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"Tudo que você tiver que ser, seja bom!". (Abraham Lincoln).

domingo, 31 de agosto de 2008

Fila de Banco.

O guarda desconfiado põe a mão no cabo do revólver; ele parece mais assustado do que desconfiado.
Uma pessoa muito religiosa chega, e, farisaicamente, vai furando a fila. Por causa disso, a mulher que veio da zona rural, dispara uma, dispara duas, dispara várias rajadas de palavrões.
O adolescente de boné azul come com os olhos a morena da outra fila; ela faz questão de responder, exibindo a aliança de dimensões pneumáticas.
O homem gordo de trás berra ao celular, talvez querendo que todo mundo saiba que ele tem empregados.
A velhinha cansada chega e acaba descobrindo que a fila das velhinhas já está cheia de outras velhinhas e não anda.
O cara grande da frente é um office boy, cheio de pacotes com coisas do patrão para resolver. Vai demorar até que ele deixe o balcão; mas, a opção para quem vem logo depois é esperar ou deixar tudo para outro dia.
Um casal briga bem alto, como se mais ninguém estivesse ali. Felizmente, não falam de coisas mais íntimas; porém o banco inteiro fica sabendo que ela não confia mais nele e vai desfazer a conta conjunta!
Fora da fila, um sujeito com ares de quem está completamente perdido, pede ajuda a um estranho. Fico torcendo para que o estranho seja apenas um estranho.

Eu observo tudo e a mulher de óculos me observa...

- Isso é lugar de gente? Vejam só onde mãe me pariu! – Reclama um coroa baixinho.

Alguém começa a falar mal do presidente Lula, outro diz que o culpado por essa demora é o governador; e, outro ainda, esbraveja dizendo que se os vereadores e o prefeito não fizerem nada, quem estiver mais distante é que não vai fazer mesmo!
Para minha surpresa, o office boy não demora muito; talvez aquele pacote estivesse ali somente para lhe fazer companhia. Menos mal!
Quando chega a minha vez, tento ser simpático, digo boa tarde e abro um sorriso para a moça do caixa, na esperança de fazer daquele momentinho um momentinho mais agradável. Não sei o que fizeram com ela antes que eu chegasse. O sorriso bate, mas não volta.

- O senhor vai ter que ir para outra fila!
- Por quê?
- Aqui só recebemos até três pagamentos! A menina está aí avisando!
- Moça, eu lhe peço que receba tudo desta vez porque a menina não me disse nada.

Chamo a menina e ela justifica sua ausência, dizendo que não tinha mesmo me avisado nada porque fora chamada para ir até à sala da gerência. Finalmente, meus quatro pequenos pagamentos são efetuados.

Cinqüenta e dois minutos depois de minha chegada à agência, eu saio do balcão, meneando a cabeça... A mulher de óculos pisca o olho pra mim e diz, ironicamente:

- Viva o Brasil!



Humberto de Lima

sábado, 23 de agosto de 2008

A outra

O caso já tinha algumas semanas e a esposa andava meio desconfiada. O esposo passava todos os dias e o dia todo correndo para dar conta dos negócios da família; e era pura vitalidade! Mas, quando a noite chegava e junto com ela a hora boa de deitar, o maridão mudava de aparência, ficava cansado, tinha dor de cabeça, caía dormindo igual a um leão atingido por uma injeção de tranqüilizantes.

Era só mudança de aparência mesmo; pois, assim que a mulher dormia (e o sono dela era pesado), ele levantava de mansinho, saia na ponta do pé e corria para o lugar de sempre, onde a outra já o esperava sem fazer barulho.

Já cansada de tentar seduzi-lo, ela deitou, pensando em no outro dia desabafar com alguma amiga ou contratar alguém que a ajudasse a descobrir o mistério. Ele, como das outras vezes, ressonava alto; mas naquela noite, para ela o sono vinha e ia embora de novo, fazendo-a dormir e acordar a cada meia hora. De repente, passou a mão pela cama, procurando o corpo de seu homem e não achou nada, se beliscou para ficar certa de que não estava sonhando, e tateando, viu que o lado onde ele dormia já estava frio.

- Faz tempo que ele saiu! – Disse pra si mesma, enquanto se erguia bem devagar, para achá-lo.

Calçando pantufas, lentamente, sem acender luzes, ela foi vasculhando cada aposento da casa, sem encontrar nada no térreo. Só faltava ver o andar de cima; e, sem hesitar, continuou sua busca, disposta a dar uma surra na invasora, tão logo os flagrasse.
Ao ver a cena que acontecia dentro do escritório, se jogou sobre a outra, agarrando-a e atirando-a ao chão. Lançou mão de uma ferramenta que o marido havia esquecido sobre a estante e começou a bater compulsivamente. Ele até tentou segura-la, mas o pior acabou acontecendo! Diferente do que vemos naqueles filmes americanos em que a polícia sempre aparece no final, ninguém ouviu nada, ninguém interveio. Da outra não restou software nem hardware.

No dia seguinte, depois de uma conversa mais amena, ele jurou que não iria mais trocar sua mulher por uma máquina; e ela, garantiu que nunca mais iria destruir computadores.

À noite, já reconciliados, enquanto bem acordados faziam tudo o que ela mais queria, ele não se conteve e gritou:

- Mulher, como eu estava perdendo tempo com aqueles jogos eletrônicos!
- O quê?
- Você é demais!
- Oi?
- Você é tão boa! Muito boa!
- Oh, yes!



Humberto de Lima

sábado, 16 de agosto de 2008

Por onde anda Suelen?

Poucos olhares me marcaram como aquele olhar e poucos sorrisos foram adicionados ao HD de meu cérebro de forma tão permanente. Ao vê-la pela primeira vez não tive dúvida de que estava encontrando uma pessoa de bem com a vida. E era mesmo!

Quando a conheci, fui logo perguntando se ela trabalhava e estudava. Ela disse que trabalhava numa loja, mas estava impedida de estudar por causa do emprego.
Contou que se num dia trabalhava das 9:00 às 18:00, no outro dia deveria estar lá das 13:00 às 22:00, sempre com uma hora de intervalo para almoço ou jantar. As folgas aconteciam uma vez por semana em dias incertos, com direito a um domingo livre por mês.

Sugeri então que ela solicitasse do chefe a possibilidade de ter um horário fixo, que lhe permitisse estudar pela manhã ou à noite. Ela disse que já tinha falado com o gerente; mas, ouviu que a empresa queria colaboradores que se dedicassem em tempo integral. De outra forma, como poderiam contar com suas horas extras?

- Isso é injusto. Deveriam te deixar trabalhar num horário e estudar em outro! – Desabafei enquanto a escutava.

Assim, como quem levanta um cobertor, fui pouco a pouco descobrindo os problemas e os sonhos daquela moça pobre, saída de uma escola pública medíocre. Ela vivia com a mãe desempregada e um irmão menor; pois o pai havia ido embora para viver com outra mulher lá para as bandas de Pernambuco. Em sua lista de desejos estava um cursinho pré-vestibular, a vontade de ser jornalista, a compra de uma casa... Sonhava também casar com Heitor, rapaz operário de uma indústria, com história bem parecida com a dela, cuja foto carinhosamente carregava na bolsa.

E prossegui, argumentando que ela não conseguiria muita coisa se continuasse trabalhando para o mesmo patrão. Ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, enquanto, enquanto me mostrava uma pasta com várias cópias de seu magrinho currículo.

- Hoje é dia de trabalhar de tarde, mas eu aproveito para ir à luta de manhã!
- Se for persistente, você vai conseguir!

Nas poucas vezes em que a ví não tive o cuidado de lhe dar e-mail nem telefone. Como gostaria de ter acompanhado aquela história! Ela sumiu. Será que a transferiram para outra loja? Será que já conseguiu outro emprego? E o cursinho? E o vestibular? E a casa nova? E o Heitor? Já faz tanto tempo! Por onde andam?

Anos depois, lembrando da história, fico zangado porque sei que isso continua se repetindo do Oiapoque ao Chuí. Por isso, apelo aos Senhores Deputados de plantão para que elaborem um projeto de lei proibindo que lojas e fábricas continuem fazendo com outras meninas e rapazes a mesma coisa que fizeram com Suelen! Vamos acabar com esse abuso! Nossos jovens de 18 a 30 anos precisam ter horários de trabalho fixos para que possam frequentar a escola ou faculdade!

Humberto de Lima

sábado, 9 de agosto de 2008

Os suspeitos.


Foi em Campina Grande. Uma silenciosa e quase mortífera explosão poluiu o espaço; e, uma risadinha se fez ouvir em meio ao barulho do shopping center.

- Aff! Foste tu? – Perguntou a moça.
- Eu não! – Respondeu o namorado.
- Tem certeza mesmo de que não foi você?
- É claro que tenho! Você não tem? – Revidou ele.
- Não tenho mesmo certeza de que não tenha sido você!
- Ah! Eu também tenho minhas dúvidas de que não tenha sido você, mas a minha certeza é de que não fui eu e pronto!
- Então, se não tiver sido um de nós dois, quem terá sido?
- O rapaz...

Outra risadinha feminina aparece no ar.
- É, o rapaz! Pode ter sido ele mesmo!
- Sei lá, ele está lendo e parece tão sério...
- E desde quando leitura e seriedade garantem que não tenha sido ele?
- Hum... Você está tão interessado em me convencer de que foi ele...
- Ora, se temos certeza de que não fomos nós, tem que ter sido ele, é claro!

Uma terceira risadinha, e, eu me viro discretamente para ver os dois.
Descubro que no banco de trás não havia ninguém mais com eles; no banco da frente, apenas eu, minha caneta e minha agenda, escutando tudo. Eu também era suspeito!

Embora eu tivesse achado engraçada a discussão dos dois, resolvi não participar, deixando comigo mesmo minhas dúvidas e minhas certezas. Continuei lendo, sério, exatamente como a moça me havia observado.

Por falar em certezas, eu estava absolutamente seguro de que uma segunda explosão na mesma escala ou em proporção maior, acabaria por me expulsar daquele lugar. Por falar nisso, qual é o tipo de escala utilizado para medir flatulência? Felizmente não aconteceu mais.

Chegou a hora de ir para a faculdade. Deixei os dois lá, namorando, discutindo...
Depois de uma tarde chata, em que havia enfrentado várias filas, ainda lembrando daquela conversa, me peguei rindo, caminhando em direção ao ônibus.

Mas, quem foi? Quem sabe?


Humberto de Lima.

domingo, 3 de agosto de 2008

Reflexões na canoa.


Era cedinho quando saí de casa. Junto com os filhos da vizinha, me dirigi ao quintal de Seu Nô, onde outros meninos nos esperavam em um ancoradouro com várias canoas atracadas. A maré cheia e o cheiro do manguezal me fascinavam. Tudo o que eu mais queria era explorar aquele mundo novo.  Os meninos mais experientes e mais afoitos entraram na água e logo desapareceram em um ponto onde o rio fazia a curva.

Sozinho, com água pela cintura, alcancei a primeira embarcação e fui saltando, uma por uma, até chegar à última delas, bem mais distante, num local que eu imaginava interessante para dar meu primeiro mergulho. Estava seguro. Havia pegado emprestado na biblioteca do Grupo Escolar um livro sobre natação que foi lido e relido em um único dia. 

Não tenho como descrever a agonia que senti! Desci, subi, desci de novo, engoli água, me debati; e, por fim, não sei como, desesperado e ofegante, consegui alcançar a canoa e voltar pra ela. Com meus treze anos de idade, deitei dentro do pequeno barco e assim fiquei por algum tempo, pensando assustado nas duas grandes verdades que acabara de descobrir:

1. Eu não era tão imortal o quanto pensava que era;
2. Eu teria que voltar para a água, se quisesse aprender a nadar.

Chamei um dos colegas que se aproximava e lhe contei tudo. Ele me disse: - Beto, tu tá doido? Aqui é muito fundo pra quem ainda não sabe nada! Tem que voltar pro raso e começar por lá!. Então, respeitando a natureza, comecei a ensaiar minhas primeiras braçadas. Alguns dias depois eu já nadava como os outros!
 
E o livro? O livro não era ruim. Mostrava com figuras os diferentes estilos de nado e trazia outras informações interessantes. O meu problema foi pensar que tinha aprendido no livro uma coisa que eu só aprenderia na água!

Às vezes reclamamos que Deus não ensina nada, não fala nada, não diz nada em relação a algumas situações da vida. Mesmo a Bíblia, em alguns momentos somente nos apresenta princípios gerais de vivência, que parecem não se encaixar muito bem no caso específico. Por exemplo, onde na Bíblia você encontra respostas para perguntas como: Compro uma casa ou um apartamento? Vou ser ginecologista ou pediatra? Fico com Genoveva ou com Magnólia? É em situações assim que muitos correm atrás de “profetas” manipuladores e acabam se frustrando por seguir orientações que são dadas em nome do Altíssimo, sem que Ele tenha dito uma só palavra.

Embora eu admita a possibilidade de exceções, acredito ser regra de Deus silenciar em relação a algumas respostas que devem ser encontradas no vivenciar das circunstâncias de cada dia. Algumas lições devem ser aprendidas na água!
 
Imagine se seu pai tivesse segurado você no colo para evitar que você não sofresse nenhum tombo; você simplesmente estaria atrofiado e não teria aprendido a andar! Como um bebê que aprende a andar caindo e levantando, nossos erros e acertos nos serão úteis para o resto da vida.
 
Depois daquela experiência, eu escolhi tentar de novo e de novo até conseguir a façanha de deslizar suavemente por cima e também por baixo das águas do velho e ainda limpo Sanhauá. Assim é a existência. Use a fé , o bom senso e a inteligência que Deus lhe deu, enfrente a maré da vida e você e sairá nadando. 

Humberto de Lima

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