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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Eles me chamavam de Beto.


A primeira casa era de taipa, coberta de palha, numa rua sem calçamento, onde corria água suja e a meninada com os pés descalços corria também. O quintal, como todos os outros, era bem grande, com coqueiros, trapiá e uma cerca de varas. Tínhamos galinhas, patos e outros bichos; além deles, meu irmão, sempre dava um jeito de adotar um gato. 

Por trás da rua ficava a mata de eucaliptos, por trás da mata de eucaliptos ficava a Mata da Graça e a linha do trem cortava a Ilha bem ao meio. Por volta dos doze anos, brincávamos de futebol, coruja, bola de fone, pião, cavalo de pau, policia e ladrão... Mas tudo isso era deixado de lado, em troca da mais recente descoberta: os banhos de rio!

Crescemos ouvindo que o Sanhauá era coisa pra gente grande; mas, a gente desobedecia e ia assim mesmo. Vez por outra, alguém morria afogado; então, os meninos iam ver o defunto e todos ficavam alguns dias sem sair de casa e sem querer comer siri. Era bom quando aparecia algum adulto que nos chamava para ir pescar e se responsabilizava por nós. Pouco a pouco, a idade da gente, os caranguejos, peixes, siris, aratus e goiamuns que levávamos pra casa, iam transformando a proibição em permissão.

Cabó, Mica, Bitel, Galego, Lindo... Todos tinham apelido e até hoje eu não sei qual era o nome verdadeiro de alguns deles. As meninas cresciam também ali, misturadas com a gente, mas só na adolescência é que nos dávamos conta da importância delas. Lembro bem de um dia em que vários de nós fomos a pé, se equilibrando sobre os trilhos da linha férrea, comprar limão na feira de Bayeux. Naquela época, nós acreditávamos que esfregar limão pelo corpo nos ajudaria a virar homens mais depressa! 


Durante a semana, tínhamos aula no Grupo Escolar Raul Machado e, aos domingos, quem era católico ia para a missa e quem era protestante ia para a escola dominical na Igreja Presbiteriana, na Igreja Batista ou na Assembléia de Deus.

Em casa, a vida era muito simples. Meu pai era do Corpo de Bombeiros, minha mãe vendia carvão e meu avô era aposentado pelo antigo Funrural. De manhã, comíamos sempre pão, café e manteiga; nas outras refeições, tínhamos arroz, feijão, cuscuz, ovos e charque. As galinhas do quintal eram comidas aos domingos. Puxar água da cacimba foi tarefa da família durante muitos anos. Quando chegou água encanada no bairro, dava pra ouvir a celebração dos adolescentes: - Banho de chuvisco, banho de chuvisco!


Não tínhamos aparelho de TV e ninguém vendia jornal na vizinhança; um rádio velho instalado na cozinha trazia as notícias do mundo lá fora. Hoje dou graças a Deus por ter crescido ouvindo meu avô Venâncio dizer:

- Acredite em Deus, estude, trabalhe e nunca roube nada de ninguém!

Apesar das carências financeiras e das limitações que me eram impostas por uma religiosidade legalista, eu não me preocupava com o futuro. Contar semanas, meses e anos não era ocupação minha nem dos outros garotos. Faltava noção de tempo mas sobrava noção de vida! Eu e meus colegas gostávamos mesmo era de ser meninos naqueles tempos em que eles me chamavam de Beto!

Humberto de Lima

2 comentários:

Elisa de Lima disse...

Papai,

Eu gostei muito do texto. Muito legal! Agora eu entendo porque muitas pessoas ainda lhe chamam de Beto. Eu também concordo que todas as crianças cresçam ouvindo a Palavra de Deus.

Beijosssss!!

.....Elisa.♥.....

Agnaldo Gomes disse...

Amado Irmão,
Obrigado pela visita e comentário em meu blog.
Publiquei um novo artigo sobre Igreja x Politica, onde deixo o link do seu excelente artigo "os 10 mandamentos do eleitor" recomendadndo aos meus leitores.
Um abraço, na Paz do senhor,
Agnaldo

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