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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

domingo, 31 de agosto de 2008

Fila de Banco.

O guarda desconfiado põe a mão no cabo do revólver; ele parece mais assustado do que desconfiado.
Uma pessoa muito religiosa chega, e, farisaicamente, vai furando a fila. Por causa disso, a mulher que veio da zona rural, dispara uma, dispara duas, dispara várias rajadas de palavrões.
O adolescente de boné azul come com os olhos a morena da outra fila; ela faz questão de responder, exibindo a aliança de dimensões pneumáticas.
O homem gordo de trás berra ao celular, talvez querendo que todo mundo saiba que ele tem empregados.
A velhinha cansada chega e acaba descobrindo que a fila das velhinhas já está cheia de outras velhinhas e não anda.
O cara grande da frente é um office boy, cheio de pacotes com coisas do patrão para resolver. Vai demorar até que ele deixe o balcão; mas, a opção para quem vem logo depois é esperar ou deixar tudo para outro dia.
Um casal briga bem alto, como se mais ninguém estivesse ali. Felizmente, não falam de coisas mais íntimas; porém o banco inteiro fica sabendo que ela não confia mais nele e vai desfazer a conta conjunta!
Fora da fila, um sujeito com ares de quem está completamente perdido, pede ajuda a um estranho. Fico torcendo para que o estranho seja apenas um estranho.

Eu observo tudo e a mulher de óculos me observa...

- Isso é lugar de gente? Vejam só onde mãe me pariu! – Reclama um coroa baixinho.

Alguém começa a falar mal do presidente Lula, outro diz que o culpado por essa demora é o governador; e, outro ainda, esbraveja dizendo que se os vereadores e o prefeito não fizerem nada, quem estiver mais distante é que não vai fazer mesmo!
Para minha surpresa, o office boy não demora muito; talvez aquele pacote estivesse ali somente para lhe fazer companhia. Menos mal!
Quando chega a minha vez, tento ser simpático, digo boa tarde e abro um sorriso para a moça do caixa, na esperança de fazer daquele momentinho um momentinho mais agradável. Não sei o que fizeram com ela antes que eu chegasse. O sorriso bate, mas não volta.

- O senhor vai ter que ir para outra fila!
- Por quê?
- Aqui só recebemos até três pagamentos! A menina está aí avisando!
- Moça, eu lhe peço que receba tudo desta vez porque a menina não me disse nada.

Chamo a menina e ela justifica sua ausência, dizendo que não tinha mesmo me avisado nada porque fora chamada para ir até à sala da gerência. Finalmente, meus quatro pequenos pagamentos são efetuados.

Cinqüenta e dois minutos depois de minha chegada à agência, eu saio do balcão, meneando a cabeça... A mulher de óculos pisca o olho pra mim e diz, ironicamente:

- Viva o Brasil!



Humberto de Lima

Um comentário:

Pr. Francineudo disse...

Prezado colega,

Parabéns pela sua exelente crônica "Fila de banco"!
A gente se vê em Cuité, por ocasião da reunião da ACIBAP.
Até a próxima!

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