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"Eu penso que patriotismo é como caridade - Começa em casa!". (Henry James).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Deu tudo errado... E agora?

Quando as coisas não dão certo na vida, é bem mais fácil tentar encontrar um bode expiatório sobre o qual será lançada toda a culpa.

Algumas pessoas, por exemplo, se apegam às idéias fatalistas, para desta forma, explicar a realidade ruim que elas mesmas produziram. Neste caso, é muito comum ouvirmos frases do tipo: “Isso é o meu carma, é coisa do destino e não há nada que eu possa fazer para escapar disso...”. E assim seguem vida afora, tentando justificar seus fracassos e acomodação.

Outros preferem colocar toda a culpa no diabo; e o capeta, o tinhoso, o demo, o cão, acaba pagando por decisões que não tomou e opiniões que não deu. Não é difícil encontrar todos os dias um monte de gente, argumentando covardemente que tudo foi coisa do inimigo. Afinal, o bicho feio não vai mesmo achar ruim se você quer enganar a si mesmo dizendo que tudo foi obra dele...

Ainda temos um terceiro grupo, bem grande entre os cristãos: são aqueles que atribuem toda a derrota a Deus! Se algo falhou, não deu certo, não aconteceu ou aconteceu e foi horrível, foi porque Deus se omitiu e deixou de fazer a parte dele!

Tais opiniões nos colocam diante de um problema teológico aparentemente insolúvel, sobre o qual muitos acham melhor nem pensar; pois dá menos trabalho se agarrar a uma das três respostas prontas acima citadas e continuar, dessa forma, vivendo uma vida medíocre.

Sem querer ser simplista, gostaria de resumir aqui o que penso sobre o assunto:

1. Segundo a Bíblia (Tiago 4:7), embora o diabo realmente deseje o mal pra você, tentando-o nesta direção, ele pode ser resistido; e, quando resistido, acaba fugindo!

2. De acordo com a mesma Bíblia (Josué 24:14,15), embora Deus deseje o bem para a sua vida, Ele não impõe esse bem, aliás, deixa claro que você até pode, se quiser, seguir direção contrária.

Diante do exposto, não é muito inteligente afirmar que o destino já estava escrito nas estrelas. Sua história de vida está sendo escrita aqui, todos os dias; não pelos outros nem pelo demônio, nem por manipulação divina. Sua trajetória é resultado de suas escolhas, decisões, atitudes, teimosia para continuar como está ou determinação para mudar situações!

Às vezes, algumas circunstâncias fogem ao nosso controle; todavia, mesmo estas circunstâncias excepcionais acabam por oferecer duas diferentes opções: você se rende passivamente ou você reage e luta. A existência será menos complicada quando você tiver coragem para fazer por si mesmo, coisas que você pode e deve fazer. Aí sim, você poderá contar com Deus! Suas mãos estarão sempre estendidas para quem o busca e prontas para nos levar aos lugares aonde nós não conseguiríamos chegar sem Ele. Mas faça sua parte!

 Faça sua 
Humberto de Lima

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Eu e o acaso

Os cientistas não criaram nem inventaram as leis da natureza; eles simplesmente as descobriram. Uma vez descobertas, tais leis nos sugerem a necessidade de um legislador; pois afinal de contas, leis não surgem do nada, não se fazem sozinhas.

Sabemos que cada coisa é efeito de uma causa que lhe deu origem; por exemplo, por trás de uma tradução temos um tradutor que se esforçou para passar o conteúdo do livro original para nossa língua, por trás do livro original temos um escritor que laborou bastante para imprimir suas idéias sobre as folhas de papel, por trás do papel temos o fabricante que retirou da árvore a celulose necessária... Aqui, percebemos uma seqüência em que cada coisa é resultado de uma ação anterior, realizada por alguém inteligente. Para frente e também para trás, vemos uma corrente; e esta corrente nos sugere ser a árvore fruto da criatividade de alguém.

Por sua vez, a Biogênese nos mostra que toda vida é fruto de uma vida que a antecedeu! Até mesmo os bebês de proveta e os animais clonados se encaixam dentro desta realidade; pois nestes casos, o pessoal dos laboratórios nada cria, apenas extrai vida de vida. Outra vez, o Universo aponta para a possibilidade de uma vida maior, na qual podem estar escondidas nossas origens!

Já a Segunda Lei da Termodinâmica nos esclarece que elementos químicos, soltos aleatoriamente no Universo, tendem para a desorganização, para o caos. É como tomar uma caixa cheia de bolas de gude e despejá-las sobre a cabeça de alguém; elas simplesmente se espalharão de forma desordenada, sem nada criar... Mas quando olho para a natureza, fico admirado com a organização presente na anatomia humana! Muitas vezes nem sabemos os nomes das substâncias que ingerimos na última refeição; porém, nosso organismo sabe identificá-las, eliminando tudo o que é desnecessário, através das fezes e da urina. Mesmo quando esta eliminação não acontece rapidamente, os sintomas de intoxicação nos avisam que engolimos algo indevido; e isto nos leva a concluir que nossos corpos são corpos inteligentes e organizados! Portanto, se toda vida é derivada de uma outra vida, toda organização e organismo são igualmente derivados de outra organização e organismo que lhes foram anteriores.

Teólogos, juristas, compositores, poetas, romancistas e cronistas encontram espaço em minha agenda; pois sou muito eclético no que se refere à leitura. E como é bom saborear diferentes estilos de autores diversos como Philip Yancey, James C. Hunter, sem deixar de também citar brasileiros como Luis Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade! Por exemplo, em O monge o executivo, Hunter nos apresenta um dos mais belos trabalhos até hoje produzidos sobre liderança! Tome todas as letras do alfabeto e as coloque dentro de um vaso; depois, jogue-as para cima e deixe-as cair no chão: Você não conseguirá que elas por acaso, sequer formem o nome do livro. Se o uso da inteligência é indispensável para a produção de um bom texto, o mesmo é válido para explicar a beleza, a complexidade e o equilíbrio presentes em nossos corpos e na natureza como um todo.

Simplesmente não consigo crer no acaso! A idéia de Deus me parece muito mais lógica, racional, inteligente e humana!
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Humberto de Lima

domingo, 30 de novembro de 2008

Os infelizes

Os dois se conheceram no luxuoso escritório de um famoso detetive particular. Sabe aquela coisa de você ir com a cara do outro logo de primeira? Pois foi exatamente isto que aconteceu! Um tanto constrangidos e ansiosos, era como se estivessem à procura de um ser semelhante, com dor semelhante, para então se sentirem normais e descobrir que não estavam sozinhos no mundo.

O tempo demorava a passar, duas senhoras haviam acabado de entrar, uma outra aguardava para ser atendida antes dos dois, e, as revistas e jornais não estavam prendendo a atenção deles naquela manhã. Puxar alguma conversa era o único jeito.

- Você já conhecia este escritório?
- Não. É minha primeira vez aqui, foi indicado por um amigo.

Papo foi e papo veio; os dois ficaram sabendo que o motivo que os trouxera àquela sala era exatamente o mesmo: ambos suspeitavam serem vítimas da traição feminina. Um deles, chamado de Oséias (tudo a ver com o profeta homônimo), acreditava estar sendo passado para trás pela esposa; o outro, se apresentou como Inocêncio e reclamava de uma namorada que provavelmente estava lhe enganando.

Oséias, que a principio só conseguia pensar em seu próprio problema, acabou sentindo pena do Inocêncio, ao ver que seu novo colega também sofria loucamente apaixonado, a ponto de perder o juízo.

Os dias passaram e as investigações prosseguiram. Consultado por telefone, o detetive garantiu aos dois que apesar das dificuldades do caso, sua equipe já estava em ação; porém, qualquer detalhe divulgado antecipadamente, poderia atrapalhar os trabalhos. Os dois novos amigos teriam que esperar; e entre uma e outra prosa, no café do calçadão, se consolavam mutuamente, com solidários desejos de boa sorte.

Numa segunda-feira, o detetive pediu que os dois comparecessem ao escritório, levando algumas informações adicionais; e, ao ver como eles conversavam animadamente, pediu que voltassem na sexta-feira, no mesmo horário. A semana se arrastou lentamente; e, na sexta, depois de se certificar que os dois estavam desarmados, os fez entrar juntos na sala.

O investigador, percebendo o jeito melancólico do Oséias, perguntou:

- O que você faria se eu lhe confirmasse que sua mulher realmente lhe trai com um amigo seu?
- Doutor, seria um sofrimento dobrado. Logo com um amigo meu!
- E você, Inocêncio? O que faria se eu lhe dissesse que sua namorada é casada e está tendo um caso com um terceiro elemento?
- Eu mato os dois, eu juro que mato os dois!

O detetive prosseguiu, falando em tom quase paterno:

- Oséias, se por um lado o sofrimento é dobrado, por outro, ele pode lhe deixar livre para começar vida nova.
- Inocêncio, não vale à pena a insensatez de matar alguém e virar criminoso por causa dessa situação infeliz. Lembre dos Dez Mandamentos, pense bem e decida melhor o seu destino!

Acionando o DVD Player, o profissional começa a mostrar o filme...

- Pois é, Oséias! Além de ter ficado com você e com o Inocêncio, a Cindy também está envolvida com esse terceiro individuo que agora aparece na tela!

Fora do vídeo, enquanto Oséias se derrama em lágrimas silenciosas, Inocêncio o abraça, chorando, urrando e gritando:

- Me perdoa Oséias! Eu não sabia de nada! Perdoa-me, homem!


Humberto de Lima

sábado, 22 de novembro de 2008

Escolhas

 
Prefiro esquecer as performances deste mundo palco.
E ser... Simplesmente ser!

Prefiro não surfar a onda da descrença.
Nada de sufocar o grito dentro de mim: - Aba, Pai!

Prefiro não me limpar para só depois me relacionar com o Altíssimo; eu nunca conseguiria!
Vou me limpando à medida que dele me aproximo...

Prefiro não inspecionar ninguém!
É bem melhor admitir que somos todos obras inacabadas,
Construções ainda em andamento...

Prefiro amar do meu jeito a amar de jeito nenhum!
Meu amar está longe de ser perfeito, mas é amar assim mesmo!

Cada vez menos fariseu, cada vez mais publicano...
Vem comigo!

Humberto de Lima

sábado, 15 de novembro de 2008

E o tempo passou...

À medida que dezembro se aproxima, eu vou ficando mais reflexivo. É que meu balanço anual começa mais cedo e só termina em meados de janeiro. E isto me faz lembrar de uma matéria que vi na televisão, há algum tempo atrás:

Um grupo de amigos costumava jogar na loteria semanalmente. Juntos, mantinham um bolão e deixavam o dinheiro na mão de um deles, o tesoureiro da turma. Este se encarregava de fazer a aposta e depois prestava conta de tudo aos colegas. Certo dia, após conferir o resultado do sorteio, eles explodiram de alegria! Estavam milionários! Logo correram para a casa do outro, a fim de comemorar a fortuna...
Mas, ficaram decepcionados ao descobrir que o amigo não havia feito a aposta combinada. O que ele disse?

- Eu achava que ainda tinha bastante tempo... Deixei para fazer o jogo depois; e, quando me dei conta, a lotérica já estava fechada!

Em recente viagem à minha cidade de origem, encontrei pessoas que não via há muito. Gente que há dez anos atrás, dizia que precisava estudar e trabalhar para melhorar o padrão de vida; mas não foi à luta e ainda hoje continua na mesma. Gente que sabia da necessidade de começar uma dieta, fazer um tratamento de saúde, se exercitar; mas não fez nada e agora está em situação bem pior. Gente que havia prometido se cuidar em outras áreas da vida; mas foi adiando as coisas e agora está cada vez mais perdida. Comecei a pensar também em minhas pequenas e grandes covardias...

Quando achamos que temos tempo sobrando, perdemos o senso de urgência e passamos a deixar para depois até mesmo as decisões mais importantes de nossa existência. Da mesma forma como aquele grupo de apostadores perdeu a chance de desfrutar o grande prêmio, muitas pessoas já perderam amizades, dinheiro, saúde, emprego, e em alguns casos, morreram precocemente, simplesmente porque achavam que ainda tinham muito tempo pela frente.

Enquanto reviso esse texto, desejo a possibilidade de ter outro sábado; mas nós sabemos que este sábado, 15 de novembro de 2008, nunca mais se repetirá na história. Por isso, precisamos aproveitá-lo ao máximo, não deixando para depois coisas que cada um, individualmente, já resolveu que são importantes e necessárias para hoje.

Talvez seja hora de você tirar da gaveta o plano de descansar um pouco, voltar a caminhar,  ler aquele livro, ver aquele filme, enviar aquele email, ter aquela conversa, dar aquele abraço, praticar aquela boa ação, retornar àquela sala de aula, participar daquele concurso público, correr atrás daquela oportunidade, fazer aquela declaração de amor, viajar, cantar, tocar, dançar ou simplesmente ouvir aquela música, escrever aquele poema, fazer aquela festa...

Deus dá aos vencidos e aos vencedores, aos decididos e aos confusos, um mesmo dia de 24 horas, 1.440 minutos, 86.400 segundos. As mudanças, para pior ou para melhor, em muito dependerão do que você vai fazer com o seu tempo, agora!
Carpe Diem!
  
Humberto de Lima

domingo, 9 de novembro de 2008

A pomada milagrosa

É muito comum no interior, você ainda encontrar vendedores de ervas e porções milagrosas. Isso não é privilégio somente dos tempos de meu avô, quando vendiam xaropes que prometiam remoçar a pessoa em dez anos!

Pois bem, foi lá para as bandas do Planalto da Borborema que eu vi um desses comerciantes, enchendo a cidade com o anúncio que saía de seu carro de propaganda volante. Sendo um carro que anda, fica redundante dizer que é volante; mas, o sujeito insistia em dizer que era um carro de propaganda volante!

A gravação com voz impostada e bonita, transmitida pelo auto-falante, convidava o povo para comprar a Pomada Reumatizante. Isso, reumatizante! Poderia ser anti-reumática ou coisa parecida, mas era reumatizante mesmo!

Nas janelas, os velhinhos se animavam ao ouvir que a pomada servia para curar dor de cabeça, dor de dente, dor de ouvido, dor na coluna, tosse, febre, inchaços, problemas do sistema nervoso, pulmões, rins, baço, fígado, intestinos, úlceras, gastrite, todos os tipos de inflamações e um monte de outras mazelas que o locutor esqueceu de citar na hora da gravação. O preço era imperdível, coisa de brasileiro para brasileiro! Apenas um Real! E o povão comprando, cheio de esperança...

Não lembro se a publicidade falava sobre dor de cotovelo nem de impotência sexual, mas vi um camarada dizendo para outro companheiro de calçada que iria experimentar. Provavelmente, há tempos não dava conta do recado...

- Ora, se selve pra tanta coisa, deve sevir também pra meu probrema, né cumpade?

Amiga minha contou que um dia desses, o pneu do carro de propaganda volante furou e o cara estava sem o step. Desceu agitado, olhou para os lados, coçou a cabeça, e gritou:

- Merda de pneu! O que eu faço agora?

Um menino que ia passando, sorriu pra ele, e disse:

- Passa a Pomada!


Humberto de Lima

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Apesar do mundo...

 
Eu ainda quero...

Sentir o sol da manhã em meu rosto;
Tomar uma ducha, depois da corrida e do banho de suor;
Nadar nas águas de Tambaú e ver a cidade, de dentro do mar;
Deitar na praia e soltar o pensamento, empinar o pensamento;
Continuar ouvindo minhas músicas preferidas;
Poder mais uma vez saborear o cheiro de um livro novo;
Esconder-me num canto, onde sem medos, possa me abrir com Deus;

Escrever por prazer;
Descobrir que um leitor voltou trazendo mais alguém;
Cantar por cantar e receber como cachê sensações que só a música produz;
Tocar minha gaita no silêncio da noite;
Ver o espelho e continuar gostando de mim mesmo;
Encontrar os amigos - aqueles que amam em todo o tempo;
Ir outras vezes ao púlpito, e dele descer com a certeza de que levantei mais alguém...

Molhar canteiros;
Ter bichos no quintal;
Abençoar as crianças;
Reverenciar os mais velhos,
Deixar as mulheres entrar primeiro, sair primeiro, sentar primeiro;
Degustar sem pressa um sorvete ou pipoca depois da sexta-feira cansativa;
Deitar de noite e achar que meu dia valeu a pena.

Olhar pra trás, ver que a turbulência passou;
E apesar da vida, seguir vivendo...
 
Humberto de Lima

sábado, 25 de outubro de 2008

Confissões




Eu já pensei que minha congregação era a única que tinha a verdade completa; as outras, quando muito, tinham apenas fragmentos da verdade.

Eu já preguei que todos aqueles que não pertenciam ao meu círculo denominacional estavam irremediavelmente perdidos.

Eu já me privei de muitos prazeres e alegrias nesta vida. Deixei de fazer coisas que o Livro Sagrado permite, em nome de um grupo que simplesmente proibia, sem que para tais proibições houvesse explicação lógica ou teológica.

Eu já dei mais importância ao exterior em detrimento do interior. Para mim, a roupa por cima da pessoa era muito mais importante do que a pessoa por dentro da roupa; e, apenas quem se encaixava nos bizarros modelos de nossa grife, era considerado santo! Assim, a língua comprida era perfeitamente tolerada, desde que o seu dono ou dona também usasse mangas compridas.

Eu já fui manipulado por pessoas que falavam em nome de Deus; e, em nome dele, fiz muita gente crer em coisas que Ele nunca disse nem escreveu.

Eu já fui do tipo que tudo aceitava cegamente, sem questionamentos. Meu senso crítico, na tentativa de se amoldar ao sistema, ficou preso, em regime fechado, por muitos anos.

Eu já fui daqueles que preferem carisma ao caráter. Não me preocupava muito o fato de o cara ser um velhaco; se ele tinha o dom de profecia, estava tudo bem.

Eu já fui daqueles que evitam contato com primos (os primos aqui, eram os membros de qualquer outra igreja que não fosse a minha); pois, não achava uma boa idéia me misturar com eles. Afinal, me ensinaram desde cedo que o Pai Celestial havia preparado o céu para os filhos apenas; os primos, apesar de serem um pouco parecidos com a gente, ficariam de fora.

Eu já repassei este conselho para adolescentes que nem ainda tinham concluído o ensino médio: - Você está sofrendo tentação? Sua única saída é casar logo para transar sem culpa!

Despreparados em todos os aspectos, eles se apressavam para o casamento, muitas vezes sem a convicção de que aquela pessoa e aquele momento eram realmente o que queriam. Tempos depois, começavam a estourar aqui e ali, casos de divórcio (para os mais corajosos), casos de adultério e casos crônicos de convivência insuportável, mantidos aos trancos e barrancos em nome da religião.

Eu já confundi evangelizar com ser chato. Mal uma pessoa se aproximava de mim, eu já ia tentando provar por A + B que ela estava errada e eu estava certo. Se quisesse estar certa também, a pessoa deveria passar imediatamente para o meu lado e se tornar minha irmã. Mas, alguns ficavam me olhando, como que a perguntar: - Como é que ele quer que eu seja irmão dele, se ele nem sabe ser meu amigo?

Eu confesso: Já fui assim!

Hoje em dia faço parte de uma comunidade cristã porque penso que a beleza da fé consiste em ter amigos, com quem eu possa caminhar estrada a fora. Apenas abandonei aquele velho estilo de vida, e, junto com ele, deixei também um monte de costumes, ideias e crenças nas quais não acredito mais. É claro que ainda tenho comigo algumas marcas de feridas sofridas naquele tempo, e alguns defeitos que insistem em continuar fazendo parte de mim...

Então, se você me perguntar o que eu sou agora... Bem, estou longe de quem eu era e ainda muito distante de quem eu gostaria de ser. Mas carrego na mochila uma enorme vontade de viver e vou aprendendo enquanto vivo, um dia de cada vez, como ensinou o Mestre.

Humberto de Lima.

sábado, 18 de outubro de 2008

Quando um homem ama uma mulher...


Jornais do país inteiro noticiaram a morte da menina de quinze anos de idade, residente no ABC Paulista. Inconformado com o fim do relacionamento, o ex-namorado a seqüestrou, manteve-a em cárcere privado por quase uma semana, e, em seguida a matou com um revólver. Razão alegada pelo autor do crime: Amor!

Seria este um caso isolado e raro? Não! Em artigo publicado na revista Consultor Jurídico, em 14 de outubro de 2002, Luiza Nagib Eluf nos informa que, de acordo com um levantamento feito pela ONG “União de Mulheres de São Paulo”, com base em dados das Delegacias de Policia, em 1998, pelo menos 2.500 mulheres já eram mortas por ano, no país, vítimas de crimes passionais. Sem querer dissertar sobre as implicações jurídicas, sociológicas, psicológicas e espirituais, envolvendo esse e outros casos, opto por seguir um caminho diferente. Prefiro aqui, uma abordagem a la Percy Sledge. Por isso digo:
 
Quando um homem ama uma mulher...
 
Ele não tenta ser o dono dela; pois ela não é coisa, é gente!

Ele não controla, não agride, não ameaça, não prende, não bate...

Ele sabe exatamente qual é a diferença entre lutar pelo seu amor e forçar a barra. Lutar sim, forçar jamais! Desconfie e fuja para bem longe do homem que lhe disser: - Você vai ficar comigo, haja o que houver, aconteça o que acontecer!

Ele a deixa livre para que se vá; e a recebe de novo, se ela volta por si mesma.

Ele não desatina nem se aniquila por causa de seu grande amor. Ao contrário disso, as boas lembranças dela o estimulam para que viva, siga em frente e vença na vida, sempre!

Ainda que envelheça e morra sem que haja um reencontro, ele partirá bem; pois afinal, quando chegar sua hora, saberá que não terá passado em vão por este mundo, e feliz, dirá para si mesmo: - Eu a amei!

Humberto de Lima

sábado, 11 de outubro de 2008

Crise mundial, no meu quintal!

Esta foi uma semana maluca!
Lá no lado de cima da linha do Equador, o índice Dow Jones despencou de novo e ferrou milhões de norte-americanos. Do lado de cá, o I-Bovespa acompanhou a queda iniciada na terra do Uncle Sam e lascou alguns brasileiros (investidores de curtíssimo prazo). Já os bancários, certos de que não há crise, resolveram que está na hora de exigir aumento e entraram em greve!

Problemão: Faltou dinheiro no caixa eletrônico, faltou dinheiro no meu bolso, e faltou ração no quintal. De manhã cedo, dei de cara com um piquete armado na porta dos fundos! O galo e todas as suas galinhas (ele agora está com quatro), acompanhados dos frangos, frangas, pintos e pintas, estavam revoltados, fazendo barulho e sujando minha calçada toda! Fazer barulho e muito cocô na minha calçada foi a melhor forma de protesto encontrada por eles. Além disso, começaram a me seguir aonde quer que eu fosse, com aquela convicção sindical de que “galinhas unidas jamais serão vencidas!” Apesar de não ser fluente no idioma delas, consegui entender que por trás daquilo tudo o grito era um só: - Queremos nosso milho, queremos nosso milho!

Solução: Sem nenhuma reserva no FMH – Fundo Monetário Humbertonical, recorri ao endividamento externo (sim, dívida externa!). Falei com o dono do mercadinho e ele me enviou meia saca de milho para pagamento posterior. Dentre as clausulas do nosso contrato (tácito, em razão de outros semelhantes, anteriormente firmados), fiz questão de incluir prazo ilimitado e não incidência de juros. Dessa maneira, o negócio se tornou perfeitamente viável para mim.
Em poucos minutos, o moto-boy chegou, trazendo a encomenda; e, minhas famélicas galináceas vibraram, cacarejando para todos os lados que eu sou o melhor dono do mundo!

Sugestão:

1. Se você tem ações na bolsa, não faça nada com elas agora. A época está boa para comprar mais, se você for um investidor de longo prazo. Se você queria um retorno mais rápido, se deu mal e não quer vender com prejuízo, espere também; pois vai levar um bom tempo até que as perdas sejam recuperadas.

2. Comprar roupas, calçados, eletrônicos e automóveis é bem diferente de comprar milho para galinha. Então, fuja dos crediários! Os juros estão altíssimos! Pratique a regra das 48 horas: Saia de perto daquela vitrine que lhe tenta com a possibilidade de comprar em 1001 vezes e corra pra casa. Se dois dias depois, o impulso não tiver passado, volte para a loja e seja feliz em seu novo endividamento.

3. Economize ao máximo, economize em tudo, até nos espirros! Afinal, não sabemos por quantas outras vezes essa semana maluca vai se repetir.

4. Se você seguir as minhas dicas, e, ainda assim, der tudo errado, não se desespere nem fique com raiva de mim. Eu lhe garanto que tudo passa e daqui a cem anos ninguém fala mais nisso...


Humberto de Lima

sábado, 4 de outubro de 2008

Vira, desvira e revira!


Depois de um dia inteiro lendo e escrevendo, nada melhor que um banho, um gostoso suco de maracujá e uma cama fofinha! Ali deitado, fazendo o balanço da quarta-feira e procurando relaxar para acordar bem na quinta, vou adormecendo aos poucos, quando, de repente:

- Praraaapapapapa! Pêi! Pôu! Praraaapapapapa! Bum! Bum!

O barulho é ensurdecedor. Parece um bombardeio, mas nós não estamos em guerra! Os tiros também não são para São João nem para São Pedro; pois já estamos em setembro! É terremoto? Não, a cama não está balançando! Não é terremoto! A rede elétrica explodiu? Não, pela vidraça da sala vejo que as luzes da cidade estão acesas e a rede elétrica não explodiu! Não é trovoada, não está chovendo, o céu está estrelado! O que terá acontecido, então?

Resolvo não abrir janela, não ir ao jardim; pois em meio a esse estrondo todo pode ser que haja uma bala perdida... Graças a Deus, aqui não temos problemas com bala perdida; mas, como bem dizia o meu avô Venâncio, Seguro morreu de velho e Desconfiado ainda é vivo! Decido me aquietar. Se houver acontecido uma coisa muito boa ou alguma desgraça, todos ficarão sabendo pela manhã; aliás, vale ressaltar que se for notícia ruim, chegará mais ligeiro.

Amanhece o dia, saio para caminhar, volto para casa, e nada... Ninguém diz nada, ninguém comenta nada... Só lá para o meio dia é que fico sabendo o motivo daquele estouro quase apocalíptico:

- Foi o Duvidécio que virou!
- Duvidécio virou? Quando? Onde? Como?
- É que ele ia votar em Totonho, mas agora passou para o lado de Chico...
- Ah, entendi...

As semanas se passaram e eu fui me acostumando com aquelas rajadas de fogos. Numa noite elas vinham do lado de Chico, na outra noite vinham do lado de Totonho. Tudo por causa do Duvidécio, que virava, desvirava e se revirava o tempo todo, se sentindo a celebridade da hora!

Numa cidade pequena e de campanha muito acirrada, um voto pode fazer a diferença entre a derrota e a vitória. Em quem o Duvidécio vai votar? Nem ele mesmo ainda sabe! Até lá, tudo pode acontecer, inclusive nada!

Enquanto isso, Totonho e Chico, na maior ansiedade, aguardam...


Humberto de Lima

domingo, 28 de setembro de 2008

Há vagas!

 
Há vagas para candidatos com o seguinte perfil:

Que não seja anjo nem demônio; basta ser gente!

Que não me confunda com um telespectador de horário eleitoral gratuito. Não quero ouvir ninguém falando sobre as qualidades boas que tem. Prefiro vê-las!

Que me fale de seus próprios erros. Não me satisfaz apenas o fato de perceber que você é pecador; quero ouvir isso de sua própria boca. Quero ter certeza de que não estou me associando a um fariseu.

Que saiba ouvir, embora nem sempre saiba o que dizer. Você já viu coisa mais chata do que ter por perto aquele sujeito que acredita possuir todas as respostas para todas as perguntas? Vejo uma beleza sem igual quando alguém abre a boca e simplesmente fala: - Eu não sei!

Que não queira ser meu dono nem se comporte como se fosse propriedade minha; é muito mais interessante quando dois seres diferentes e livres, conseguem caminhar juntos, diferentes e livres.

Que seja tão homem ou tão mulher o suficiente para dizer: - Me perdoe! E, que após ouvir um pedido de desculpas, consiga falar: - Tudo bem!

Que não se acostume com o fundo do poço, ainda que lá tenha estado.
Que aproveite a vida, ainda que esta nem todo dia seja bela:
Saiba rir de si mesmo,
Aprecie a natureza,
Goste de música, prosa e poesia,
Seja mais um sonhador na Terra,
E embora não concordando com todas as minhas idéias, ainda queira sentar comigo.
  
Há vagas para novos amigos!

Humberto de Lima

domingo, 21 de setembro de 2008

Coisas de estudante

No antigo Colégio ABC em João Pessoa, depois de alguns dias treinando salto em distância, eu achei que poderia saltar longe, como faz atualmente a Maurren Maggi. Então, resolvi pular um lance de escadas para chegar mais rápido ao térreo e... Deu certo! Fiquei viciado naquilo; bastava terminar a aula e lá estava eu, literalmente planando em direção ao andar de baixo. Num desses vôos, enquanto eu ainda estava no ar, vi que um dos diretores estava subindo de cabeça baixa. Não tive como frear e minha tentativa de buzinar foi tardia, pois ao gritar CUIDA..., a próxima silaba foi abafada pelo estrondo do professor caindo, estatelado com uma pernada no peito! Não vi inchaços nem arranhões nem sangue, nem em mim nem nele; mas, ele continuava ali, estendido, sem forças. Depois de um tempo, começou a se mexer e foi se levantando devagarzinho.

- Me acompanhe até à sala da diretoria!
- Me diga seu nome, turma e número!
- Humberto Batista de Lima, Oitava Treze, número...
- Seu peste, se suas notas forem ruins, você vai ver. Agora saía daqui!

Deixei a sala e desci a escada, andando. Fui salvo pelas cadernetas.

UNS TEMPOS DEPOIS...

Iraquitan, uma das figuras mais divertidas que eu já vi na UFPB, foi comigo ao RU (Restaurante Universitário para uns e Recanto dos Urubus para os maledicentes). Chegamos atrasados e não conseguimos entrar, apesar da insistência. Lisos e famintos nos arrastamos lentamente em direção ao CCSA, onde teríamos aula. Passando pelo CCEN, vimos uma sala de onde saía barulho de festa e cheiro de comida. Botamos a cabeça pela janela e dissemos um para o outro: - Ei! É aqui, cara!
Fomos entrando, eu menos afoito, atrás. Lá dentro, uma mulher, perto da mesa cheia de coisas gostosas, era cumprimentada por todos. O Iraqui foi logo abraçando, beijando e dizendo:

- Feliz aniversário, professora!

A professora, que nunca tinha nos visto, nem mais magros nem mais gordos, recebeu de mim o mesmo tipo de honraria que lhe foi dada pelo meu colega e explicou, um tanto sem jeito:

- Não é aniversário não. É que estou indo fazer doutorado na Europa e a turma me presenteou com essa festa de bota-fora...

Matamos a fome ali mesmo!


POR FALAR EM BARRIGA CHEIA...

Uma amiga minha não via a hora de lanchar depois da aula, no centro de Campina Grande. Assim que teve uma chance, junto com as colegas, correu para a vendedora de churrasquinho.

- Você quer de frango, de boi... De que você quer?
- Quero de gato, mesmo!

Quando se deu conta, já tinha dito! Saiu assim, sem querer, daquele rostinho corado, com um sorriso vermelho!
A mulher resmungou alguma coisa, e, com um olhar meio atravessado, entregou a ela um espetinho de frango. Talvez o de gato já tivesse acabado ou estava faltando naquele dia.
Humberto de Lima.

domingo, 14 de setembro de 2008

A teologia do Zé

Ele aprendeu a ler com uma tia solteirona e é metido a bem informado. E é mesmo; pois ouve rádio, vê o noticiário da televisão e passeia todo dia pelo centro da cidade, a fim de ver o jornal e as revistas que são expostas na biblioteca pública. Gosta de filosofar, poetizar, e, quando me encontra, aproveita a oportunidade para teologar também. Embora nem sempre a gente concorde um com o outro; devo dizer que é gostoso ouvir a teologia do Zé! Assíduo leitor da Bíblia, ele abandonou o catolicismo, mas não virou protestante; pois acha que os crentes são uns chatos. E enche a boca, dizendo:

- Eu sou é um cristão livre!

E eu, tentando puxar brasa pra minha sardinha, vou logo respondendo:

- Calma Zé! A beleza da fé está na paciência que a gente tem um com o outro. Vamos caminhar juntos...

Mas o Zé é o Zé; não tem acordo com ele. Eu já me dou por satisfeito, tendo-o por perto, às vezes me fazendo perguntas, às vezes falando de suas lutas e inquietações.

- Você é um pregador que eu considero! – Diz ele, com sua voz de trovoada.

Pois bem; certo dia, admirou-me vê-lo calado, mão no queixo, distante, como se a alma tivesse saído do corpo. Fiquei ali, sem querer interrompê-lo, mexendo no meu celular, enquanto aguardava a vez para cortar o cabelo.

- Pastor!
- Que houve Zé?
- Você sabia que Deus fala no corpo da gente?
- Deus, no corpo da gente, falando... Como assim?

E ele continuou:

- Veja bem! Antes de você chegar, eu estava me olhando no espelho e vi que temos algumas coisas mais do que outras. Por exemplo: Dois ouvidos, uma boca, duas narinas, um coração, dois olhos, uma barriga só...

- E daí? – Indaguei curioso.

- E daí, eu entendi que devemos usar mais aquilo que temos de mais e economizar aquilo que temos de menos. Quando Deus nos deu dois olhos, dois ouvidos e uma boca só, a intenção dele era que a gente olhasse mais, ouvisse mais e falasse menos. E veja quanta desgraça se faz nesse mundo, por causa de certas pessoas que não sabem economizar na fala!

E ele:

- Porque será que temos duas narinas, duas pernas, dois braços e apenas uma barriga? Porque Ele queria dizer que devemos respirar mais, nos movimentar mais, comer menos, é claro! Imagine quantas pessoas estão agora gordas, doentes e batendo as botas porque comem de mais e se mexem de menos!

E ele de novo:

- Temos um único coração; e, a gente deveria poupá-lo de tanta coisa ruim. Você já percebeu como gastamos e maltratamos o bichinho sem dó nem piedade? É mágoa, ódio, inveja, intriga, descontrole... E, quando menos se espera, pôu! Enfartou!

E eu:

- Mas nós só temos uma cabeça...

E ele outra vez:

- Opa! Isso aqui é a cachola onde estão guardados os neurônios; você sabe que os neurônios são muitos e quanto mais a gente usa, melhor!

Balancei a cabeça, afirmativamente. Deus fala mesmo através do corpo!


Humberto de Lima

domingo, 7 de setembro de 2008

Jet Leg às avessas.


Fagundes, Recife, São Paulo, Dallas, Los Angeles, Ilha de Maui! Depois de muitas horas, incluindo o intervalo de espera entre um vôo e outro, finalmente lá estava eu, bem no meio do Oceano Pacífico, onde iria ficar por um tempo, estudando sobre liderança. Até que meu relógio biológico se adaptasse ao fuso horário local, experimentei um pouco de cansaço, dor de cabeça, sensação de náusea, vontade de dormir quando deveria estar acordado e vice versa. Eram sintomas do famoso jet leg, muito comum nas viagens intercontinentais. Lá chegando, procurei me expor ao máximo à luz natural, resistindo à tentação de deitar antes que a noite chegasse, e ingeri bastante líquido e comida leve. Por volta do quarto dia, eu já estava adaptado, com atividades em dois turnos, sem nenhum problema, com folga aos domingos.

As semanas voaram; e, ao final do curso, foi organizada uma festa das nações, da qual (foto, da esquerda para a direita) Eduardo Assencio, Eu, Osnir Ferreira, Alexandre Rossi, Silvio Esteves e Francisco Gortz, participamos, cantando um forró que fez levantar e balançar a gringada toda! Depois, houve um desfile; e eu fui indicado pelos colegas para conduzir o nosso pavilhão. Confesso que uma lágrima brotou quando naquela sala, recebi a bandeira verde-amarela das mãos do Dr. Aldo Fontao. E foi sentindo um misto de saudade e orgulho, que eu adentrei a passarela...

Finalmente, de volta pra casa, experimentei um jet leg às avessas, um jet leg bem diferente, cultural, social, político! Comecei a pensar:

- Aqui em meu país as ruas são esburacadas, motoristas não respeitam pedestres, funcionários públicos não atendem bem, vendedores olham primeiro para nossa roupa e depois decidem se vão nos dar atenção, bancos massacram a clientela com juros altos e filas intermináveis, o “jeitinho” e a "lei do Gerson" estão presentes em tudo o que é lugar...

Os sintomas desse meu outro jet leg foram indignação e tristeza, causadas pelas comparações que eu acabara de fazer. Hoje eu entendo porque muitos brasileiros sentem uma vontade enorme de voltar; mas, depois que chegam, sentem uma raiva igualmente grande. É o jet leg às avessas! Alguns reclamam muito e ficam insuportáveis nos primeiros dias; já outros ficam chatos para sempre...

Confesso que passados alguns anos depois daquela minha primeira viagem, ainda não me curei desse tipo de jet leg. Simplesmente não dá para ficar passivo diante de certas coisas do nosso tropicalíssimo jeito de ser! Por isso, vivo pregando, ministrando palestras, escrevendo sobre cidadania e fazendo o que posso para melhorar o lugar onde vivo.
 
Hoje é sete de Setembro e apesar de tudo, ainda amo o Brasil!

 
Humberto de Lima.

domingo, 31 de agosto de 2008

Fila de Banco.

O guarda desconfiado põe a mão no cabo do revólver; ele parece mais assustado do que desconfiado.
Uma pessoa muito religiosa chega, e, farisaicamente, vai furando a fila. Por causa disso, a mulher que veio da zona rural, dispara uma, dispara duas, dispara várias rajadas de palavrões.
O adolescente de boné azul come com os olhos a morena da outra fila; ela faz questão de responder, exibindo a aliança de dimensões pneumáticas.
O homem gordo de trás berra ao celular, talvez querendo que todo mundo saiba que ele tem empregados.
A velhinha cansada chega e acaba descobrindo que a fila das velhinhas já está cheia de outras velhinhas e não anda.
O cara grande da frente é um office boy, cheio de pacotes com coisas do patrão para resolver. Vai demorar até que ele deixe o balcão; mas, a opção para quem vem logo depois é esperar ou deixar tudo para outro dia.
Um casal briga bem alto, como se mais ninguém estivesse ali. Felizmente, não falam de coisas mais íntimas; porém o banco inteiro fica sabendo que ela não confia mais nele e vai desfazer a conta conjunta!
Fora da fila, um sujeito com ares de quem está completamente perdido, pede ajuda a um estranho. Fico torcendo para que o estranho seja apenas um estranho.

Eu observo tudo e a mulher de óculos me observa...

- Isso é lugar de gente? Vejam só onde mãe me pariu! – Reclama um coroa baixinho.

Alguém começa a falar mal do presidente Lula, outro diz que o culpado por essa demora é o governador; e, outro ainda, esbraveja dizendo que se os vereadores e o prefeito não fizerem nada, quem estiver mais distante é que não vai fazer mesmo!
Para minha surpresa, o office boy não demora muito; talvez aquele pacote estivesse ali somente para lhe fazer companhia. Menos mal!
Quando chega a minha vez, tento ser simpático, digo boa tarde e abro um sorriso para a moça do caixa, na esperança de fazer daquele momentinho um momentinho mais agradável. Não sei o que fizeram com ela antes que eu chegasse. O sorriso bate, mas não volta.

- O senhor vai ter que ir para outra fila!
- Por quê?
- Aqui só recebemos até três pagamentos! A menina está aí avisando!
- Moça, eu lhe peço que receba tudo desta vez porque a menina não me disse nada.

Chamo a menina e ela justifica sua ausência, dizendo que não tinha mesmo me avisado nada porque fora chamada para ir até à sala da gerência. Finalmente, meus quatro pequenos pagamentos são efetuados.

Cinqüenta e dois minutos depois de minha chegada à agência, eu saio do balcão, meneando a cabeça... A mulher de óculos pisca o olho pra mim e diz, ironicamente:

- Viva o Brasil!



Humberto de Lima

sábado, 23 de agosto de 2008

A outra

O caso já tinha algumas semanas e a esposa andava meio desconfiada. O esposo passava todos os dias e o dia todo correndo para dar conta dos negócios da família; e era pura vitalidade! Mas, quando a noite chegava e junto com ela a hora boa de deitar, o maridão mudava de aparência, ficava cansado, tinha dor de cabeça, caía dormindo igual a um leão atingido por uma injeção de tranqüilizantes.

Era só mudança de aparência mesmo; pois, assim que a mulher dormia (e o sono dela era pesado), ele levantava de mansinho, saia na ponta do pé e corria para o lugar de sempre, onde a outra já o esperava sem fazer barulho.

Já cansada de tentar seduzi-lo, ela deitou, pensando em no outro dia desabafar com alguma amiga ou contratar alguém que a ajudasse a descobrir o mistério. Ele, como das outras vezes, ressonava alto; mas naquela noite, para ela o sono vinha e ia embora de novo, fazendo-a dormir e acordar a cada meia hora. De repente, passou a mão pela cama, procurando o corpo de seu homem e não achou nada, se beliscou para ficar certa de que não estava sonhando, e tateando, viu que o lado onde ele dormia já estava frio.

- Faz tempo que ele saiu! – Disse pra si mesma, enquanto se erguia bem devagar, para achá-lo.

Calçando pantufas, lentamente, sem acender luzes, ela foi vasculhando cada aposento da casa, sem encontrar nada no térreo. Só faltava ver o andar de cima; e, sem hesitar, continuou sua busca, disposta a dar uma surra na invasora, tão logo os flagrasse.
Ao ver a cena que acontecia dentro do escritório, se jogou sobre a outra, agarrando-a e atirando-a ao chão. Lançou mão de uma ferramenta que o marido havia esquecido sobre a estante e começou a bater compulsivamente. Ele até tentou segura-la, mas o pior acabou acontecendo! Diferente do que vemos naqueles filmes americanos em que a polícia sempre aparece no final, ninguém ouviu nada, ninguém interveio. Da outra não restou software nem hardware.

No dia seguinte, depois de uma conversa mais amena, ele jurou que não iria mais trocar sua mulher por uma máquina; e ela, garantiu que nunca mais iria destruir computadores.

À noite, já reconciliados, enquanto bem acordados faziam tudo o que ela mais queria, ele não se conteve e gritou:

- Mulher, como eu estava perdendo tempo com aqueles jogos eletrônicos!
- O quê?
- Você é demais!
- Oi?
- Você é tão boa! Muito boa!
- Oh, yes!



Humberto de Lima

sábado, 16 de agosto de 2008

Por onde anda Suelen?

Poucos olhares me marcaram como aquele olhar e poucos sorrisos foram adicionados ao HD de meu cérebro de forma tão permanente. Ao vê-la pela primeira vez não tive dúvida de que estava encontrando uma pessoa de bem com a vida. E era mesmo!

Quando a conheci, fui logo perguntando se ela trabalhava e estudava. Ela disse que trabalhava numa loja, mas estava impedida de estudar por causa do emprego.
Contou que se num dia trabalhava das 9:00 às 18:00, no outro dia deveria estar lá das 13:00 às 22:00, sempre com uma hora de intervalo para almoço ou jantar. As folgas aconteciam uma vez por semana em dias incertos, com direito a um domingo livre por mês.

Sugeri então que ela solicitasse do chefe a possibilidade de ter um horário fixo, que lhe permitisse estudar pela manhã ou à noite. Ela disse que já tinha falado com o gerente; mas, ouviu que a empresa queria colaboradores que se dedicassem em tempo integral. De outra forma, como poderiam contar com suas horas extras?

- Isso é injusto. Deveriam te deixar trabalhar num horário e estudar em outro! – Desabafei enquanto a escutava.

Assim, como quem levanta um cobertor, fui pouco a pouco descobrindo os problemas e os sonhos daquela moça pobre, saída de uma escola pública medíocre. Ela vivia com a mãe desempregada e um irmão menor; pois o pai havia ido embora para viver com outra mulher lá para as bandas de Pernambuco. Em sua lista de desejos estava um cursinho pré-vestibular, a vontade de ser jornalista, a compra de uma casa... Sonhava também casar com Heitor, rapaz operário de uma indústria, com história bem parecida com a dela, cuja foto carinhosamente carregava na bolsa.

E prossegui, argumentando que ela não conseguiria muita coisa se continuasse trabalhando para o mesmo patrão. Ela sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, enquanto, enquanto me mostrava uma pasta com várias cópias de seu magrinho currículo.

- Hoje é dia de trabalhar de tarde, mas eu aproveito para ir à luta de manhã!
- Se for persistente, você vai conseguir!

Nas poucas vezes em que a ví não tive o cuidado de lhe dar e-mail nem telefone. Como gostaria de ter acompanhado aquela história! Ela sumiu. Será que a transferiram para outra loja? Será que já conseguiu outro emprego? E o cursinho? E o vestibular? E a casa nova? E o Heitor? Já faz tanto tempo! Por onde andam?

Anos depois, lembrando da história, fico zangado porque sei que isso continua se repetindo do Oiapoque ao Chuí. Por isso, apelo aos Senhores Deputados de plantão para que elaborem um projeto de lei proibindo que lojas e fábricas continuem fazendo com outras meninas e rapazes a mesma coisa que fizeram com Suelen! Vamos acabar com esse abuso! Nossos jovens de 18 a 30 anos precisam ter horários de trabalho fixos para que possam frequentar a escola ou faculdade!

Humberto de Lima

sábado, 9 de agosto de 2008

Os suspeitos.


Foi em Campina Grande. Uma silenciosa e quase mortífera explosão poluiu o espaço; e, uma risadinha se fez ouvir em meio ao barulho do shopping center.

- Aff! Foste tu? – Perguntou a moça.
- Eu não! – Respondeu o namorado.
- Tem certeza mesmo de que não foi você?
- É claro que tenho! Você não tem? – Revidou ele.
- Não tenho mesmo certeza de que não tenha sido você!
- Ah! Eu também tenho minhas dúvidas de que não tenha sido você, mas a minha certeza é de que não fui eu e pronto!
- Então, se não tiver sido um de nós dois, quem terá sido?
- O rapaz...

Outra risadinha feminina aparece no ar.
- É, o rapaz! Pode ter sido ele mesmo!
- Sei lá, ele está lendo e parece tão sério...
- E desde quando leitura e seriedade garantem que não tenha sido ele?
- Hum... Você está tão interessado em me convencer de que foi ele...
- Ora, se temos certeza de que não fomos nós, tem que ter sido ele, é claro!

Uma terceira risadinha, e, eu me viro discretamente para ver os dois.
Descubro que no banco de trás não havia ninguém mais com eles; no banco da frente, apenas eu, minha caneta e minha agenda, escutando tudo. Eu também era suspeito!

Embora eu tivesse achado engraçada a discussão dos dois, resolvi não participar, deixando comigo mesmo minhas dúvidas e minhas certezas. Continuei lendo, sério, exatamente como a moça me havia observado.

Por falar em certezas, eu estava absolutamente seguro de que uma segunda explosão na mesma escala ou em proporção maior, acabaria por me expulsar daquele lugar. Por falar nisso, qual é o tipo de escala utilizado para medir flatulência? Felizmente não aconteceu mais.

Chegou a hora de ir para a faculdade. Deixei os dois lá, namorando, discutindo...
Depois de uma tarde chata, em que havia enfrentado várias filas, ainda lembrando daquela conversa, me peguei rindo, caminhando em direção ao ônibus.

Mas, quem foi? Quem sabe?


Humberto de Lima.

domingo, 3 de agosto de 2008

Reflexões na canoa.


Era cedinho quando saí de casa. Junto com os filhos da vizinha, me dirigi ao quintal de Seu Nô, onde outros meninos nos esperavam em um ancoradouro com várias canoas atracadas. A maré cheia e o cheiro do manguezal me fascinavam. Tudo o que eu mais queria era explorar aquele mundo novo.  Os meninos mais experientes e mais afoitos entraram na água e logo desapareceram em um ponto onde o rio fazia a curva.

Sozinho, com água pela cintura, alcancei a primeira embarcação e fui saltando, uma por uma, até chegar à última delas, bem mais distante, num local que eu imaginava interessante para dar meu primeiro mergulho. Estava seguro. Havia pegado emprestado na biblioteca do Grupo Escolar um livro sobre natação que foi lido e relido em um único dia. 

Não tenho como descrever a agonia que senti! Desci, subi, desci de novo, engoli água, me debati; e, por fim, não sei como, desesperado e ofegante, consegui alcançar a canoa e voltar pra ela. Com meus treze anos de idade, deitei dentro do pequeno barco e assim fiquei por algum tempo, pensando assustado nas duas grandes verdades que acabara de descobrir:

1. Eu não era tão imortal o quanto pensava que era;
2. Eu teria que voltar para a água, se quisesse aprender a nadar.

Chamei um dos colegas que se aproximava e lhe contei tudo. Ele me disse: - Beto, tu tá doido? Aqui é muito fundo pra quem ainda não sabe nada! Tem que voltar pro raso e começar por lá!. Então, respeitando a natureza, comecei a ensaiar minhas primeiras braçadas. Alguns dias depois eu já nadava como os outros!
 
E o livro? O livro não era ruim. Mostrava com figuras os diferentes estilos de nado e trazia outras informações interessantes. O meu problema foi pensar que tinha aprendido no livro uma coisa que eu só aprenderia na água!

Às vezes reclamamos que Deus não ensina nada, não fala nada, não diz nada em relação a algumas situações da vida. Mesmo a Bíblia, em alguns momentos somente nos apresenta princípios gerais de vivência, que parecem não se encaixar muito bem no caso específico. Por exemplo, onde na Bíblia você encontra respostas para perguntas como: Compro uma casa ou um apartamento? Vou ser ginecologista ou pediatra? Fico com Genoveva ou com Magnólia? É em situações assim que muitos correm atrás de “profetas” manipuladores e acabam se frustrando por seguir orientações que são dadas em nome do Altíssimo, sem que Ele tenha dito uma só palavra.

Embora eu admita a possibilidade de exceções, acredito ser regra de Deus silenciar em relação a algumas respostas que devem ser encontradas no vivenciar das circunstâncias de cada dia. Algumas lições devem ser aprendidas na água!
 
Imagine se seu pai tivesse segurado você no colo para evitar que você não sofresse nenhum tombo; você simplesmente estaria atrofiado e não teria aprendido a andar! Como um bebê que aprende a andar caindo e levantando, nossos erros e acertos nos serão úteis para o resto da vida.
 
Depois daquela experiência, eu escolhi tentar de novo e de novo até conseguir a façanha de deslizar suavemente por cima e também por baixo das águas do velho e ainda limpo Sanhauá. Assim é a existência. Use a fé , o bom senso e a inteligência que Deus lhe deu, enfrente a maré da vida e você e sairá nadando. 

Humberto de Lima

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Eles me chamavam de Beto.


A primeira casa era de taipa, coberta de palha, numa rua sem calçamento, onde corria água suja e a meninada com os pés descalços corria também. O quintal, como todos os outros, era bem grande, com coqueiros, trapiá e uma cerca de varas. Tínhamos galinhas, patos e outros bichos; além deles, meu irmão, sempre dava um jeito de adotar um gato. 

Por trás da rua ficava a mata de eucaliptos, por trás da mata de eucaliptos ficava a Mata da Graça e a linha do trem cortava a Ilha bem ao meio. Por volta dos doze anos, brincávamos de futebol, coruja, bola de fone, pião, cavalo de pau, policia e ladrão... Mas tudo isso era deixado de lado, em troca da mais recente descoberta: os banhos de rio!

Crescemos ouvindo que o Sanhauá era coisa pra gente grande; mas, a gente desobedecia e ia assim mesmo. Vez por outra, alguém morria afogado; então, os meninos iam ver o defunto e todos ficavam alguns dias sem sair de casa e sem querer comer siri. Era bom quando aparecia algum adulto que nos chamava para ir pescar e se responsabilizava por nós. Pouco a pouco, a idade da gente, os caranguejos, peixes, siris, aratus e goiamuns que levávamos pra casa, iam transformando a proibição em permissão.

Cabó, Mica, Bitel, Galego, Lindo... Todos tinham apelido e até hoje eu não sei qual era o nome verdadeiro de alguns deles. As meninas cresciam também ali, misturadas com a gente, mas só na adolescência é que nos dávamos conta da importância delas. Lembro bem de um dia em que vários de nós fomos a pé, se equilibrando sobre os trilhos da linha férrea, comprar limão na feira de Bayeux. Naquela época, nós acreditávamos que esfregar limão pelo corpo nos ajudaria a virar homens mais depressa! 


Durante a semana, tínhamos aula no Grupo Escolar Raul Machado e, aos domingos, quem era católico ia para a missa e quem era protestante ia para a escola dominical na Igreja Presbiteriana, na Igreja Batista ou na Assembléia de Deus.

Em casa, a vida era muito simples. Meu pai era do Corpo de Bombeiros, minha mãe vendia carvão e meu avô era aposentado pelo antigo Funrural. De manhã, comíamos sempre pão, café e manteiga; nas outras refeições, tínhamos arroz, feijão, cuscuz, ovos e charque. As galinhas do quintal eram comidas aos domingos. Puxar água da cacimba foi tarefa da família durante muitos anos. Quando chegou água encanada no bairro, dava pra ouvir a celebração dos adolescentes: - Banho de chuvisco, banho de chuvisco!


Não tínhamos aparelho de TV e ninguém vendia jornal na vizinhança; um rádio velho instalado na cozinha trazia as notícias do mundo lá fora. Hoje dou graças a Deus por ter crescido ouvindo meu avô Venâncio dizer:

- Acredite em Deus, estude, trabalhe e nunca roube nada de ninguém!

Apesar das carências financeiras e das limitações que me eram impostas por uma religiosidade legalista, eu não me preocupava com o futuro. Contar semanas, meses e anos não era ocupação minha nem dos outros garotos. Faltava noção de tempo mas sobrava noção de vida! Eu e meus colegas gostávamos mesmo era de ser meninos naqueles tempos em que eles me chamavam de Beto!

Humberto de Lima

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