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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

sábado, 23 de agosto de 2008

A outra

O caso já tinha algumas semanas e a esposa andava meio desconfiada. O esposo passava todos os dias e o dia todo correndo para dar conta dos negócios da família; e era pura vitalidade! Mas, quando a noite chegava e junto com ela a hora boa de deitar, o maridão mudava de aparência, ficava cansado, tinha dor de cabeça, caía dormindo igual a um leão atingido por uma injeção de tranqüilizantes.

Era só mudança de aparência mesmo; pois, assim que a mulher dormia (e o sono dela era pesado), ele levantava de mansinho, saia na ponta do pé e corria para o lugar de sempre, onde a outra já o esperava sem fazer barulho.

Já cansada de tentar seduzi-lo, ela deitou, pensando em no outro dia desabafar com alguma amiga ou contratar alguém que a ajudasse a descobrir o mistério. Ele, como das outras vezes, ressonava alto; mas naquela noite, para ela o sono vinha e ia embora de novo, fazendo-a dormir e acordar a cada meia hora. De repente, passou a mão pela cama, procurando o corpo de seu homem e não achou nada, se beliscou para ficar certa de que não estava sonhando, e tateando, viu que o lado onde ele dormia já estava frio.

- Faz tempo que ele saiu! – Disse pra si mesma, enquanto se erguia bem devagar, para achá-lo.

Calçando pantufas, lentamente, sem acender luzes, ela foi vasculhando cada aposento da casa, sem encontrar nada no térreo. Só faltava ver o andar de cima; e, sem hesitar, continuou sua busca, disposta a dar uma surra na invasora, tão logo os flagrasse.
Ao ver a cena que acontecia dentro do escritório, se jogou sobre a outra, agarrando-a e atirando-a ao chão. Lançou mão de uma ferramenta que o marido havia esquecido sobre a estante e começou a bater compulsivamente. Ele até tentou segura-la, mas o pior acabou acontecendo! Diferente do que vemos naqueles filmes americanos em que a polícia sempre aparece no final, ninguém ouviu nada, ninguém interveio. Da outra não restou software nem hardware.

No dia seguinte, depois de uma conversa mais amena, ele jurou que não iria mais trocar sua mulher por uma máquina; e ela, garantiu que nunca mais iria destruir computadores.

À noite, já reconciliados, enquanto bem acordados faziam tudo o que ela mais queria, ele não se conteve e gritou:

- Mulher, como eu estava perdendo tempo com aqueles jogos eletrônicos!
- O quê?
- Você é demais!
- Oi?
- Você é tão boa! Muito boa!
- Oh, yes!



Humberto de Lima

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