um irmão menor; pois o pai havia ido embora para viver com outra mulher lá para as bandas de Pernambuco. Em sua lista de desejos estava um cursinho pré-vestibular, a vontade de ser jornalista, a compra de uma casa... Sonhava também casar com Heitor, rapaz operário de uma indústria, com história bem parecida com a dela, cuja foto carinhosamente carregava na bolsa.

E prossegui, argumentando que ela não conseguiria muita coisa se continuasse trabalhando para o mesmo patrão. Ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, enquanto, enquanto me mostrava uma pasta com várias cópias de seu magrinho currículo.

- Hoje é dia de trabalhar de tarde, mas eu aproveito para ir à luta de manhã!
- Se for persistente, você vai conseguir!

Nas poucas vezes em que a ví não tive o cuidado de lhe dar e-mail nem telefone. Como gostaria de ter acompanhado aquela história! Ela sumiu. Será que a transferiram para outra loja? Será que já conseguiu outro emprego? E o cursinho? E o vestibular? E a casa nova? E o Heitor? Já faz tanto tempo! Por onde andam?

Anos depois, lembrando da história, fico zangado porque sei que isso continua se repetindo do Oiapoque ao Chuí. Por isso, apelo aos Senhores Deputados de plantão para que elaborem um projeto de lei proibindo que lojas e fábricas continuem fazendo com outras meninas e rapazes a mesma coisa que fizeram com Suelen! Vamos acabar com esse abuso! Nossos jovens de 18 a 30 anos precisam ter horários de trabalho fixos para que possam frequentar a escola ou faculdade!

Humberto de Lima

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